Suzana Travassos Valdez

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Dizia a televisão que uma quantidade percentual elevada em Portugal, apenas conseguia ler e interpretar duas únicas frases seguidas. Estava tudo explicado!

O dia lisboeta amanhecera engrandecido numa luz primaveril.

"Kairós é o tempo da alma, não vem quando o chamamos, mas quando estamos prestes a esquecer quem somos.

Eu entristecia por Borges, Camões, Jonh Milton, James Joyce, Aldous Huxley, Roberto Bolãno... Ele tocou-me no ombro, era a ternura a falar por si.
- Temos um exemplo ainda mais árduo de limitação que cantou tantas histórias, Beethoven! Se a perda de visão não impediu os escritores de escreverem, imagine compor música sem ouvir... Tentei imaginar o inimaginável.

Comovi-me por tantos geniais escritores cegos, ou com grandes perdas de visão, cujas obras perduram e perdurão para sempre. Como ia-me quiçá também por mim, mera escrevinhadora, cuja devoção às palavras dos Grandes, não conhecia limites.

Antes de sair a porta anosa, volvi o meu olhar a Sofia que me sorria como um pousar de borboleta 🦋 numa pétala de seda.

Já nada podia afiançar como seguro, uma vez que naquele meu caminho de ampulheta estilhaçada, levava atrás de mim, como cauda do tempo, vozes do passado, do presente e do futuro numa mescla de linhas...

Encontrávamo-nos algures entre o devaneio e a escrita que desbota o tecido com que se cose a vida, a arte da escrita era, quiçá a nossa forma gémea de dissiparmos o nublado da vida e encetarmos a vida clarificada das letras sonhadas e por sonhar.

Eu não faria paisagens com aquela sensação. Ou será que fazia? Por alguma razão, a minha avó instalava-se confortavelmente nas minhas insciências.

- E não somos todos assim, escritos a paradoxos?

Eu que amava cores, só via uma Lisboa a preto e branco, mais a preto que a branco.

As páginas sobre a mesa estremeceram como se esperassem ser escritas por mãos que ainda não tinham chegado, ou por vozes que não se sabiam mãos.

Olhei para lá da janela, uma leve e agradável brisa entrara para espreitar as palavras.

Havia um arrepio no ar. O silêncio aqui tinha espessura, não pesava, mas ocupava.

Sabia que as nossas duas almas se tinham cruzado, não pelo olhar, nem pela fala, mas pela impressão íntima de termos partilhado o mesmo silêncio primordial.

No fim, o silêncio é a névoa espessa que apaga o mundo lá fora, deixando-o a sós com o eco de passos que a nossa mente ainda não deu.

Confissões sem nome são palavras nuas a boiar na imensidão, como poderia alguém que as escrevera, não as assinar, não lhes atribuir um rosto?

A porta fechou-se atrás de nós com um som abafado, como se engolisse as palavras que aí deixámos em suspenso.

As palavras não são apenas para ser lidas, são também para ser vividas, sentidas e reflectidas.

A Natureza, até aí, queda, parecendo aguardar sequiosa as minhas palavras, revolteou-se ao som do brado.




In, "Ensurdecedor"

As pombas que debicavam serenaste-me a água, hesitando entre um gole maior e o risco acarretado da voracidade, levantaram voo ziguezagueando como bêbados nas ruas do ar.








In, "Ensurdecedor"

- Agora, sim! Viste a minha alma! É isto que quero que faças com a tua. Olha bem para dentro de ti e não da tua dor e vê-te como homem que és. Encontrarás respostas!










In, "Ensurdecedor"

A Natureza tinha sido engenhosamente composta pelo talento único e sublime de um Genial Artista. Era uma peça musical exclusiva, uma pintura divinal, um livro admirável.








In, "Ensurdecedor"

- Pois, mas nós humanos, podemos voar ainda mais alto, fechando os olhos e sonhando com belos voos. Quando um homem sonha, ele é o passageiro de todas as suas viagens, é o ser alado de todos os mundos.








In, "Ensurdecedor"

Tinha-se levantado cedo. Enquanto o próximo livro não estivesse minimamente delineado não escreveria pela noite dentro, depois, sim, era tomada por uma febre avassaladora, uma produção escrita que não se quedava em nada a não ser nas palavras imparáveis.


In "Nuvens Em Acordes de Vida"