Suzana Travassos Valdez

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A forma igualitária de vestir dos outros, deixava-me indiferente, já os que arrojavam na roupa, na escrita, na arte, a esses, eu admirava o destemor, a ousadia.

Era a diferença rara do engenho contra a banalidade, o traço único permitia o alcance da arte.

Uma alma de encadeamento e mutabilidade como o caleidoscópio encantatório, trazido pelo pai, de uma das muitas partes do mundo. Seria a minha alma, uma alma-caleidoscópio? Assim me pareceu!

É uma autêntica maldição sentir demais. Pensar demais. É talvez uma benção saber sentir. É talvez uma benção saber pensar! Mas chega sempre o momento em que já não basta pensar. Nem somente escutar.

Homens ínfimos, que desejavam o regresso de raças superiores, territórios conquistados, religiões perfeitas. A guerra era moda? Não! ERA O RETROCESSO ABSOLUTO DA HUMANIDADE!

A ignorância dos instruídos, a arrogância dos narcisistas, a pequenez de almas que precisam da tirania para compensar a própria vileza, a avidez por territórios a conquistar, a exigir, não era conquista, era RECUO, O DECLÍNIO TOTAL DA HUMANIDADE!

Que espécie de cérebros existia a garantir que não éramos todos homens irmanados numa única humanidade?

Humanidade em latim, "humanistas", significa; o conjunto de seres humanos, a natureza humana e, ainda, um sentimento benévolo e solidário em relação aos outros. Onde se encontrava essa humanidade?

Acordar era o horrífico viver do século XXI. Era o monstruoso assassínio de inocentes, a desolação de vários países sem terra lar, apenas com a terra nua para se ajoelhar e suplicar a Deus, a Allahu, a Javé... A Paz que os homens não lhes davam.

Como seriam considerados pela História, os assassinos de inocentes do século XXI? Aos olhos dos futuros cronistas, só poderia restar um único veredicto - uma humanidade miserável!

Do pouco que me recordava, jamais me encapotara perante as múltiplas vicissitudes, se era resiliente e audaz, apenas o devia a Deus e à vida.

Corajoso não era aquele que não tinha medo por inconsciência, mas sim o que tinha medo e sabia que, independentemente de tudo, tinha que avançar.

Arrepiei-me no lugar onde as lágrimas se anunciam, naquele espaço ínfimo e invisível que o Belo toca.

Bernardo olhava-me em silêncio. Mas não era um silêncio qualquer, era um silêncio habitado. Os seus olhos tinham um cintilar quente, talvez de ternura, talvez de espanto, demoraram-se um pouco mais nos meus, como se quisessem dizer algo que as palavras ainda não sabiam.

Bernardo encerrara-se em silêncio. Temi, naquela libertação e modo de me encontrar, que ele se alheasse ou se entediasse. Percebi que afinal, ele conspirava consigo próprio.

Ficámos parados, como o tempo que se detém diante do que é mais belo do que a vida.

A noite avançava lesta, como só acontece quando as palavras se unem para dançarem uma valsa perfeita.

Depois daquele instante, compreendi que o passado não está atrás, e que a presença de um homem genial, pode persistir muito para além da sua vida, não como sombra, mas como semente.

O tempo do esquecimento é um tempo com margens incertas. Não sei que idade tinha quando li certos livros nem se os li depois de nascer ou antes de existir.

A idade encontra-se, não nos caminhos rugosos que preenchem a face do tempo pretérito, mas no espírito sem trilhos de sulcos, como se a alma fosse um tecido sintético imune aos vincos do transcurso feito de milhões de minutos.

Não entreouvia as horas pregressas como uma tragédia, mas como um renascer de espírito meditado, aprendido e ensinado.

Sentia a minha alma cada vez mais ameninada.

A memória do corpo e da mente, passada, abria-me um leque imenso de perspectivas, de cenários sonhados pela criança que fui, que teimava em ser.

Saberiam os tais pronomes destituídos, que, ao projectarem bofetadas de agravo, não explícitas, me abanavam a vulnerabilidade da emoção? No entanto, tal como a brisa que balança as folhas e, que ao abaná-las, as volta a deixar incólumes, assim ficava eu sob a protecção das palavras geniais dos Grandes.

Como poderia ser uma crítica, escrever-se em bom português? Escrever em português dos egrégios talentos da escrita, sem o facilitismo da oralidade, mas com a gula das belas palavras de outrora, do excesso gramatical, jamais poderia considerar-se aparato ilegível, excepto se não se lesse ou não se soubesse ler os grandes.