Sonia Schmorantz
Fim de Verão
Chegam as primeiras chuvas anunciando
o fim de um tempo escaldante de verão.
Distanciam-se os dias de luar e cio,
fica o canto, a vibração, a nostalgia,
fragmentos de risos, sonhos e ilusão.
A praia sem a obrigação de ser verão,
serenamente perde-se na linha do horizonte.
Os dias continuarão mornos e ensolarados.
E ao fim da tarde o sol fará sua despedida
em coloridos raios até morrer atrás do monte.
Um vento errante há de vagar sobre a praia,
anunciando teatralmente o fim da estação,
soprando emoções quebradas na areia,
como a despedida dos amores de verão.
Termina temporada, termina o verão,
Recolhe-se a rede, o guarda sol, a esteira,
Recolhem-se as sereias e musas do mar,
Fim de viagem, morre a estação derradeira...
Divagações após a chuva
Ao anoitecer, gotas da chuva intensa
ainda brilham nas folhas e calçadas,
como notas poéticas a refletir as luzes,
que pouco a pouco vão surgindo nas casas.
Gotas vão sendo levadas pelo vento incerto,
como palavras descompromissadas que
tanto já foram ditas e desditas nesta vida.
As palavras voam pelas janelas e calçadas,
instáveis, insanas, descomprometidas
com a realidade, perdidas no tempo.
Só a poesia as recupera,
unindo-as através dos sonhos repetidos
no silêncio das madrugadas insones.
Das palavras ditas resta a poesia,
a vaporosidade de quem já viveu
e ouviu muito, mas
ainda tem capacidade de sonhar.
Palavras inventam-se nos poemas,
num fluir secreto, desdobrando-se como renda,
tecidas memórias de sonhos que
com a própria vida que se emendam.
Entardecer
Quando o sol cansado vai se pondo,
Uma réstia de sol caminha tranquila
Sobre os montes da ilha.
Declina-se o dia e um vento vago
Traz o cheiro de jasmins.
Sopram versos das flores,
Como ondas em prece ao entardecer.
Sopros da terra que em flor palpitam,
Exalando a vida e seus perfumes.
Sombras lilases vagueiam no céu,
A tarde declina no silêncio,
Esmaecendo-se suave e melancólica.
Da janela onde me encontro,
Os olhos acompanham as sombras
Desenhando-se nos montes.
Que me importa estar aqui nesta sala,
Onde o trabalho me prende ao chão,
Se minha alma cria asas e se arrebata
Na beleza do cenário, agradecida
Pelo terno abraço desta tarde...
Coisa Estranha Essa Saudade ...
Não se vê, não se toca, mas esta ali...
Sinto saudades dos sonhos,
...Dos planos mais loucos que já fiz...
Sinto saudade do que não existiu,
Mas queria que tivesse existido...
Parece que a saudade mora em mim,
Tanto, que se um dia parar de doer,
Vou então sentir saudade da saudade,
Deste suave sopro andarilho
Que eterniza as ausências....
O vento passa nas tardes mornas,
Sinto seu abraço,
Sinto que vive e canta dentro de mim.
Sinto o sopro do vento, o cheiro do mar,
O ilimitado do céu vazio,
Ar que penetra suave e reascende uma
Chama cósmica em meu coração.
Abençoada seja esta natureza silenciosa.
Há uma parte de mim que se ausenta
E parte com o vento,
Todos os dias um pouco,
Enquanto o poente no céu se estende
Numa saborosa melancolia...
Mas agora volto...
Volto à minha vida,
Hora de seguir caminho,
Natureza e vida ainda sorriem para mim...
Fragmentos da alma
Quando as mãos deslizam no teclado
Mesmo cansadas da lida
As palavras percorrem matizes
Do tempo e da saudade
Em busca de suas razões...
A cada minuto a alma se confessa
Confusa, saudosa e muda
Pela fugacidade da vida.
Alma instável, sem o mar
Para cobrir de sombras e cores,
Com saudades das pessoas
Que amava e se foram...
Triste alma de poeta
Que amando se desnuda
Que silenciada se cala...
Vazios, ausentes,
luz apagada
Ninguém em casa...
Eu sabia
Eu sabia que um dia ela viria,
Íntima de mim a cada instante,
Embora oculta em todas minhas mortes.
O silêncio outra vez presente.
Tentei falar mas não consegui.
Dos meus olhos tão perto,
Tão distante do coração
Não sei onde ficas
Viajando por entre a solidão.
Não mais juntos:
Mas em paralelo,
Tão substancialmente sós na apertada solidão,
Que nesse silêncio se escuta a respiração de Deus.
Na nossa rota não há dois astros
Apenas nós e a cósmica solidão
Do nosso próprio infinito...
Na oscilação imprecisa das águas da memória
Se fundem numa só verdade todas as lembranças.
Ao fundo do mar e de mim as memórias
Navegam barcos sob um céu azul,
Deslizando imprecisos, vagarosamente.
