Camilo jose cela

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Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.

José Saramago
O Conto da Ilha Desconhecida

Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Editorial Caminho. 1995

Quando minha escolha é consciente, nenhuma repercussão me assusta. Quando não é, qualquer comentário me balança.

Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí.

José Régio
Poemas de Deus e do Diabo

A liberdade custa muito caro e temos ou de nos resignarmos a viver sem ela ou de nos decidirmos a pagar o seu preço.

Uma pitada de poesia é suficiente para perfumar um século inteiro.

O homem que honra a si mesmo é capaz de ver as virtudes de outro homem.

A oportunidade é como ferro: devemos batê-lo enquanto estiver quente.

José Hernandez

Nota: A expressão bater ou malhar o ferro enquanto está quente é utilizada desde 1300, e também já foi empregada por Benjamin Franklin e Richard Sharp.

...Mais

Quem não se sentir ofendido com a ofensa feita a outros homens, quem não sentir na face a queimadura da bofetada dada noutra face, seja qual for a sua cor, não é digno de ser homem.

Sem ideias, a evolução humana seria inexplicável.

Esqueço o meu mal quando curo o mal dos demais.

Il est beau d'écrire parce que cela réunit les deux joies: parler seul et parler à une foule.

Ninguém é pobre quando ama.

Há horas na vida em que a mais leve contrariedade toma as proporções de uma catástrofe.

O homem é um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e de pigmeu.

É na solidão que as almas doentes convalescem e se fortificam.

A torpeza, a ignomínia, a podridão das entranhas vivas, o nascer ou morrer infamado ou infame é só do homem.

Há um ideal comum a todos, ideal que dispensa consumo de ideias: coisa em si materialíssima, que se chama ideal em virtude de tácita convenção, feita há cinco mil anos, de nos enganarmos uns aos outros, e cada qual a si.

Camilo Castelo Branco
BRANCO, C., Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, 1863

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte.

A humanidade é infeliz por ter feito do trabalho um sacrifício e do amor um pecado.