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O AMOR COMO PROTESTO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Hoje posso entender, perfeitamente, os que sĂł falam de amor. Cantam, versam, conversam, decantam e vivem toda a entrega dos que amam em forma de arte. Rendo minhas homenagens ao essencialmente romĂąntico, ao brega e ao derretido que parecem nĂŁo ver o mundo em todas as suas vertentes vivenciais... e ainda se dĂŁo ao luxo de serem livres da repressĂŁo econĂŽmica.
Eles rompem com tudo, se alienam, e mora nisto a nĂŁo alienação. É assim que fazem o grande protesto sociopolĂ­tico. NĂŁo hĂĄ nos poderes constituĂ­dos quem os governe ou represente. Mais ainda, eles matam de raiva os intelectuais, os militantes fanĂĄticos ou neurĂłticos, amantes ou desafetos do governo. NinguĂ©m consegue mentir para suas esperanças em verdades alĂ©m das emoçÔes.
Os que vivem de amor tĂȘm seus castelos, e nĂŁo apenas de sonhos, ilusĂ”es e sentimentos. TambĂ©m sĂŁo de alvenaria, luxo e ostentação. Eles tĂȘm o poder, porque arrastam coraçÔes e perdem noção da prĂłpria força. SĂŁo amados mesmo sem pedir votos, enriquecem sem roubar e nĂŁo mentem pro povo, pois nĂŁo precisam; sua verdade casa com a mais profunda verdade que nos habita.
Politicamente corretos em tempos de rebeldia enganosa, distorcida, os artistas do amor sĂŁo a direita honesta e transparente, alĂ©m de representar a todos... atĂ© os que fingem detestar o derretimento em versos, notas musicais, cores e outras formas de arte. O poder pĂșblico e seus pingentes nunca entenderĂŁo o amor que seduz sem fazer promessa enganosa nem pagar propina.

Inserida por demetriosena

POEMARKETING

Demétrio Sena, Magé - RJ.

No dia dos namorados,
dĂȘ de presente
ou sĂł de prosa,
uma linda rosa
e o mais importante:
um colar de pérolas,
de ametistas
ou de brilhantes...

Inserida por demetriosena

CORAÇÃO DE CONDOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sou poeta por sonho; nĂŁo Ă© por ofĂ­cio;
sĂł assim Ă© possĂ­vel me manter poeta;
nem o sou por costume, sacerdĂłcio, vĂ­cio,
muito menos movido a cumprir uma meta...

NĂŁo almejo medalha, pois nĂŁo sou atleta,
como nunca me obrigo a nenhum sacrifĂ­cio;
faço curvas, desfaço, vou em linha reta,
colho minhas razÔes numa espécie de hospício...

Cabe neste soneto meu verso de agora,
que depois voa livre, totalmente fora
de medida, engradado, rima, tradição...

Sou harpia, condor, sei traçar meus percursos,
rompo redes de arcĂĄdias, grĂȘmios e concursos,
pela força das asas do meu coração...

Inserida por demetriosena

RESOLVIDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Inventei as verdades que a quimera quis,
tive todos os sonhos que as verdades deram,
fui feliz do meu jeito sem jeito e sentido
para quem ser feliz Ă© ter sempre a comprar...
Amei muito, sofri, fui amado, nĂŁo fui,
mas amei essa honra de poder sentir,
desmentir a mim mesmo pra mentir de novo,
recobrar esperanças tantas vezes mortas...
Tive tempo de ser tanto ser em um sĂł,
sem jamais abrir mĂŁo de quem fui realmente,
alma e pĂł, flor, semente, refruto contĂ­nuo...
Vi luares, manhĂŁs, madruguei vendo estrelas,
trabalhei pra viver e preservar meu Ăłcio,
fui um sĂłcio da vida e parti resolvido...

Inserida por demetriosena

SÓ E SÓ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A solidĂŁo
do solo
e a solidez
da solidĂŁo,
sĂŁo o que hĂĄ
de mais concreto
neste abstrato
mundo cĂŁo
da minha falta
de afeto.

