Jean la bruyère
Escreva uma canção bonita
Mais bonita que um varal de estrelas
Tente vê-la flutuante
Na noite de um sonho esquecido
Igual ao que existe
Na alma da gente
Escreva uma oração
Que seja bela
Tão bela, de acordar de madrugada
Uma imagem de paz
Uma nuvem de luz
Como a luz do luar na rua
Como a rua na janela
Um perfume de amor
Feliz de sentir
Que vem do nada
Pense nela
Que esteja lá
Lembra de sentir a calma
Bonita como passos
A pular quadrados da calçada
Somente a traduza
Numa imagem que lhe traga à vida
E que descreva
A vida, não pela vida
Mas uma vida bonita
Como se quer que ela seja
Pois essa vida está lá
Transparente e estampada
Estendida no calor
No momento em que a alma esfria
Fantasiada de dor, na alegria
Na dor do dia a dia
Que se deixa passar
...lá se foi mais um dia
E quem olha, não vê
Na incerteza da fé
é preciso transcender
Pra chegar a ela
Abandonar-se
Deixar de ser quem se é
Quando cansar-se de ser
Quem não é
Pois da vida se leva nada
Nada além da tristeza
De não tê-la sabido viver
Seja a vida essa canção
Como um vento leve
Que move um mar
Mas não desista
Existe uma oração bonita
Esperando pra ser declamada
De mãos dadas com a vida
Ela ainda está lá
Se você a acredita
Não permita que ela se vá.
Edson Ricardo Paiva.
O que vem a ser a vida
Senão um pedaço
de massa de pão
Que o tempo convida
Não a dividi-la
Mas dá-la de graça
Com a mesma graça recebida
O que vem a ser a vida
Senão breve sopro
Que anima essa massa
E que passa depressa
Tão depressa despedaça
na palma da mão
Que o olhar arredio
Não tem tempo ou espaço
Pra dizer com certeza
Se a viu.
Enquanto isso
Ela passa.
Edson Ricardo Paiva.
Sobe
lá no alto
Da melhor lembrança
Que tiver da vida
Mira-te
No mais claro e cristalino espelho
Busca calmamente
E responde a justa verdade
Pra teu coração somente
Enquanto a verdade é ainda oculta
Busca
Como no acalmar da lua
Quando a lua
Encara o mar sereno
Com o seu mais puro e pleno olhar
Se acaso desencontrar
Sobe mais no alto ainda
Relembra como era linda
A esperança
De uma hora poder ir até lá
No alto da melhor lembrança
E encontrar somente
Espelhos claros
Pra teu coração poder se olhar
Num difícil e mero olhar sincero
As flores partem junto à primavera
Impossível é negar-te eternamente
Pois a vida não é como o mundo a vê
O mundo é como a vida o vê
E nenhum dos dois é dono da razão
Diferente é a busca
Então
Se em algum momento
Não consegues mais admirar-te
E se vir somente
Olhos vermelhos de um tristonho olhar
Desça
Retome o caminho
E o refaça
Enquanto existe em ti
Ainda um traço de esperança
De modo a não guardar apenas
A lembrança de jardins distantes
Pequenas flores que sequer colheste
Percebe agora que viveste
Porém
Sem a graça da vida
Constantemente oculta
Dentro de você
Que nenhum caminho te mostrou
Há uma semente seca e morta
Escondida no mirar
O olhar que teu olhar não olha
Uma flor que teu chover não molha
O nome dela é alegria
E que apesar de morta
Morre e morre novamente
Todo dia.
Edson Ricardo Paiva.
