Priscila de Araújo
É exaustivo ter que sorrir quando, na verdade, tudo o que se quer é chorar.
Chorar até limpar as feridas, mas não cicatrizá-las.
Porque elas continuam ali, mesmo invisíveis. Escondidas, como uma ferida coberta apenas por um curativo, sem nunca ter sido realmente tratada.
E dói.
Dói porque qualquer toque, mesmo o mais cauteloso, pode fazê-la sangrar outra vez.
Às vezes, alguém toca sem saber. Outras, toca sabendo exatamente onde dói.
E então o sangue escorre.
Suja as mãos de quem tocou, sem querer ou querendo, aquilo que ainda estava aberto.
Talvez algumas dores sejam assim: não desaparecem porque aprendemos a escondê-las.
Apenas ficam em silêncio, esperando o próximo toque para lembrar que nunca cicatrizaram.
Priscila de Araújo