Inserida por demetriosena

DONO DO MEU TODO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho fantasias inibidas de um atrevimento sĂł meu. Uma timidez despudorada. Secretamente despudorada. Muitas vezes, meu corpo nada mais quer do que as carĂ­cias leves do vento.
Vem aquele desejo enorme de seguir uma estrada sem levar bagagem. Nem panos na pele. De nĂŁo temer consequĂȘncias, porque nĂŁo haverĂĄ. Porque serĂĄ transparente o sentido verdadeiro de um ato nĂŁo tresloucado, por ser apenas libertĂĄrio.
Para o que ouso idealizar, nĂŁo haverĂĄ espadas nos olhos; nem cicuta nas lĂ­nguas; nem pedras nas mĂŁos de quem me vir tĂŁo eu. TĂŁo dono do meu tudo e seu nada mais.
Nessas minhas fantasias, imagino que o corpo não agride. Que me atiro além da estampa e minhŽalma veste a pele. Minha carne se torna uma vitrine sincera de quem sou por dentro.
Momentos meus. Do meu eu comigo e mais ninguém. Quando sou deus do meu mundo e toda lei é minha. Não tenho pecado, porque tudo posso no sonho que me fortalece.

Inserida por demetriosena

CIÊNCIA E PRAZER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nunca deixe de fazer aquilo que lhe faz bem, só porque não existe comprovação científica de que aquilo que lhe faz bem lhe faz bem.

Inserida por demetriosena

AULINHA DE PORTUGUÊS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Toda surpresa Ă© inesperada, e sĂł se desce para baixo; sĂł se avança para frente, como nĂŁo existe certeza, se nĂŁo for absoluta. Pleonasmo vicioso Ă© como chover no molhado. É dizer o desnecessĂĄrio, para explicar o que se auto explica.
Conheci um homem tão revoltado com os políticos, que decidiu estabelecer um protesto sistemåtico, da seguinte forma: viajava por todo o país, para se postar em frente às prefeituras, aos palåcios de governos estaduais, cùmaras legislativas de todas as instùncias e culminar com o palåcio do planalto, aos berros de: "Políticos safados! LadrÔes! Corruptos! Descarados! Assassinos!
Eis aí um caso clåssico de pleonasmo vicioso. Aquele homem pouparia tempo, adjetivos e garganta, se tão apenas enchesse de ar os pulmÔes, estufasse bem o peito e pigarreasse, para gritar em alto e bom som: "Políticos!!!".

Inserida por demetriosena

SÓ ISSO TUDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

SĂł queria estar dentro, de tĂŁo perto;
Ser apenas teu prĂłximo excessivo;
Quando eu fosse mergulho em mar aberto,
Tu serias meu mar e meu motivo...

Tua lavra de amores, teu arquivo,
A miragem real em teu deserto,
Ser teu sonho me faria mais vivo
E minhÂŽalma seria teu enxerto...

Eu queria somente ser teu todo,
Minha sombra criaria o teu lodo,
Quero apenas sonhar com tal magia...

Meu desejo nĂŁo sabe ficar mudo;
Foi assim que fiquei; sĂł isso tudo;
Sou a noite que vive pro teu dia...

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SAGRADO RECESSO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem vier me buscar pra me pĂŽr no batente,
sĂł terĂĄ de retorno meu sonoro nĂŁo;
a nĂŁo ser que me leve, uma estrela cadente
que me pegue no pé ao invés de na mão...

Hoje quero sĂł rede; nem piso no chĂŁo,
pois me dei este dia de agrado ou presente;
quero sombra com ågua, café, queijo e pão
e poemas com sonhos do forno e da mente...

Pra dizer a verdade, ficarei assim
até quando a canseira não der mais por mim;
a minhŽalma também estiver descansada...

AmanhĂŁ na ressaca da paz deste agora
serei dono do tempo, jĂĄ mandei a hora
me despertar meio dia da madrugada...