Eu penso
De lá do fundo
de um poço do meu passado
Me lembro com algum desgosto
De um dia ter sido o bom moço
Pra sempre um rosto sem nome
Velha amiga que vem pra ajudar
Plantar e colher o trigo
A mais antiga se chama fome
Lembranças sem cabimento
Das recordações vividas
Não a sabem nenhum momento
Não desta vida
Tento guardar no esquecimento
Mas elas não cabem nem lá
Noite amiga
Tenha cuidado com suas palavras
É por elas que você será lembrada
Tudo mais não vale nada
Nem será mudado ou emudecido
Não se furte do tempo que leva
O tempo é curto e chega de leve e leva o todo
Numa tarde de ventania
O desabrigo vem
E a gente aceita, precisa aceitar
A antiga cara do espelho
Não mora mais lá
E se isso era tudo
Agora, neste momento, nada mais se ajeita
Há duas coisas na vida que não se pode evitar
A primeira é o pensamento
E a outra é quem te diga o que pensar
Revendo essa quase vida
De alguma maneira eu percebo
Desde sempre, a historia inteira
Estava escrita
Quando a gente chega ao mundo
É pela vida
Mas não dá pra viver por ela
É preciso razão
Tenho estado neste triste mundo
Onde, tudo que de raro existe
Não chega a ser tão profundo
Quanto o poço raso do começo
Nada além de águas passadas
Eis o preço dessa sede insaciada
Que precede à própria vida.
Edson Ricardo Paiva.
Eu conheço uma estrada
Que um dia
Ela foi aberta
Perto de lugar nenhum
Lá no meio do nada
Com o tempo vieram ruas
Chegaram pessoas
Criaram boas e más verdades
Plantaram absurdos...calamidades
Era vida que seguia
A cada dia mais gritante
Galáctica, estratosférica
e emudecida
Nada que lembrasse como era antes
Enquanto isso
Nos limites da cidade
O mato crescia ...crescia
Até hoje continua
Desde que Deus criou o mato
Ele cresce e cresceu de fato
E todo dia um pouco mais
e mais e mais e continua
E mesmo assim
Ele nunca, nem sequer
Jamais chegou perto da Lua
Edson Ricardo Paiva.
Quando a gente era criança
E brincava de se esconder
E subia lá no alto, ia só de brincadeira...e ria
Ria, de incauto que era
E pulava de lá, por prazer
Pelo puro prazer de poder ouvir o ar que zunia
Uma vez fui encontrar lá em cima
Um pássaro que tinha desistido de voar
Daqueles, que quando dói, nunca se lastima
Não chora, não pede ajuda
Se recolhe no seu lamento. Finge morto, finge mudo
Se tinge de esquecimento
Enfim, nada escolhe na vida
E mesmo assim
Teve a escolha de sofrer calado
Eu conto essa passagem
Num poema bobo e sem rima
Porque desde pequeno
Eu também não podia chorar, nunca tive coragem
E jamais me ensinaram o jeito certo de falar com Deus
Pra dizer-me arrependido e nem pedir perdão
Nunca aprendi pedir nada pra Deus
Mas o certo era que o pobre pássaro
Pode ser que ele só fosse igual a esse que eu sou agora
Daqueles que quando chora...é só por dentro
Num lamento mudo
O pássaro caiu lá de cima
E nem me deve ter ouvido pedir perdão
Quedou-se no chão
Num tombo quase tão breve quanto uma vida
E ele também deve ter sentido
O ruido leve que zuni no ouvido
Que só ouve quem cai
Mas naquele momento
Como quase que tudo na vida
Não deu tempo pra nada
O pássaro mudo, morreu sem chorar, não deu tempo
Pode ser que eu, depois daquele dia, o tenha tido
Mas eu não chorei, nem naquele dia e nem nunca mais
Ajuntei todas as lágrimas que tinha pra chorar na vida
E quando vi que o pássaro ia subir pra Deus
Eu pedi pra ele levar.
Edson Ricardo Paiva.
A vida só faz sentido
Se a gente puder vivê-la
Dizer o que há de bom e bonito
Gritar pro mundo sem medo
Quando, na verdade
Felicidade é ter
Um ouvido...e um lindo segredo
O tempo perdido e passado
Arrepender-se de todo e qualquer pecado
Até mesmo dos que nem sonhou
Só falar pro espaço, estrelas, nuvem
A noite posta no céu, janela aberta
O véu que se abre, mas você não olha.
