Camelos e Beija Flores Rubem Alves

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Falar a verdade tem um peso colossal: arrasta a insegurança, espanta o medo e extermina a mentira.

Essa Tal Modernidade

O mundo moderno é cheio de nuances que muitas vezes engolimos calados. Sábios pesquisam, experimentam e, ainda assim, não chegam a conclusões definitivas; as dúvidas persistem e, por vezes, se ampliam diante do status quo. Já os incautos do conhecimento, na linguagem criada por eles mesmos chamados de idiotas, exibem prontamente certezas ruidosas, empolgam-se com teses artificiais e chegam rapidamente às mais mirabolantes conclusões.

A dificuldade de escutar, aliada à febre da chamada leitura dinâmica, gera intelectos rasteiros, repletos de pseudorrazões. A antiga aliança entre o desejo de saber e a pesquisa praticamente desapareceu. Questionamentos naturais e concepções enraizadas na razão perderam espaço para leituras de manchetes e informações sinopsadas, que hoje parecem conter o contexto de nossa sociedade.

A crise do século XIV foi provocada por uma combinação de fatores: a crise agrícola e a fome decorrentes de más colheitas, agravadas pela Grande Fome de 1315–1317; a devastação causada pela Peste Negra, que matou cerca de um terço da população europeia; os efeitos destrutivos de conflitos prolongados como a Guerra dos Cem Anos (1337–1453); e o aumento das tensões sociais que geraram revoltas camponesas, como a Revolta dos Camponeses de 1381. Esses fatores enfraqueceram o sistema feudal e mergulharam a Europa em profunda instabilidade.

Há quem sustente que tudo isso foi consequência do afastamento do homem da religião, interpretação difundida por setores da própria Igreja medieval, então grande detentora de terras e poder político.

No presente, o estancamento do conhecimento que vivemos pode ser associado ao distanciamento da leitura didático-hedonista e à supremacia de uma tecnologia que incentiva o “saber fácil”. A antiga pesquisa, realizada em diversos livros impressos e confrontando autores e ideias, perdeu espaço para cliques rápidos que oferecem um conhecimento leve e, muitas vezes, superficial.

Ainda assim, a defesa integral da tecnologia como fonte preponderante em nosso trabalho diário será sempre minha bandeira. A utilização racional dessa ferramenta nos conduz a ratificar e ampliar substancialmente o conhecimento. A convergência entre saber empírico, ciência e tecnologia torna-se um levante do bem para a expansão maciça de nosso entendimento.

O otimista se oxigena nas dificuldades, transforma-as em oportunidades e carrega o aprendizado como bandeira suprema.

A competição mais acirrada é consigo mesmo; as demais, quando leais, transformam rivalidade em virtude.

Algumas pessoas brilhantes permanecem invisíveis não por demérito, mas pela ausência de um palco adequado.

O “não” dos outros converte-se em impulso, não como negação de sua essência, mas como expressão do prisma equivocado deles.

O auge da ignorância transforma o bem em caricatura e o mal em regra.

Viver o hoje é salutar;
quem poupa felicidade coleciona ausências.

O mal que assola a sociedade contemporânea raramente é intencional; muitas vezes emerge do emaranhado informacional e das próprias mazelas da modernidade.

A Educação lapida e multiplica o limiar dos saberes.

Se o silêncio se transfigurar em eloquência, a retórica perde sua persuasão.

LEVIDADE


É preciso leveza
para seguir em frente;
para viver o instante
e brincar com o presente.


Deixar o excesso,
ser vento, ser pluma;
navegar na calma
que o tempo apruma.


Aceitar as marés,
sempre em comunhão;
dançar com a vida,
e soltar a canção.


Entre o peso e a rotina
escolher a alforria;
fazer da noite menina,
e celebrar o dia.

O homem, por mais maduro e plissado que seja, muitas vezes chora por coisas frugais, como as crianças.

Quando a própria companhia lhe traz paz, não a evite nem hesite; apenas não abdique do esforço de socializar.

Quando a justiça e a liberdade se conciliam, o bem-estar vira praxe.

Alguns amores não nos matam, apenas nos deixam vivos demais para esquecer.

Uma cama de casal também pode ser o lugar mais solitário do mundo.

O corpo sempre percebe primeiro quando o amor começa a ir embora.

É quase uma regra: quando estamos na pior, somos mais humanos; logo que melhoramos, o egocentrismo emana.

A Dialética da Hipocrisia

Tem gente que sonha e não busca seu espaço.
Tem gente que briga, mas é um eterno covarde.
Tem gente que adoece e jamais procura a cura.
Tem gente que planeja e nunca se organizou.
Tem gente que se diz discreta, mas adora fazer alarde.
Tem gente que é lenta para o dever, mas veloz para o interesse.
Tem gente que é tagarela, mas não quer ouvir.
Tem gente que grita e não se cala na hora certa.
Tem gente que chora e não suporta ver ninguém chorando.
Tem gente que crê em Deus, mas vive chamando pelo demônio.
Tem gente que canta e não deixa ninguém assobiar.
Tem gente que reclama e nunca reivindicou coisa alguma.