SamuelRanner
De nada serve mostrar ao tolo o caminho certo, pois ele sempre prefere tropeçar nas pedras da própria teimosia
Como um barco sem leme girando ao sabor das ondas, é o tolo repetindo os ciclos da própria ignorância
A rudeza tem um fundo de fraqueza e insegurança.
O inseguro projeta isso em alguém e espera que alguém reaja ao mesmo nível de brutalidade. Quando você responde de forma inteligente e fria, você quebra o ciclo.
A vida não é o rastro que deixamos no tempo, mas a resistência que oferecemos à simetria do esquecimento. Somos a única parte do universo que sequestra a energia do caos para fabricar nostalgia.
Viver é ser um Wi-Fi biológico que capta sinal de tudo, mas não tem a senha de nada. Sentir é o 'delay' entre o que o mundo te joga e o tempo que você leva para entender o tamanho do estrago ou da sorte.
A decepção é quando o seu 'eu' de ontem fez um Pix de expectativa que o seu 'eu' de hoje não tem saldo pra pagar. Viver é passar o resto da vida tentando negociar essa dívida com a realidade.
A religião trata de uma ilusão coletiva, impalpável e sem base factual, mas que molda a percepção do real; ela se torna poderosa porque prefere inventar um sentido a aceitar a incerteza do desconhecido.
Quem é bem resolvido é identidade, quem vigia o vizinho é contraste: o monitoramento da vida alheia é apenas o ruído de quem ainda não sintonizou a própria frequência.
O brilho de uma conquista legítima é um ruído insuportável para quem fez do próprio vazio o seu único eco
O tempo é um carrasco paciente que não nos corta a garganta, ele prefere nos costurar vivos ao que fomos, apertando o nó da memória até que o presente se torne um figurino que já não nos cabe mais.
O Avesso do Vidro
Toda vez que me olho no espelho me sinto diferente
Sinto que estou todo trocado
Como se estivesse de trás para frente
Desarmonia é pouco
O rosto é destoante simetricamente
Algo está alterado
Dentro da minha confusa mente.
Procuro a linha reta, mas só encontro o desvio
Um olho que vigia, outro que foge pelo rio
A boca entorta num riso que não planejei
Sou o rascunho de alguém que eu nunca encontrei.
Não há moldura que prenda essa minha heresia
A perfeição é um tédio, uma fria anatomia
Sou feito de sobras, de ângulos e de frestas
Um quebra-cabeça montado com o que resta.
Se o vidro me cospe essa imagem incompleta
É porque a alma é curva, e a carne nunca é reta
Aceito o erro, o vinco e o traço mal posto
Pois não existe verdade num perfeito rosto.
A verdadeira medicina não cura apenas o corpo; ela abre as janelas da alma para que o Mestre entre sem pedir licença. Na miração, o silêncio da mata ensina mais do que mil sermões gritados em templos de pedra.
Muitos buscam o Reino nos vitrais das igrejas, mas esquecem-se de que o Criador prefere morar num coração honesto do que num altar luxuoso. A fé sem caráter é apenas um disfarce religioso para esconder o vazio do espírito.
Não procures o Divino fora de ti. Ele sopra no vento que balança as copas da floresta e pulsa no sangue que corre nas tuas veias. Quem bebe da fonte do autoconhecimento descobre que o caminho de volta para casa começa dentro do próprio peito.
O arrependimento não é um pedido de desculpas ao céu, é um acerto de contas com o espelho. É o autorreconhecimento de uma dívida que só a honestidade da alma pode quitar.
Ninguém recebe o perdão sem antes atravessar o próprio deserto. O arrependimento é a luz que ilumina a dívida interna, transformando o peso da culpa na leveza da redenção.
Perdoar-se começa no altar da consciência. O verdadeiro arrependimento é o ato de assinar a própria nota promissória antes de pedir ao Mestre que a rasgue.
De nada serve decorar a fachada com adornos religiosos, se por trás da porta a tua máscara apenas esconde o abismo da hipocrisia.
A religiosidade é uma máscara pesada demais para quem tem a alma vazia. O altar exige a face limpa, não uma fachada pintada de santidade.
Não tentes enganar o Céu com a tua fachada, enquanto a tua face se perde no labirinto da própria hipocrisia.
O prodígio não reside na faísca que inaugura o afeto, mas na arquitetura de fôlego que o sustenta contra a erosão do tempo.
Amar é um verbo de fôlego longo: a verdadeira proeza não é a conquista do cume, mas a teimosia de nela fincar bandeira todos os dias.
A maior audácia humana não é o inventar do amor, mas o exercício diário de o impedir de se tornar memória enquanto ainda é presença.
