Suzana Travassos Valdez

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Quão bom era pertencemos a décadas de manhãs!

Não sabia em que palavra embrulhar aquele meu tempo, mas sabia que o viveria como um sonho de anjo.

Apenas o sonho, o orvalho da alma, divulga sermos gente de idade experimental.

Encaixotarmo-nos ou não, numa idade que a mente pensante desconhece, derivará sempre dessa bússola da quimera, sem medo de nós perdermos no mar da incerteza, de não termos idade.

Quis desamarrar a idade para regressar à ternura do quarto amarelo.

Com a devida vénia aos terapeutas da alma, teria sido sempre o meu próprio capitão em mar alto.

Talvez dessa forma, conseguisse envolver a noite que avançava, com condição de estação florida, aquém e além, do meu olhar de ser despojado.

Aquela rua, no silêncio adormecido de um corredor sem fim, onde cada passo ecoava no escuro, fazia-se rasgo memorial.

Poeta algum, mesmo que deposto na guerra da vida, será jamais derrotado pelo mais arguto crítico, pois só um detém a veracidade da Arte e de si próprio.

Um som leve, quase inaudível, como se alguém tivesse suspirado no exacto ritmo da minha respiração, atravessou-me.

Fugiam-me as respostas, e na evasão, surgiam as questões em catadupa.

Agilizei o sorriso, ainda que este não alcançasse o riso, com receio que o choro se cumprisse em mim.

Um véu de seda dourada abria-se naquele céu até então adormecido, à excepção dos tímidos e muito lestos raios de sol enganosos.

Quando o coração se expressa, esculpe-se sempre algo de sacro, e, desse modo, toca-nos a alma, independentemente de outras razões inválidas para a Arte.

Finalmente encontrava a minha única certeza, antes do aflorar do sol, existira o anoitecer.

Talvez eu também pudesse renascer após o crepúsculo da minha alma.

As sensações que viajam comigo, na mochila às costas, cheia de mim, essas eram pertença minha e ninguém as podia roubar.

Seria eu como o povo de Lisboa? Após o abalo reerguer-me-ia, vezes sem conta?

O tempo aparentava ter-se partido em silêncio, e eu parecia caminhar nos seus intervalos, passo a passo, pedra a pedra.

Hoje, ao olhar para trás e ao ver as distâncias superadas, percebo que não atravessei apenas uma ponte, recuperei o horizonte.

Ainda há médicos heróis! Este, teve a audácia de ser luz onde outros viam sombra, e a resiliência de permanecer quando o mundo escolheu partir e deixar o edifício abandonado.

Pensei nele em modo de metáfora, talvez porque nenhum agradecimento cabe inteiro nas palavras.

Leio os outros até me doerem os olhos.

Cerrei os olhos, e as palavras dos grandes escritores devolveram-me em sonhos, o pesadelo da labuta de outrora nos mesmos campos dulcificados de hoje.

Sonhei a dureza calosa das mondadeiras enterradas na terra lamacenta, sonhei o ciciar constante das foices a competir com o rugir do vento.