A vela acesa, que tem hora certa pra apagar
Falar pra quem nem as ouça
Os pés no caminho, essa vida descalça
Tá tudo bem, não tem problema
Eu faço mais um poema
Vou novamente me recolher
Ao silêncio dos meus pensamentos
E tem sido assim desde o princípio
Pra depois sentir arrepios
Porque não há nada a ocultar
Além da ausência
de uma tão sonhada paz
Que, às vezes é tanta, que faz ruido
E me abraça com seus braços frios
Sonhar, quisera tivesse um sonho
Divagar, sumir, recolher as folhas
Coração só sabe bater
e é isso que ele bem faz.
Edson Ricardo Paiva.
"O silêncio a tudo diz
e tudo faz sentido :
Era o encanto do não saber
que a brisa a soprar lá fora
depois de ir embora, não volta."
Edson Ricardo Paiva.
"A Beleza da vida
É o Sol lá no céu
Numa noite de chuva
É saber sentir
Quando não houver"
Edson Ricardo Paiva.
Você nunca mais poderá estar lá
Mesmo estando nas quaresmas
As mesmas coloridas
Granulosas, do início das nossas vidas
Hoje surge um novo Sol
Sendo ainda o velho Sol de sempre
Daquela hora linda, mas que a gente esquece
Quando Deus criou o acaso
E a semente germinou num vaso
Como coisa que acontece
Como talvez nunca mais
Nem natais, nem carnavais
Dois dias iguais na semana
Pensamento que perdura
De um momento que se nega
e que nunca acontece
Uma rede de pescar, correnteza levou
Deixando a saudade de olhar
Que de olhar se via
Eram horas iguais no mesmo dia
Onde eu estava e pra sempre vou estar
Fica a escassez de detalhes a esbanjar riqueza
Pra sempre estaremos ausentes
Fica aqui a dor que se sente e pela qual se vive
Igual a tudo que se foi
Mesmo sem jamais ter sido.
Edson Ricardo Paiva.
Meu coração ficou lá
Deslumbrado, à beira da enseada
Vendo naus e o mar
Minh'alma, de certa maneira
Vida inteira a olhar
Pássaros velozes, de olhares felizes
No ar, com ares de alegria
No nascer de mais um dia, assim, do nada
Um pedaço de céu
Que passa pelo espaço
De um pedaço de papel
Que eu faço de outro céu
A vida em folhas mortas
Espalhadas pelo vento
Esperando a vida nova, renovada
Sentir o que se sente
destarte, sem querer
Assim se passaram os dias
Sem saber quais horas eram
Tudo sempre era momento
O tempo não tinha idade
Acima da linha do olhar
O que fica de verdade
É em parte invisível
Além do fim do caminho
É a arte de ver a luz
Que reluz ao redor
Meu coração ficou lá
Creio que será melhor
Esperar outro dia
Que vai sim, nascer do nada.
Edson Ricardo Paiva.
Nuvem branca, que passa lá no céu
Suave, leve como a vida deveria ser
Se tudo fosse como a gente quer
Arranca do meu rosto este tão breve sorriso
Pois é preciso viver e sorrir
Nuvem doce, que este claro céu nos trouxe
Doce como a tudo que pedimos que essa vida nos trouxesse
Suave e leve como a brisa que pedimos ao dia
Que um dia levasse de nós a toda qualquer tristeza
Assim como a toda mágoa e a má vaidade
Que só verdades saíssem de nossos lábios
Mas em formato de poesia e palavras boas
E que a gente deixasse o que há de bom em nós ao mundo
Carregasse com a gente
O resto de tristeza que o tempo não pôde apagar
Que seja simples e modesto, tudo que deixarmos
E, se for possível, carregado de pureza
Da melhor pureza e do melhor amor
Que, porventura, um dia tenhamos sentido
Aquele tipo raro de amor, carregado de leveza e bons olhares
...e de um resto de entardecer, que deixa tudo mais bonito
E que não é todo coração deste mundo que está preparado
Pra ler o escrito que Deus deixa lá pra gente
Lá na linha do horizonte
Pois há um tempo de sorrir
E um tempo de sentir vontade de sorrir
Mas se vem o tempo de nó na garganta
Que ele seja só da gente
Chorar é preciso também, pois mentir não adianta
Mas que Deus nos faça chorar de contentes
Leva este meu recado a Deus, clara nuvem do céu
Pois eu fico aqui no aguardo
Do retorno deste vento que te move
Volta em forma de alegria
E, nesse dia, vê se chove em mim também.
