Paula Maureth

Encontrados 3 pensamentos de Paula Maureth

O Vaso

Sou cercada de aplausos sempre que por ruas alheias passo,

Sou eco quente nas mãos de quem não me conhece, sou sorriso devolvido,
Por todo lado tem olhos que me vestem de encanto como se eu fosse primavera permanente.

Elogiam minha beleza como quem acende fósforos, rápidos, breves, ardem e esquecem-se do frio depois.
Dizem amar-me sem nunca terem atravessado o meu inferno.

Mas em casa, onde o silêncio devia ser abrigo,
Me torno num mero objeto pousado no centro da mesa, um vaso que não escolheu ser decoração.

Todo ele rachado em quedas repetidas, nas mãos de um artista em negação, e o mesmo insiste em colar-me como se remendar fosse amar.

Duzentas vezes quebrada, duzentas vezes inteira por obrigação.
Não por cuidado, não por ternura,
mas porque lhe convém manter-me junto dele.

Ele não me ama,
não pergunta se o mundo me pesa, não escuta o som fino das minhas fissuras.
Importa-lhe apenas que eu ainda sirva, que eu ainda ceda, que eu ainda esteja viva.

E eu,
Exaltada por estranhos, rainha de palmas vazias,
regresso sempre ao palco onde não existo.
Sou multidão fora, e ausência dentro.
Sou escolha para quem não me escolhe, certeza para quem me trata como hipótese.

E no fim de cada aplauso,
quando o som morre e o eco se dispersa, fico eu, inteira só na aparência, a aprender devagar que nenhum vaso nasceu para viver colado.

Escritora: Paula Maureth Adriano Soares

Inserida por PaulaMaureth

Se eu tivesse escolhido a China

Se eu tivesse aceitado tua proposta, meio que indecentemente e quase cruel, hoje eu claramente não me reconheceria.

Dizias amar-me, mas, na primeira chance, quiseste moldar-me.
Pegaste uma coleira e me elegeste cadela-chefe, a que não trabalha, a que vive de esmolas e de amor às migalhas.

Dói lembrar que, por ti, eu atravessaria um oceano, redescobriria a África e faria da China meu destino de férias favorito.

Por ti, abraçaria Deus, abandonaria meus sonhos, seria uma incubadora ambulante.

Sairia do meu habitat e viveria só para ti e por ti.

Tudo porque, em minha cabeça, o mundo se tornava demasiado pequeno para o nosso amor.

O ar não seria o mesmo sem meu amado, e a vida seria amarga e deprimente.

Se eu tivesse optado por tal destino, não seriam só os meus pulsos que carregariam cicatrizes.

Meu corpo seria uma tela dilacerada por tal decisão, um mapa de todas as vezes que disse sim quando devia ter gritado não.

Paula Maureth Adriano Soares

Depois da derradeira facada

Esperava que fosse apunhalada, mas não contava que tal Judas fosse mais mortal do que aquilo que eu receava.

Choraram por mim, porém morta eu estava. Rezaram pelo meu espírito, mas não havia céu para onde eu ir. Fiquei presa na Terra, a aguardar a derradeira facada.

Vi meu corpo, vi as lágrimas e culpa não senti. Se a tal dita cuja não tivesse cometido tal assassinato, eu mesma me esfaqueava.

Paula Maureth Adriano Soares