Andre guide
Tudo deve ser passível de ser criticado, e nosso raciocínio serve igualmente para tal propósito.
E qualquer instituição que, pretensiosamente, age para eximir-se de ser criticada, cai de imediato no maior e mais absoluto ridículo, conquistando o prêmio máximo do desrespeito.
Portanto, permita-se a crítica. De fora para dentro.
E de dentro para fora.
Pode ser que a maior elevação de um espírito lhe cause cada vez mais sofrimento diante da contemplação do mundo. Assim como, na fé cristã, a maior proximidade de seu Criador lhe traga tentações e dúvidas. Espíritos que se elevam também tendem a receber estigmas que rasgam com brutalidade a pele e o juízo.
Todo santo dia eu pego uma mesma avenida em um mesmo horário para ir ao mesmo trabalho.
A avenida está sempre engarrafada,
Devo praguejar contra o mundo?
Devo buzinar e agredir os outros motoristas?
Afinal de contas, por qual motivo deveríamos sentir a mais profunda ira por algum fenômeno que já havíamos anteriormente previsto e que já nos é tão conhecido?
Essa dose de veneno – tola e desnecessária – pode nos matar a todos algum dia.
Quanto mais poderosa uma pessoa se autodenomina, maior é a capacidade de indignar-se – sempre com extrema violência – diante de fatos que são corriqueiros.
Tudo para essa pessoa tende a ser interpretado como um ultraje, porque ela acredita estar acima do bem e do mal, imune a julgamentos éticos e morais, e protegida contra quaisquer reveses.
Já apunhalou seu escravo hoje porque ele respingou vinho tinto em sua roupa limpa enquanto ele lhe servia?
Já açoitou sua serva porque a mulher teve a “audácia” de lhe recusar favores sexuais imundos?
E com que direito a sua empáfia e soberba lhe tornaram um ser humano tão monstruoso, tão vergonhosamente covarde, digno de asco e de desprezo?
Tem coisa mais engraçada do que as caras patéticas dos casais que brigam feio, fazem barraco, bradam publicamente horrores sobre o relacionamento, trocam ofensas expondo detalhes que só deveriam interessar a eles próprios e depois fazem as pazes, bonitinhos e alegrinhos, e saem de mãos dadas como se nada tivesse acontecido? É o reino da jecura em sua forma mais pura.
Tem gente que utiliza grupos de WhatsApp a fim de enviar indiretas a familiares, namorados, esposas, desafetos, colegas de trabalho. Não são indiretas: são a comprovação irrefutável de que o emitente detém quantidade irreversível de titica de galinha na cabeça.
Amor, possessividade, controle, ciúme, zelo, obsessão, impulso, dominação, imposição, não são sinônimos. Se você achar que são sinônimos, creia-me: você não ama e jamais será amado por ninguém no mundo.
Nas ditaduras de direita, surgem normalmente movimentos buscando a instauração de, tão-somente, ditaduras de esquerda. Já nas ditaduras de esquerda, movimentos surgem a fim de buscar democracia pura e simples. Por que será que isso acontece?
Enquanto você apenas maldizia a mim e as demais pessoas, eu sentia o suor impregnado em minha camisa surrada, comprada à prestação, e ainda enfrentava os vilões e os canhões no quintal.
Muito em breve minha camisa não será mais surrada – e os vilões e canhões no quintal – serão neutralizados.
E quanto a você?
O que me contará de novidade?
As pessoas que nos trazem assuntos ditos por terceiros sobre nós mesmos – imbuídas no suposto intuito de nos ajudar e de alertar sobre alguma coisa – são normalmente as pessoas mais perigosas. Usam a autoproclamada “experiência” ou a “vivência da idade” a fim de espalhar a mais pura e odiosa fofoca. Jamais se esqueçam: quem traz, também sempre leva.
