Rob Sings
A razão dos ecos
O eco enfraquecia,
Não que antes tivesse alcançado algo.
A pressão da água nos tímpanos
Sentencia: é o fim.
“Eco! Se afogue junto comigo!”
Narciso poderia dizer;
Se não fosse Narciso.
Ainda assim, Eco se afogou.
Já não sabia mais o que ecoar,
Já vinha esmaecendo pouco a pouco
Nessa sua doação inglória
Para o outro, sempre o outro.
Agora,
Ficou sem o outro para se basear,
Morreu desvalida.
...
Em matas densas,
Ainda é possível ouvi-la.
A mais célebre alma penada,
Reverberando a voz dos aventureiros,
Sempre indigente.
Até mesmo após a morte.
Fogo: Da fagulha e cultivo
Há algo no fogo
que agita seus dentros.
Algo fundamental,
elemental.
Ecos primitivos.
Anamneses fossilizados.
Inscritos em
rupestre
e/ou
cuneiforme,
no mais profundo
do nosso âmago.
…
Ainda que soterrado, seu cérebro reptiliano
ainda tem aquele rolo de fita magnética
em preto e branco
dos causos de seu
tatatatatatatatata…
tataravô.
Aqueles que, quando jovem,
lhe capturavam a atenção ante a fogueira.
A brava luta contra um tigre na savana;
a emboscada contra um mamute duro na queda;
ou como a tribo sobreviveu ao ataque surpresa de uma tribo inimiga,
em uma fatídica noite.
…
Há sempre algo de familiar no fogo.
Talvez isso se deva ao seu caráter duplo.
E o duplo, se sabe, reverbera conosco sempre a níveis profundos,
irremediáveis.
Isqueiros, caixas de fósforo e fogareiros elétricos nos tiraram a trabalhosa e prazerosa arte de se iniciar o fogo.
Não se busca mais faíscas, pois podemos simplesmente acioná-las através de algum dispositivo.
Quedas de energia e até mesmo blackouts viraram nossos grandes momentos.
Eis, então, o momento para o restabelecimento de laços,
o momento para as conversas necessárias,
para ver o que se sobra quando smartphones e televisores param de ocupar nossos vazios.
Eis a hora de se virar.
Gastar duas caixas de fósforos
e meio litro de álcool,
a fim de trazer uma sobrevida
à fagulha restante.