Edson Ricardo Paiva.
Baila, tempo.
Corre pra longe
Morre em outra dimensão
Vai lá, nos confins da última madrugada
Mostra o nada que são nossas vidas
E depois volta pra cá
Vem mais depressa que a luz
E depois nos entrega
A cada qual nossa cruz
A cada mal que se oculta
Em cada bem que carrega
Vem pra perto e se desfia
Desfila o nada bem diante dos nossos olhos
Nossos duros e imaturos corações
Quem sabe, assim que se enxerga
O quanto é incauto quem te desafia
Cada qual com sua bússola insular
Que faz perder, que desnorteia
Às vezes um soar de sino
Anunciando o sândalo da noite
Tu, que és tão forte, que derrete a neve
De sorte que cada segundo passa a ser tão breve
Leva contigo a marca da idade deste mundo
Só tu tens lugar no sem fim
Desembarca, tempo
Conta pra nós nossas vidas
E baila e dança e não descansa e depois volta
Vai lá, tempo velho e nos desaponta
Desponta lá no longe
Afronta esse universo e cada estrela sem porteira
Sem eira nem beira e tribeira e tão rico e tão leve
Livre, como o sol da primeira manhã
Tão forte, que move o moinho que mata a fome
Não negue que mata o homem que mata a morte
Leva minha vida nas mãos
Vai, que eu fico igual a todos
Entregue à própria sorte.
Edson Ricardo Paiva.
Edson Ricardo Paiva
Quando ele voltar, depois da chuva
Abra aquele litro de bebida
Apele pro teu resto de bom senso
Lá fora o mundo é grande e o frio, imenso
Quando ele voltar, depois da vida
Abra teu sorriso, porventura houver guardado
Aquele desgastado, penso nunca, jamais visto
Sequer por teu olhar sem amplitude
Guarde teu orgulho costumeiro
Esse, que acompanha a tua sombra o dia inteiro
Descobre teu olhar de todo argueiro
Se acaso sentir medo
Feche as mãos, esconda os dedos
Quando, então, se revelar detrás do espelho
Donde há de voltar, depois de tanto tempo
Um resto de lembrança, um traço de esperança
Um espaço que estava vazio
Outro pedaço de passado
Cacos de vida lado a lado no presente
Ilusão de tempo dilatado, embora inexistente
Bem diante dos teus olhos, logo após o estio.
No mesmíssimo lugar que se encontrava
Antes da chuva.
Edson Ricardo Paiva.