O barco se detém no remanso da água,
Corre-me água das mãos molhadas de mar, e
Uma ave pousa calada na proa...
Barco e rio são agora minha própria dimensão.
Memórias, barcos fazem parte da paisagem,
Da minha paisagem humana...
Floripolitana de Coração
Gaúcha, nos pampas nascida
Um grande sonho acalentei
Morar numa ilha encantada
Cheia de bruxas e fadas.
Nessa terra cheia de graça
Onde se juntam todas as raças,
Minha ilha lança ao poente
O azul espelhado da lagoa,
O verde silêncio das montanhas,
O rumorejar de um mar azul
Que beija apaixonado a areia da
Minha ilha de renda poética.
Não importa se há sol ou chuva,
A mágica ilha é sempre azul,
Fica gravada na alma e
Quem aqui vem sempre vai voltar,
Para descobrir novos caminhos,
Novos destinos, pois
Esta magia nunca irá acabar.
Nas tardes de Maio as horas circulam pela nossa vida como o vento circula pelas montanhas, arremessando coisas, suavizando outras, às vezes refrescando o dia, denunciando temores ou realçando a beleza, tudo sem que se veja, mas sentindo-se plenamente.
As horas passam pela nossa vida e difícil mesmo é colher delas a verdadeira dimensão, saber o quanto são únicas.
As tardes de maio morrem devagar sobre o olhar sereno, como deveriam ser todas as mortes.
Na doçura da tarde, os pássaros de inverno bordam as direções do olhar, dispersando
aqui e ali as melhores intenções sobre o que deverá ser a felicidade ou a liberdade servida ao ritmo natural das estações.
Como num tecido muito artesanal, as tardes de maio bordam o dia no coração,
na esperança de ter algo melhor para ser ou oferecer ao instante seguinte,
nesse maravilhoso mistério da vida.
Estendida e silenciosa dorme a noite,
Serenidade outonal que paira sobre o mar.
Noite que abraça a terra em singelo amor,
Lentamente na aragem fresca dos dias...
Serena e descalça, percorro os olhos na noite
E ate que se faça o frio, falo com as estrelas.
O olhar vai sendo acariciado, seduzido,
Iluminado pela mansidão desse negro manto.
Noites serenas, sem vento, sem frio, sem calor.
Noites suspensas numa pausa mágica, celeste,
Vozes que se fazem murmúrios na brisa que vem do mar...
Noites serenas de sonhos e canção,
E ate que um novo dia rasgue esta serena solidão,
Quero ficar recostada em plácido silencio,
Perdida em sonhos nesta noite de outono...
Um dia nossos corações se cruzaram
e já era possível pressentir essa sensação de felicidade,
pois sentimentos são como a bruma de uma cachoeira
Fluindo em uma vida inteira..
Sentimentos são liberdade, o cantar de uma paixão,
Uma pontada de felicidade, num cantinho do coração..
Sentimentos são luzes contentes,
Carregadas de um brilho diferente
A face de um lindo sol poente...
Cinco meses juntos... e se reduzir fosse possível
As palavras em uma canção, sentimentos seriam algo plausível
Alem de pura emoção...
Eduardo:
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.
Com todo carinho do mundo mando-lhe estas flores,
pedindo a Deus que por todo tempo ilumine os nossos sentimentos
para que nesta vida sejamos eternos namorados...
Quem gosta de escrever é um viciado
não consegue mais deixar,
se lhe falta o papel
falta-lhe o chão,
se lhe falta a letra,
falta-lhe o ar...
Errado ou certo
importa que quando
sua alma ria ou chore
haja sempre uma
caneta por perto....
Pai
É o primeiro dia dos pais sem tua presença,
mas vou visitar o mar onde tuas cinzas descansam,
e tu te transformaste em milhões de pontos cintilantes,
na esperança de que ouças meus pensamentos
que te falam da minha saudade.
Quero te dizer que teu olhar sincero e humilde
ainda guia meus passos,
mesmo que haja uma saudade constante.
Está sempre comigo este homem de grande responsabilidade,
sensível e generoso, mestre em piadas,
cujo abraço aconchegante ainda sinto
quando a tristeza insiste em chegar...
Tuas cinzas foram ao mar,
mas tua alma foi levada pelo vento, livre e solta no ar,
nesse lugar azul imenso, que se mistura céu e mar.
Faz parte agora das noites de lua ou chuva,
dos dias de sol ou melancolicamente cinzas,
teu espírito ainda vive no mar, na areia,
nas pedras e flores,
e no coração de cada pessoa que te amou...
Teu espírito hoje reluz em cada raio de sol, todos os dias..
Cada estrela no céu tem o teu brilho
e a brisa perfumada traz teu riso.
A chuva que hoje cai são lágrimas de saudade,
por isso venho te abraçar e te dizer uma vez mais,
com um grande beijo....
Feliz Dia dos Pais – Meu Pai.
