Luiz Guilherme Todeschi
Um erro clássico, principalmente entre os que tendem a avaliar todas as coisas pelo viés de suas crenças, é supor que a tão propalada “lei do retorno” só acontece no plano da batalha filosófico-religiosa travada entre o bem e o mal, obedecendo à suposta premissa divina de crime e castigo em que sua ira é despejada sobre os que levam prejuízos a outrem. Fosse eu esse deus alegadamente constituído de justiça e amor, ficaria muito incomodado por me vir transformado em mero guarda-costas dos bons e juiz dos que me fazem mal, até porque qualquer gestor eficiente teria uma estrutura para fazer isso por ele. Se há algo que não depende de crença alguma para ser levada a sério e deixa a balança nas mãos da própria natureza humana é a lembrança de que tudo o que fazemos tem consequência, e quanto mais repetirmos os mesmos erros o “retorno” se fará proporcional, já que definimos o modo como seremos vistos e o que extrairemos de tal postura. Então, natural e independentemente de inquisidores, mais dia menos dia a conta chega. Simples assim!
Para quem não sabe a diferença entre justiça social e extremismo talvez isto ajude: se acredita que todos as pessoas bem situadas na vida são opressoras, e toda pessoa de área carente é vítima, então você é extremista e sem noção. E se acha que toda pessoa de pele branca é íntegra, e todo negro é bandido, você também é extremista e, além de tudo, imbecil. Então só fale em justiça social quando entender que existem pobres e ricos éticos e não éticos, como também brancos, negros, amarelos e vermelhos que adoram passar por vítima para jogar uns contra os outros e usar o resultado em benefício próprio.
Toda limonada começa pelo amargor do limão. É sua postura não conformista em relação ao que lhe chega que pode combinar resiliência e criatividade o bastante para transformá-la numa deliciosa e refrescante limonada!
Se você está entre os que primam por equilíbrio e ponderação nunca trate de futebol, política ou religião com extremistas, seja para apoiar ou combater o que defendem, pois tudo o que irá conseguir é agravar ainda mais o fanatismo deles.
Cada pessoa é um universo paralelo, e sobre isso nunca teremos nenhum controle. O conjunto de idiossincrasias que nos compõe deixa-nos tão inigualáveis quanto nossas digitais, só que no plano do impalpável. Essa é a causa de nos virmos completamente sós em meio a pessoas do trato obrigatório, e tão intimamente ligados a outras com as quais sequer mantemos contato físico.
O momento dessa descoberta resulta num sentimento avassalador de solidão que não tem qualquer relação com a dos inseguros e deprimidos, mas com a do guerreiro antes da batalha pela convicção de que tudo o que virá dali por diante depende unicamente dele, seja para sucumbir ou vencer, e nenhuma intervenção externa – por mais enfática que se mostre – conseguirá amenizar coisa alguma. Universos semelhantes ao nosso, no entanto, terão um papel fundamental no fornecimento da carga necessária às nossas baterias.
Em todo meio existe o lado que escolhe o certo e o que escolhe o errado, e a princípio não é justo que um pague pelo outro, ou seja: que quem respeita as regras pague pelas exceções. O problema é quando tudo vira corporativismo, onde o lado certo se omite e o lado errado se aproveita disso para fazer o que quer, igualando-se eles próprios perante as necessárias medidas de contenção, pois que transformados em malfeitores e cúmplices e, como tal, sujeitos tanto ao bônus quanto ao ônus de suas posturas.
Num ambiente político marcado pela polarização levada às ultimas consequências nunca se analisa a procedência de uma crítica – por mais isenta que se mostre – sem que a esquerda nos acuse de “cúmplices da opressão” e a direita de “defensores da desordem”. Em outras palavras, somos combatidos apenas por atuar como um espelho de duas faces que expõe o radicalismo dos dois ao escolher o caminho mais fácil, que é lançar a culpa no outro lado em lugar de refletir sobre seus excessos e incoerências pela ausência absoluta de senso crítico.
Houve um tempo em que acreditei que viver muito era o melhor que poderíamos receber da vida. Hoje sei que irá depender do quanto se consegue ser feliz nela, ou então pode não ir além de uma maldição.
O pior em sociedade é o doutrinamento, já que confundido com “chamada à verdade”. Mas no ensino real se entrega a chave para que o aprendiz busque a resposta por si mesmo, pois se o desejar ele o fará. Já no doutrinamento se busca transferir a crença do “correto presumido”, ilegítimo pela pretensão de que se detém a verdade, da suposta prevalência de uma crença sobre outra, e de uma imposição onde só a nossa versão é válida. Em suma, revela a arrogância de quem vê em si algo superior ao existente em todos os outros, e é isso que faz do doutrinamento um ato tão torpe.
A verdade real só é alcançada pela busca voluntária e consciente. Toda tentativa de transferi-la por osmose expõe o benefício trazido somente ao agente, e não ao seu alegado beneficiário.
Quando penso em desistir lembro que não posso pensar como indivíduo, mas como espécie... E como espécie o que menos importa é o que faço, mas seu significado.
Em um universo todo estruturado sobre o absurdo,
não há nada mais inútil do que questionar exceções.
O caráter é como a lâmina de uma faca que pede reação ao primeiro sinal de ferrugem: quando aparece pode ser removida com um leve passar da esponja, mas logo se integra para fazer com ela uma coisa única que não permite mais separar-se uma da outra.
E não sendo logo retirada do faqueiro a corrosão se estende a todas as que lhe estão próximas, não restando uma que não se transforme em prolongamento da que deixou de ser aço para ser ferrugem.
Toda ciência humana só se faz confiável quando toma o aqui e agora como parâmetro para qualquer realidade que tente provar. Sempre que for utilizada para embasar conceitos definitivos se terá apenas uma nova crença – não importando sua natureza – mas nunca ciência.
A esperança num Brasil real reacende todas as vezes que escutamos alguém exibindo um lado que é o mesmo de qualquer ângulo que se olhe, seja pela ótica pública quanto na privada!
Oxalá um dia consigamos moldar uma humanidade que não precise escolher entre este ou aquele ismo, mas apenas entre o que é verdadeiro e o que não é.