Nasce o dia na janela
Bela luz que resplandece
Cresce o canto de pássaros lá fora
Poesia infinita pra olhares falantes
Olha o ar com olhar de ouvinte
Um certo manto vem cobrir-me a alma
O momento, o instante, o segundo seguinte
Um mágico nascer de dia
A magia sobrepõe-se à lógica
Transcende ao frio caminhar das horas
Põe as coisas onde estão
Aquece o caminho
Navega o mar sem pressa
Atravessa bem devagarinho todo o ar que me permeia
Se compõe, se sobrepõe, vagueia e aquece
Nasce o dia como a prece que agradece a poesia primeira
Tem que ver como é bonito
Quando o espírito da gente
Volta lá na primeira manhã
Relembra o quente que era
Cada sol que alvorecia e mostrava
Toda gota brilhante
Cada instante percorria a nova primavera
Vivida ou vindoura
Cada lágrima chorada
Pois a vida é nada, se a gente não chora também
Se são elas que douram as lembranças
De todas as dores e alegrias
Noites bem ou maldormidas
Manhãs orvalhadas
São as horas da vida e há de sempre faltar
Vamos sempre carecer daquele mero instante
Irmãos e irmãs, um olhar aos ponteiros
Corre o tempo, passa tudo
O nada, a saudade, a solidão, um sorriso e a gratidão
Nasce o dia na janela, é preciso viver
E se a vida é bela ainda
Cada um de nós precisa ouvir
A voz que tem o coração
Só ela pode dizer.
Edson Ricardo Paiva.
Tem um mundo
Lá no coração da gente
Um mundo sempre igual
Só que diferente
Porque lá também tem céu
Só que nunca é o céu presente
É sempre outro, o tempo
E tudo é melhor, eternamente
Mas só dá pra olhar pra ele
Quando o olhar da gente
Como num barco distante
Olha o mar
Quando uma fogueira acesa
Lá no alto da maior montanha
Uma pipa no céu
Que se torna avião
Contorna o mundo
e volta pra um dia qualquer
Nesse dia é de tarde
E a gente se vê
Lá no galho de uma árvore
Porque lá tem quintal também
Só que sempre é diferente, é melhor
Mesmo assim, distante o chão
Ainda que eu voasse
E, lá nesse céu tivesse
O rosto de tanta gente
Que passou pelas nossas vidas
Gente que nos esquece
Porque sempre haveremos de ser esquecidos
Nesse mundo o esquecimento é diferente
E tudo sempre volta
Em formato de brumas
Como um barco na noite
Que passa lá, distante
E você numa montanha
A montanha no quintal
O quintal lá no galho
O galho no céu
Que se torna avião
Que contorna o mundo
E traz você sempre de volta
E quando volta você deixa lá teu rosto
Pra que sempre sejamos lembrados
Em formato de bruma sem nome
Somos todos crianças brincando no mesmo quintal
Se pudéssemos sair pra brincar
Com certeza a gente iria pra lá
Sempre...ou de vez em quando.
Edson Ricardo Paiva.
Meu Poema pra Lua
Lua pequena
Brilha lá no céu, tão só
Sozinha, deserta
Traz a tua luz pra minha
chega um bocadinho aqui
Pra perto
Alumia de furar telhado
Alumia meu também deserto
Pássaro noturno
Pia o seu piar incerto
Fez seu ninho no coturno abandonado
De um soldado que lutou
Nalguma guerra boba
Lua solitária, esconde
Onde foi que a loba abandonou filhotes
Onde foi que tanta gente viu
Nessa derrota inglória, a vida
Com o passar do tempo, a noite a esqueceria
E se transformaria numa espécie de vitória
Lua guardiã da Terra, irmã
Cuida de cada semente que germina
E continua triste, infértil e em silêncio
Observa, calada, a tanta incoerência
Toda vez que mês se vai
A cada geração, que aqui termina
Sempre elas terminam
Lua só, perene
Perante a eternidade que desfila
E trilha teu caminho em teu silêncio
Daqui nós a temos, linda!
Como um sorriso de filha, que nunca envelhece
Lindo, de amor verdadeiro
Profundeza da existência
Tendo a escuridão ao fundo
Fria é a ciência do mundo
No seu triste olhar distante
Admira a beleza sem brilho da tua presença
Depois que o Sol nasceu
E os poetas, cujas almas bem trajadas
Na calma de quem traz o coração em trapos
e os grilos, os pássaros noturnos, os sapos e as lobas
E cada sentinela vigilante
Ao longo das eras, ao longo dos turnos
A cada povo a sua vez
Porque sempre existirão coturnos
E farão novo
Meu Deus, que gente boba!