Inserida por demetriosena

RECUO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Apaguei o meu fogo pra todos que um dia
sĂł me deram soslaio em troca dos meus olhos,
foram hora tardia se lhes dei mais tempo,
pois desconfiaram de minha confiança...
Abortei meus afetos por todos aqueles
que me deram as costas quando fui frontal,
viram mal nos empenhos do meu bem querer
desarmado e disposto feito exposição...
Dou ausĂȘncia completa para quem me viu
como aquela presença que jå era tanta,
quase planta excessiva para pouco solo...
Deixo em paz quem parece temer uma guerra
ou enterra o seu brilho porque tem temor
do calor mais humano; menos trivial...

Inserida por demetriosena

SE ME CABE SER SÓ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Deixarei de ser flor pras abelhas fugazes;
patrimĂŽnio ecolĂłgico de gente urgente;
quero as pazes comigo e me quero pra mim
onde os dentes nĂŁo rangem pela solidĂŁo...
Se me cabe ser sĂł, que seja sĂł sozinho;
nunca mais serei pausa de barco Ă  deriva;
a ogiva de paz que o silĂȘncio constrĂłi
pra quem sabe o caminho do meu paraĂ­so...
Serei menos exposto, menos ao dispor,
nunca mais tĂŁo fiel pros que chegam e vĂŁo,
usam meu coração e me deixam de novo...
JĂĄ nĂŁo quero servir de grama verde ou rio
para os restos do cio de quem desaguou
e me quer pra repor as energias gastas...

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A LIÇÃO DA NOITE

DemĂ©trio Sena, MagĂ© – RJ.

SĂł se culpe do mal que vier a fazer;
pelas perdas e os danos que fujam do acaso;
nĂŁo por dar ao desejo esse leve prazer
feito flor que respeita os limites do vaso...

Um amor proibido mede alcance, prazo,
onde quem o cultiva tem pleno poder;
sabe quando Ă© manhĂŁ ou jĂĄ se fez ocaso;
seu efeito estĂĄ pronto a pĂŽr tudo a perder...

NĂŁo se culpe de amar a quem nĂŁo deveria;
sentimento e sentidos terĂŁo harmonia
se vocĂȘ platoniza e tĂŁo sĂł insinua...

É preciso aprender a lição de rotina,
quando a noite se forma e borda na cortina
o romance platĂŽnico entre sol e lua...

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PRA VIVER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

SĂł preciso me achar no silĂȘncio da hora
que se tranque no tempo duma vida inteira,
jogue fora meus lixos existenciais
num abismo sem beira que sugira volta...
Quero muito encontrar um momento mais meu
do que todas as posses que jĂĄ tive um dia;
uma hora tardia que me recomponha
e conduza meus passos em um recaminho...
Sei do quanto me devo em verdades bem minhas,
peço ao tempo agiota e não importam juros
nem as novas espinhas na cara do eu...
Nascerei outra vez e serĂĄ pra viver
sem calar tanto sonho e temer os mergulhos
em riachos escuros rumo ao que serĂĄ...

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VEGETAIS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O que falta pra muitos Ă© sentir a falta
do que mora num sonho e nĂŁo foi conquistado,
Ă© estado concreto do que sempre foi
abstrato, platĂŽnico, fora de alcance...
Um amor, algum bem, uma graça pendente;
o que falta pra gente, caso tenha tudo,
serĂĄ sempre uma falta que nĂŁo Ă© sentida,
ressentida no vĂĄcuo desse velho nunca...
Precisamos não ter, pra que o ter satisfaça,
o completo estĂĄ cheio de vazio insano
como dano de nunca ter sentido a dor...
Sofrimento final Ă© de quem nĂŁo sofreu;
hĂĄ um eu que se fere de nĂŁo ter ferida,
quando a vida nos cria no jardim do Éden...