O modelo de política educacional quantitativa – com diplomas universitários praticamente vendidos em quermesses – é a tradução mais fidedigna do velho e bolorento populismo. A Educação precisa ser qualitativa. Menos e melhores diplomas universitários. Menos burocratas e mais lideranças. A Educação, sem dúvida alguma, é a mais importante política de Estado. A base de tudo.
O que dizer da agonia e do desespero incrédulo quando percebemos que alguém que nós amamos tanto está, aos poucos, indo embora?
Quando aquela mente outrora inquieta começa a apagar-se tal qual lamparina úmida?
O que dizer das cordas desamarradas e da âncora já içada que permite ao barco navegar para a eternidade sem o capitão que o comanda, desaparecendo na neblina densa lá no fim do mundo?
Não me interessa se você gostou ou não da minha crítica.
Acontece que o meu direito de o fazer é consagrado.
E se você faz valer a sua prerrogativa de expor a sua arte e a sua filosofia ao mundo, deve estar já preparado para a crítica.
Acredite: se você recebe uma crítica, agradeça aos céus, porque ainda goza de atenção e de algum respeito.
Não há nada pior que o ostracismo e a irrelevância de uma vida – sobretudo se você for um vaidoso petulante, dos que acham que somente escutarão dos outros louvores e elogios.
É perfeitamente possível odiar sem deixar de amar.
E é também perfeitamente possível amar sem deixar de odiar.
O futuro é imprevisível em termos: pode-se traçar objetivos, calcular os riscos e até minimizar algumas perdas.
Mas e quanto ao passado?
O passado, imutável, guarda os segredos que talvez jamais serão expostos.
Vive à mercê de fatos e versões contadas pelos que dominam tribos.
E nos ameaça com revelações surpreendentes, (re) iluminando o tempo presente. Dito isso, sugiro respeito e devoção atenta ao passado.
Trabalhar sempre com a verdade, em tese, deveria ser mais fácil à sociedade. Mas por que, na prática, não acontece dessa forma?
Somos preparados para encarar o brilho ofuscante da verdade?
Para recebe-la como um presente, uma porta que se abre ao conhecimento e ao aperfeiçoamento?
A verdade então é que não trabalhamos com a verdade. E se isso for verdade?
Eis aí um paradoxo.
Na religião, um belo dia alguém se arvorou da prerrogativa de que sabia mais do que os outros – e daí surgiu o sacerdote.
Ou quem sabe não seria o contrário?
Alguém, julgando poder explicar os – até então – enigmáticos fenômenos da natureza, inventou a religião e a propagou ao mundo?
Outro questionamento: e se desde sempre, aqueles que se destacam criam as religiões que os recriam novamente, e que por sua vez, inventam, em um movimento cíclico e infinito, crenças e doutrinas diferentes pelo mundo afora?
A caneta Parker 51 de meu pai não vai fazer com que eu escreva melhor; ou que eu registre, amiúde, as minhas percepções da vida. Essa parte é comigo. Eu sou apenas o papel e o tinteiro. A caneta inspira, enquanto musa. Mas ela não cria.
O autoconhecimento pressupõe, normalmente, o isolamento, o distanciamento de tudo e de todos.
Mas também, viajando em outra direção, pode-se chegar ao autoconhecimento por meio da interação social intensa.
Conhecer a si próprio envolve a maneira com a qual você reage perante ao mundo a às suas idiossincrasias; como você lida com os outros.
Autoconhecimento necessita de parâmetros.
Isso mesmo: tente “fugir” do mundo, vá para uma ilha deserta ou no meio da floresta. Só que eu já lhe antecipo: a sua concepção de “mundo”, aquela que é fruto do conhecimento adquirido e de experiências pretéritas, acompanham você por toda a vida.
E daí a sua grande “fuga” tornar-se-á, imediatamente, a mais tola das utopias.
Tal qual a história do menino que foge de casa escondendo-se no sótão de sua própria casa, levando consigo alguns refrigerantes e biscoitos de chocolate.
A bagagem que você carrega em sua mente é mais um volume do instinto de sobrevivência.
E você o utilizará por certo.