Dirão poesias
Algumas bonitas, profundas
Apesar das poucas linhas
Outras, exibidas por pessoas diplomadas
Extensas, em seus rapapés e rococós
Com frases intensas, rotundas, longas, rebuscadas
Que, se a amiga Lua as lesse
Pensaria que não dizem nada.
Edson Ricardo Paiva.
Depressa.
Diga lá
O que será
Que vem detrás
Daquele trem que vem
Que vinha
Passou depressa pela minha vida
O caminho ainda está lá
Eu trilhei outro caminho
Que será que tinha?
A bem da verdade, eu só tinha vontade
Mas a decisão não era minha
Diga lá
Me diz o que é que tem
Atrás daquele muro
Pode ser que ainda seja
Aquela estrada turva, que será que vinha
Que apitava a lógica
De uma época caótica
Será que existe hoje
Alguém que se lembre
Que a veja?
Era um sinal, simplesmente
De que aquela óptica da gente
Era só uma linha distorcida
Que será que ela trazia
O trilho da distância
O que será que tinha
Detrás do trem da vida
Que passou tão depressa por mim?
O caminho que eu trilhei foi diferente
A pressa apressada
O nada flutuante
Uma estrada de sonho
De sonho de sonhar realidade inexistente
Que passou tão depressa por mim
E seguiu adiante
Não deu tempo de olhar
Para a vida de frente.
Edson Ricardo Paiva
Rabiscando a vida.
Rabiscando
Sobre as linhas retas
Que não posso ver
Vindas lá da luz do céu
Encobrindo o breu, que nos convida
Com palavras que não posso ouvir
Nada é incrível, no entanto
Elas são tão claras
Quanto a cara imprecisa
De sorriso obscuro
Escondida, atrás do muro da vida
Quanto o brilho do ouro, que não tenho
Mas eu sei quanto estão lá
Vou rabiscando em desenhos
Solução pra tantos medos
Quantos enredos mirabolantes
Entretanto, nada inverossímeis
Pois eu sei o quanto estão elas
Sob a luz das velas
Sob o malho de cinzéis
Prontas pra se revelar
Talvez como simples rascunhos
Sob a força dos punhos
e a constãncia da vontade
Essas, em linhas não tão retas
Pois a verdade se curva
Pra se alinhar com o horizonte
Azulado e verdejante
Cujo limite do olhar não alcança
Não alcança de olhar aberto
É preciso um pensar mais longe
Pra poder enxergar
O que esteve tão perto
Mas oculto sob o malho dos cinzéis
Quantos céus e quantos outonos
Verão teus olhares mornos
Teus ouvidos vitrificados
Quantos vasos queimarão teus fornos
Carentes de um olhar mais puro
De enxergar no escuro
Encobertas pelo breu que te convida
A enxergar de forma assim, tão clara
A cara da vida?
Edson Ricardo Paiva
Infância.
E se a gente pudesse
Voltar lá, praquele dia
O dia que caiu da árvore
O dia que pisou num prego
O dia que minha mãe falou
Que me batia
Pois não gosta de criança que desobedece
Se pudesse, juro que eu ia
Se voltasse aquele momento
Em que um vento carregou meus sonhos de criança
E que eu vi perdidas todas esperanças
Chorei, pois criança pode chorar, então ela chora
Se Deus me permitisse voltar lá, eu ia agora
Pro dia em que tirei o mais redondo zero
Levei bronca da professora, fui parar na diretoria
e minha mãe foi chamada na escola
Se você me perguntar agora, eu ainda respondo que quero.
Nem que eu fique meses de castigo
Se aquele tempo voltasse, eu queria
A viver somente a minha vida
O dia corrente...sem ter que pensar no amanhã
Pois o dia de amanhã, ainda nem nasceu
Se o tempo perguntasse quem
Eu diria que eu.
Edson Ricardo Paiva