Inserida por demetriosena

SÓ UM CONTO QUASE DE AMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Durante anos e anos, em todos os reencontros ocasionados sempre por ele, depois de longos afastamentos, ela dizia que o amava. Com todas as forças do seu ser. Toda sua verdade. Parecia mesmo que ela o amava, pela comoção demonstrada; os abraços desmedidos; a multiplicação das mãos; os beijos que não escolhiam quais partes do corpo.
Eles eram amigos Ă­ntimos; muito Ă­ntimos. Deitavam juntos inteiramente nus; se acariciavam sem fazer sexo; frequentavam campos, recantos e cachoeiras desertas, onde mais pareciam no jardim do Éden. Trocavam juras de amizade perpĂ©tua, sempre assim: sem permitirem que um romance pusesse tudo a perder. Que as nominatas e os arremates fĂ­sicos os tornassem proibidos, porque ambos jĂĄ tinham em separado, perante a sociedade, nominatas formais incompatĂ­veis com quaisquer outras.
Um dia, ela não reconheceu sua voz numa ligação telefÎnica. E quando ele se anunciou, disse que lå não havia ninguém com aquele nome; portanto, era engano. Certo de que o engano era seu, e de muitos anos, o velho amigo desligou o aparelho e seguiu sem fazer queixumes.
Bem vivido, com uma larga experiĂȘncia de mundo e formado em seres humanos pela escola do tempo, aquele homem sobreviveu ao baque. NĂŁo a culpou e compreendeu que a grande amiga se rendera finalmente Ă s nominatas, mesmo sem os arremates. Fora convertida pela sociedade sempre correta, imaculada, religiosa e defensora de nomes.

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DITADURA CANHOTA

DemĂ©trio Sena, MagĂ© – RJ.

É tanta gente polĂȘmica
sĂł por ser,
ou porque sĂł precisa
se uniformizar,
que se tornou questĂŁo
de sobreviver,
porque agora Ă© polĂȘmico
nĂŁo polemizar.

Inserida por demetriosena

SÓ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sou tĂŁo sĂł,
tĂŁo atado
a este nĂł
de ser tao sem,
que sinto falta
de sentir falta
de alguém.

Inserida por demetriosena

HOJE

DemĂ©trio Sena, MagĂ© – RJ.

SĂł nĂŁo posso dizer que teremos depois;
que seremos pra sempre; nem pra logo mais;
temos mais a fazer do que fazer promessas
ou traçar o destino que a ninguém pertence...
Um amor periférico, à flor do contato,
é meu sonho de alguém até quando não sei,
sem a lei como tĂĄbua de passar a vida
que nĂŁo tem que ser lei nem terĂĄ que ser tĂĄbua...
SĂł aceite o que trago sem nota fiscal,
não me peça projetos que não tenho a dar,
tenho a dor de saber que nada sei de mim...
Temos muitos passados; hoje nos cai bem;
querer bem Ă© tĂŁo livre quanto cisco ao vento
e ninguém é feliz; estar feliz me basta...

Inserida por demetriosena

QUEREÇÃO

DemĂ©trio Sena, MagĂ© – RJ.

VocĂȘ nĂŁo Ă© obrigada a querer o que eu quero. TambĂ©m nĂŁo sou obrigado a nĂŁo querer o que vocĂȘ nĂŁo Ă© obrigada a querer, e por isso quer que eu nĂŁo queira. Quero que fique evidente que nĂŁo quero nada que deponha contra mim, querer... e que neste caso, Ă© sem querer que eu quero o que vocĂȘ jĂĄ nem quer querer.
Seja como for, muito obrigado. Foi um prazer querer o que vocĂȘ queria que eu nĂŁo quisesse, para que o meu nĂŁo querer se ajustasse ao seu, pois nosso querer ou nĂŁo querer jamais seria o mesmo. No entanto, vocĂȘ sĂł me quereria dentro dos contextos do seu querer.
Deu pra mim. NĂŁo deu. Quero sossego, embora sossego seja tudo que nĂŁo quero neste campo, ou pelo menos queria nĂŁo querer. Sobrou respeito, a respeito e despeito do que se quer, nĂŁo quer, queira ou nĂŁo queira que se queira ou nĂŁo, de modo que o respeito nos recomenda o pior, que neste caso serĂĄ o melhor para nĂłs.

Inserida por demetriosena