Suzana Travassos Valdez
Abri os olhos e constatei que o destino azulineo no céu, ameniza os dias actuais, isentos de ceifeiras, isentos de humanidade.
Na franja solitária, sorri à vida apenas vivida naquele espaço fadado pelo enrodilhar da brisa esfacelando o sonho.
Todos os mundos ficcionais que construímos e onde nos inscrevemos, como mergulho fundo, sem conhecer a sua profundidade, passam a ser o mundo próprio onde vivemos, onde nos esculpimos e nos enterramos na pedra erigida.
Chorei lágrimas de extravio, de ausência, de amor imenso, já sumido. Teria eu, na adolescência, com tanto a acontecer e a descobrir, descurado aquele amor maior da minha avó?
Sorri, por entre as lágrimas, como a menina que fui, já não agarrada à mão da minha tão amada avó, mas para sempre, presa a ela, por lindas penas brancas a esvoaçar até ao Céu.
Os extremos da luz pareciam brincar nos cantos da rua. Também ali, existia um prenúncio de astro rei e noite.
Entre o sol e a sombra, compreendi que os gestos humanos, grandes ou pequenos, definiam-nos tanto como a crueldade e a dor.
Eram os meus filhos! Filhos do meu coração, tão amados e desejados, que habitavam cada batida da minha alma.
Eles eram como os grãos de areia, aqueciam a pele da memória, mas escapavam entre os dedos de quem já não podia habitar o ontem e o amanhã.
Tinha vontade de lágrimas! "Tenho vontade de lágrimas", escrevera Pessoa citando uma criança. Era a definição perfeita da sua própria experiência vivencial. Já éramos dois!
O amor não necessita de justificação, ama-se porque se ama, e isso basta! Quase como se fosse uma espécie de belo absurdo essencial.
O amor salvava-nos de tanto, da solidão, do egocentrismo, da inveja... Até da maldade. Quiçá se os senhores do poder se preenchessem de amor, recusassem a liderança prepotente. Juntos eram incompatíveis.
Quem só almeja o poder, acaba por naufragar em si mesmo, perdendo o rasto, que não seja o seu próprio reflexo.
Num mundo de assimetrias, onde os extremos se isolam e os excessos asfixiam a alteridade, a convivência torna-se apenas uma sombra do que poderia ser.
Algumas diferenças respeitavam-se mais do que nunca, outras, rejeitavam-se sem piedade. O que se passava com os Homens?
Dois gestos singelos, prefaziam o verbo manuscrever. E soltaram em mim, a beleza da escrita à mão e a memória intacta de sonhos, pensamentos de vida registados no papel.
De uma passada já segura, evolou-se uma pena branca. Tentei agarrá-la, fugiu-me. O celestial não se apanha, vem até nós através da alma.
Sentia-me observada, talvez os edifícios daquela rua me espiassem com a paciência das coisas antigas.
