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⁠"Sobre Trens e Leis"
Uma locomotiva pode trafegar lentamente ou muito rápido. Pode levar poucos ou muitos vagões. Essas variáveis não interferem no que ela é, desde que rode sobre trilhos, continuará sendo uma locomotiva. Os trilhos são o que lhe confere estabilidade, é o caminho imutável, a trajetória inescapável.
As leis são os trilhos de um país. Assim como a locomotiva tem variáveis, um país também as tem, como economia e segurança. Quando alguma variável vai mal, a última medida a ser tomada deve (ou pelo menos deveria) ser mudar as leis, pois assim como trilhos foram postos meticulosamente onde estão, as leis foram debatidas e sopesadas antes de vigorarem.
Infelizmente não tem sido assim, pois temos assistido mudanças legais ao menor sinal de desarranjo, que poderia ser solucionado por vias executivas, tal como o maquinista aumenta ou diminui a velocidade da locomotiva, a depender do traçado dos trilhos ou da quantidade de vagões. A única questão é se o maquinista tem a habilidade e a lucidez necessárias e, sendo o caso, não mudem os trilhos, contudo, não sendo o caso, também não mudem os trilhos, mas o maquinista.

⁠"Preço e Valor"
Ao contrário do que nos habituamos a pensar, preço e valor não são sinônimos. Preço diz respeito a custo, empenho financeiro e mensurável. Coloca-se preços em coisas, pois podemos pagar por elas, e quando não as queremos ou não precisamos mais, simplesmente vendemos, doamos os jogamos fora. Diametralmente, valor é algo intrínseco, que vem junto, indissociável da coisa. Pense em valor como o ouro, mas esqueça por instante o seu preço monetizado. O ouro, muito antes de ter preço, era usado por civilizações antigas, como os egípcio e os maias, por sua rara beleza, brilho e propriedades mecânicas sem par. Para esses povos, o ouro era valioso, mas não tinha preço, não era monetizado. Na cultura da ostentação em que vivemos, na qual "ter" parece ser mais importante do que "ser", não é raro que as pessoas sejam levadas a medir umas as outras pelo que possuem, não pelo que são. É claro que não se pode desprezar a importância do dinheiro, pois ele nos proporciona conforto e as coisas de que todos nós precisamos para viver, mas não é disso que se trata, pois dinheiro vem e vai, serve para comprar coisas e essa é sua única finalidade, simples assim. Quando se trata de pessoas, não se pode pensar em preço, não se mensura dessa maneira uma amizade, um laço fraternal ou familiar em qualquer grau. Temos de admirar e valorizar as pessoas como os egípcios fizeram ao fundirem a máscara mortuária do faraó Tutancâmon, que foi feita de puro ouro cravejada de pedras preciosas, não porque essas coisas eram caras, mas porque eram, e ainda são, raras e, portanto, valiosas.

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⁠"O efeito Cassini"
Nós, humanos, raramente sabemos quando estamos indo longe demais, além do que deveríamos e, por vezes, conscientemente ou não, causamos males a outras pessoas. O texto leva o nome de "Efeito Cassini" em alusão à sonda espacial, assim batizada pela NASA, em homenagem ao astrônomo francês Giovanni Jacques Cassini (1625-1712), uma vez que, após cumprir com seu propósito de orbitar Saturno e suas luas por quase duas décadas, deixando a equipe do projeto orgulhosa de seus feitos, foi deliberadamente destruída pelo controle da missão em terra, que a posicionou no cinturão de asteroides e poeira cósmica que circunda o planeta, desintegrando-a. A difícil decisão de destruir a sonda de que tanto se orgulhavam foi tomada pelo receio de que, caso entrasse em contato com meio líquido do planeta ou suas luas, microrganismos terrenos, que eventualmente estivessem no seu interior, pudessem contaminar esses ambientes, logo, destrui-la longe da superfície foi o único modo de ter a certeza de que isso não ocorreria.
Nós, no entanto, não temos tanto cuidado em nossas ações cotidianas, pois a indisciplina nos parece familiar, assim como a falta de empatia. A decisão de evitar, a todo custo, contaminar, por assim dizer, aqueles que nos cercam com maldizeres, desmotivação, inveja ou com qualquer outro sentimento menor não nos atrai tanto quanto agir desse modo, e assim, espalhamos nosso pior por onde passamos.
Agimos assim quando prestamos auxílio a um necessitado e expomos essa boa ação, constrangendo-o.
Agimos assim também quando tomamos para nós méritos de conquistas obtidas em equipe, desprezando suas contribuições.
Sempre que fazemos isso, é como se derrubássemos nossa Cassini no oceano de Encelado e espalhássemos nossas sementes de maldade e vaidade em suas águas.
A inteligência se opõe, naturalmente, à vaidade, sendo desnecessário qualquer esforço para tal, não significando, todavia, que não devemos ter ambições pessoais ou rejeitando a ideia de que as temos, o que deve ser combatido são sentimentos menores ligados a essas ambições, ou seja, agir como se o fim justificasse os meios.
Nesse contexto, o controle da missão é uma inteligência sã aliada a um coração bem formado, e a Cassini que devemos guiar é, ironicamente, nosso orgulho, mas não aquele que temos dos nossos méritos, pois esse é legítimo, mas sim aquele contaminado pela vaidade que aleija nosso senso de justiça, é esse que devemos sufocar e destruir, assim como fora feito com a sonda, apesar do orgulho que seus idealizadores sentiam de seus feitos, não vacilaram em desintegra-la para evitar que o mal se espalhasse.

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