ESCREVER
Há quem diga que pensamentos podem também machucar,
Quase não dá para acreditar, pensamentos são pensamentos, ora...
Mas hoje me pego pensando em tantas coisas que passaram e
Ainda passam, coisas que gosto de lembrar e coisas que queria esquecer,
Mas não consigo, assim como não consigo parar de escrever...
Me sinto como se fosse de outro mundo e quero fazer parte desse...
Gostaria de sonhar como as pessoas sonham,
Pensar como elas pensam...
Ser feliz como elas são, ou acreditam ser...
Ser feliz em caber neste espaço, mesmo como um ser anônimo,
Uma agulha no palheiro, como dizia minha avó...
Mas não consigo mudar nada e então me calo,
Porque então minhas mãos não fazem o mesmo,
E meus dedos não conseguem emudecer nesse teclado?
POEMAS POR ENCOMENDA
Não se faz poemas por encomenda...
Não se faz poemas só por tristezas e
Não se faz poemas só de amor ou alegria...
Poemas são como lágrimas que vertem
por tristeza ou felicidade,
Mas vertem somente quando a alma quer falar
fluindo como as marés que
dia vão, dia vem...
Não me peça para escrever poemas.
Dá-me teu carinho, tua compreensão
e terás o mais belo poema
no abraço ou no beijo que te der,
se me der o teu amor
haverá sempre um belo poema
em tudo que te disser!
Escrever tem destas coisas, faz a gente pensar
buscar dentro de si, sentimentos e emoções,
mas as palavras são como conchas,
leva-se tempo para encontrar as mais bonitas,
aquelas que a gente guarda porque tem perfume de mar.
Os sentimentos guardados são como
as conchas fechadas, que só por magia se abrem.
São como conchas que nos acostumamos a pisar
quando andamos pela praia.
As conchas do mar guardam segredos de alguém.
Aberta a concha posso falar de poesia,
do triste e belo brilho das estrelas,
da concha que tem barulho de mar,
assim como falo das palavras, que se fecham,
até que belas e coloridas surgem na tela,
como as conchas, que são um presente do mar.
Tenho andado a pensar, a descansar...
tenho estado por aqui e ali, com sorrisos de uns,
palavras de outros e já estou a pensar que estou quase a ir embora...
Devo ter feito muitas coisas erradas,
para que nada dê certo e neste momento estou assim,
com um pensar diferente... cabisbaixo,
digo sempre que deve ser só hoje, mas os dias passam
e nada acontece, perdi meu lugar nesse mundo, eu acho...
Claro que podem ser feitas muitas interpretações,
mas neste sentir da minha vida, mesmo que eu
me ache alguém com um espírito de grande aventura
para não me prender a ela...
mesmo que eu não seja simplesmente isso,
mas simplesmente eu... mesmo que eu conseguisse
inspirar-me e escrever algo meu... hoje estou assim...
com o coração apertado e medroso,
acho que não consigo mais tirar estas nuvens.
Quantas vezes me pergunto se estive certa
em todas as decisões que tomei,
de não deixar mais a porta aberta para uma vã esperança.
Apetece-me desistir de tudo
de tão cansada que estou de procurar meu espaço.
Estou rodeada de sorrisos, mas as dúvidas me fazem parar,
não consigo deixar de olhar o mar,
nem deixar de pensar.
Não o mar-caminho, mas o mar-destino,
o mar, túmulo fechado para o tempo.
Passeando por entre as pessoas,
aleatoriamente pensando na vida,
de vez em quando o som de violão de algum bar,
lembra da alegria tão inocente de viver...
A onda vem lamber a areia, então brinco com ela...
No seu vai e vem ruidoso,
a onda estoura e brilha ao sol
deixando a areia cheia de pontos dourados...
A emoção única das ondas...
ah... estas ondas que vão apagar os rastros que
ficam na areia, numa eterna renovação de tudo.
Ondas como sonhos que se fazem e se desfazem,
que apaixonadamente tem sua própria liberdade.
Andando na areia molhada, as ondas acariciam meus pés com sua
espuma, solto os cabelos ao vento...
fecho os olhos para sentir a brisa que vem do mar.
Amo a imagem deste mar, amo este caminho dourado da areia nos pés...
Pensamentos livres, pés molhados, coração descansado,
sigo em frente, no suave caminho das ondas
hoje, amanhã, depois de amanhã....
percorrendo o mesmo caminho apaixonado
na mesma tonalidade azul...
Meu computador
Quem sabe das coisas que sentimos
Quem sabe o que se passa em nosso coração
Quem sabe porque palavras soltas
Quando unidas tem uma única direção
A direção do vento e do tempo,
Que atravessa oceanos e mundos,
Para alcançar as pessoas especiais
Das quais vivo a lembrar com emoção.
Quem sabe esta maquina entende
Que não significa somente tecnologia
Que já transpassou a fronteira do concreto
Para se transformar no meu jeito,
No meu coração quando fala aos amigos
Do amor e da saudade, como se fosse magia.
