Cansei de Acreditar no Amor
Eu jamais compraria um sorriso, mas não ligaria em gastar o que fosse preciso, só para ver quem eu amo, sorrindo...
Se por ventura a cor desbotar
e um céu azul aparecer
não te demores
é tempo de colheita
de bons ventos
de boas aguas
pois o que parece fim
é estranho dizer
renasce
floresce e cresce
ainda mais próximo do verão
pois todos verão
de onde nada poderia vir
surgir o novo, colorido, pintado a mão
pelo dono da vida
que tão sutilmente chamou sua obra
de amanhã...
Muitas vezes, a gente é que corre atrás de problemas e cada um sabe muito bem o porquê de agir assim...
Pelos lindos momentos que tivemos
peço-te o riso
mas não gargalhes tanto
a inveja anda por ai à espreita...
Deram o verbo
a misoginia
a esperança disfarçada de poesia
a ironia
num universo qualquer
os abstratos de um poema
problema?
nenhum!
não fosse a vontade soberana de ousar
criar, buscar
numa colcha de palavras
o descaminho...
Menina borboleta
nunca percebeu
que o jardim morava dentro
carregava primavera nos olhos
vento nos cabelos
e um silêncio cheio de cor
aprendeu que crescer
não é deixar pétalas pelo chão
é criar asas
mesmo com medo
menina borboleta
abrindo o mundo devagar
sem pressa
só luz
Gerar um filho é dar início a uma contagem regressiva que termina, inevitavelmente, na dor da perda e no silêncio da ausência.
Gerar a vida é outorgar uma sentença de morte, mas é justamente a sombra desse fim que ilumina a urgência de transformar cada instante em um tesouro irrepetível.
Registro de Voos
Levados nos braços do ar
foram-se a tranco e barranco
será que se cansaram de estar em branco?
Caíram no rio que os levou ao mar
o sol os secou, novo vento os levou a voar
e os papéis não são mais os mesmos
Fartos de experiência real
pois nessa aventura mundana
chegaram a tocar na lama
Seguem já não tão alvas
nos braços do tempo
as folhas sem palavras
Levam em seu corpo de celulose
registros de sua metamorfose
fruto de experiências
Sem letras, canetas e impressoras
parecem pessoas
sem lingua humana
Sabemos que podem voar
embora reconheçamos
diferenças de papéis dos humanos
Voam, levando ou levados
cada um do seu jeito, na cabeça ou no vento
e seus voos são registrados
No canto do espelho quebrado, um peixe com asas azuis engole o som de uma música velha que vem do fundo d'água. Pingos de prata escorrem pelas teclas de um piano invisível, fiapos que não se encostam, mas cochicham coisas no escuro. Por que o relógio amolece nas mãos de outro relógio parado? Uma abelha de vidro voa entre nuvens de algodão doces, levando pó de lembranças que nunca existiram. O vento leva folhas de jornal velhas, letras misturadas como cartas num baralho sem jogo.
A Pedra da Rotina
Botar mais liberdade na rotina
Coloca-nos o rosto no presente
nos faz mais sábios e inteligentes
Liberta-nos dos olhos a menina
Afasta o tédio que nos contamina
Altera o ritmo não envolvente
Motiva-nos sempre a olhar pra cima
Sem tropeçar na pedra que há na frente
Porque quando agimos sem pensar
Podemos entrar em anestesia
E mal acostumar nossa visão
Mas tudo pode ter mais alegria
Se mesmo ao repetir uma ação
Mudarmos nosso modo de olhar
Não é a inteligência artificial que vai destruir o ser humano, e sim, um outro ser humano ou melhor um ser desumano!
Raidalva de Castro
