Preta Gil
Não é fácil passar pelo que passei e continuar sorrindo, sendo positiva.
Desde o início da minha luta contra o câncer, (...) fico buscando o propósito de estar passando por isso tudo. Entendi bem cedo que um dos propósitos era levar informação e, com a minha história, fazer diferença na vida de outras pessoas.
Um riso pra esquecer
Um gol pra se gritar
O sol já vai nascer
Mil ondas pra pular
Um voo de beija-flor
Flutuando no ar
O tempo me contou
Que tudo vai passar
Envelhecer é inevitável, então que seja com dignidade, com aprendizado e com gratidão.
A vida me deu a chance de enfrentar um câncer, de terminar relações que não me enriqueciam e de começar outras.
Eu sinto medo. Mas também tenho muita coragem. É uma dualidade que pode parecer estranha. E, por mais que eu me amedronte, tenho um impulso que me faz ir para frente. Aos 50 anos, acho que metade do meu caminho foi trilhado. E eu sou quem eu quiser ser.
Ter medo não é o problema. O problema é quando o medo te paralisa, é quando o medo não te dá outra oportunidade, é quando o medo não te deixa enxergar aquela porta aberta.
Eu tenho uma fé enorme. Eu me apego a ela em momentos difíceis.
Hoje o corpo que eu tenho é esse, eu não tenho outro, eu não fiz outras escolhas. Esta sou eu e meu corpo carrega tudo o que vivi, tudo o que fiz, e tenho muito orgulho de ser quem eu sou.
Eu vou me privar de me mostrar porque tenho uma cicatriz? A cicatriz se dá num corpo vivo. Eu estou viva. Então, se ela existe, é sinal de que eu passei por uma luta, eu venci e a cicatriz é um símbolo dessa vitória.
O palco é o lugar que eu me sinto mais feliz profissionalmente falando.
A gente coloca muito a expectativa no amor romântico, mas nossos maiores amores são os nossos amigos, nossas amigas.
Eu sei que eu não sou o padrão de beleza e eu represento essa ruptura.
Meu sonho para o Brasil é que a gente consiga vencer o medo. Existe um medo aterrorizador e, por um momento, a gente se deixou abalar. O medo do obscuro, do retrocesso, da violência. Isso tudo fez uma parte de nós ficar apática. Eu espero que a gente vença isso e possa voltar a ser quem éramos, voltar a ser essa potência de amor, um país livre, diverso e inclusivo. Eu espero que a gente se una para vencer o medo.
A cada mulher que me fala que se libertou através de uma atitude minha, uma foto ou uma frase, eu também me conheço mais como mulher, me amo mais, é uma corrente de empoderamento.
Quebrei paradigmas, abri espaços. Não foi fácil, mas olho para trás e tenho certeza de que valeu.
Vivemos num mundo em que o machismo foi um projeto muito bem arquitetado e executado pelo patriarcado para que a gente se odiasse e odiasse umas às outras. Mas hoje somos muitas e estamos unidas.
Entendi que só conversa não é suficiente. Às vezes provoco uma situação desconfortável para que as pessoas reflitam e percebam o racismo. E que ele é um problema do opressor, não do oprimido.
Morrer não tem a ver com ficar velho. Mas, sim, deixar de existir, o que pode acontecer com qualquer pessoa.
Ele [Gilberto Gil] sempre diz que está aqui hoje e que temos de viver o presente da melhor maneira. É o que procuro fazer.
A Preta Gil envelheceu, o que é muito natural. Não encaretei, ao contrário, tenho a mesma paixão pela vida. Encaretar é parar no tempo e neste sentido eu sou bem Raul Seixas: uma metamorfose ambulante.
