Andre guide
Aprendi tarde
que algumas coisas não se resolvem,
se largam.
Que nem todo peso é meu
só porque coube na minha mão.
Que sustentar demais
também cansa a alma.
Fui ficando
onde o barulho parecia compromisso,
onde o choque parecia trabalho,
onde aguentar virava virtude.
Mas o corpo avisa
quando a ligação queima.
E a paz começa
no ponto exato do desligar.
Não fiz discurso.
Não bati porta.
Soltei como quem entende
que insistir é outra forma de queda.
O mundo continuou
sem pedir minha opinião.
E, estranhamente,
funcionou.
Hoje caminho mais leve,
não por ter menos passado,
mas por não carregá-lo
como dívida.
Soltar não é ir embora.
É ficar inteiro
no lugar certo.
Depois do Desligamento
Trabalhei onde tudo passava
e nada ficava.
Caixas subiam mais alto que a memória,
nomes pesavam mais que o corpo,
e eu seguia
porque seguir era o combinado.
Corri atrás do que me levava,
mas o caminhão não freia
para quem chama pelo próprio nome.
Um fio me segurou pelo costume.
O choque não queria me matar,
queria que eu continuasse ligado.
Uma criança perguntou
o que só o medo pergunta:
— você ainda está vivo?
Saí.
Com a mão que sobrou.
Caí onde a imagem nasce,
madeira crua,
fachada antes da fachada.
Dói menos quando não é verniz.
Teias tentaram me convencer,
baratas me ensinaram a ficar.
Um amigo não explicou nada,
só puxou o que me prendia.
No chão, alimento.
Alguém pegou.
O mundo seguiu sem minha supervisão.
Larguei o que não era meu,
inclusive a pressa,
inclusive a dívida invisível.
Fiquei com as marcas,
porque elas sabem
onde parar.
E entendi, tarde e em paz:
não é cair que machuca,
é insistir em segurar
o que já partiu.
O perdão requer também o arrependimento sincero de quem vai ser perdoado, não há perdão se não houver arrependimento de quem cometeu o erro.
Não posso dar o que não me foi pedido.
No jardim, coloridas flores nasciam
Éramos jovens e o futuro bem distante
O sol tocava levemente nossas faces
A felicidade, naqueles dias, uma constante.
Tua pele, pura seda, sempre perfumada
Teus beijos tinham gosto de hortelã
Passeávamos pelo jardim de mãos dadas
Vivíamos alegres num hoje sem amanhã.
Em cada verso lido, em cada verso escrito, tenho em mim, os sentimentos de todas palavras que formam a poesia viva e que teimam em existir em cada respirar, em cada lágrima que rola no meu rosto, em cada sorriso que ficará perpetuado na foto da vida, cuja cor será amarelada pelo tempo, até que por fim, com meus olhos cerrados, num sono profundo, na cama eterna do túmulo, a poesia continuará, não mais em mim, mas em alguém que lerá meus versos.
A vida é mesmo surpreendente, pois quando se imagina que nada mais poderia nos surpreender, somos surpreendidos. Seria tão bom se pudéssemos prever o futuro. Mas como saber do futuro se todos vivemos no passado? Mesmo a minha própria imagem refletida no espelho é uma visão do passado, pois temos que considerar o tempo que a luz leva para refleti-la, bem como a fração de segundo que meu cérebro leva para interpretá-la. Se pensarmos bem, não existe essa coisa de presente, temos apenas o passado e o futuro. Talvez por isso que seja tão difícil de se prever esse futuro, tão incerto, tão sombrio. É certo que vamos nos deitar a noite... que vamos dormir... mas nunca sabemos se vamos acordar ou onde vamos acordar. Sendo assim, é imperativo que se viva cada momento ao máximo, aproveitando cada oportunidade que a vida oferecer. Sempre temos uma segunda chance, sempre. Mas nem sempre essa segunda chance poderá ser tão prazerosa quanto ao que foi apresentado na primeira vez. A única convicção irrefutável sobre a vida é que um dia ela acaba!!!
As escrituras Bíblicas dizem que Jesus morreu tentando trazer a Paz mundial. Já pensaste se vais morrer tendo fazer o que?
Gerar um filho é dar início a uma contagem regressiva que termina, inevitavelmente, na dor da perda e no silêncio da ausência.
Gerar a vida é outorgar uma sentença de morte, mas é justamente a sombra desse fim que ilumina a urgência de transformar cada instante em um tesouro irrepetível.
