Michele Canário
Faço vigília todas as noites,
presa à janela como uma condenada,
olhando um céu que nunca responde,
esperando que uma estrela caia
mas nenhuma tem coragem de despencar.
Meus sonhos são ilusões perdidas,
a esperança já apodreceu no leito.
Não sei se corro contra o tempo
ou se o tempo já riu de mim e partiu.
Os milagres? Covardes!
Dormem como deuses embriagados
enquanto eu grito no escuro.
Do quintal, vejo o firmamento,
e quando uma estrela ousa riscar a noite,
tenho apenas cinco míseros segundos
para vomitar um pedido desesperado.
Cinco segundos!
E depois?
O nada. O mesmo nada de sempre.
Fechei os olhos, menti para mim:
imaginei sonhos voltando à vida,
milagres despertando,
a esperança batendo à minha porta.
Mas era só delírio
a estrela caiu no mar
e afogou minha prece junto.
Agora, só me resta esperar,
presa à vigília de todos os dias,
olhando um céu de silêncio.
E eu, sozinha, amaldiçoo essa esperança,
essa mentira maldita que me mantém viva
apenas para perder mais tempo.
E eu seria o vento que te envolve,
a sombra que te segue descalça,
o nome que te escapa dos lábios,
quando a noite se faz mais densa.
E eu sou o rio que não se cansa,
a margem que te espera quieta,
o segredo que guardas no peito,
mas que nunca confessas.
E eu seria o aroma da terra,
após a chuva que te refresca,
o brilho que se perde no espelho,
quando te olhas e não te enxergas.
E eu não sou a luz nem a escuridão,
só o crepúsculo que te confunde,
"Você sente o que eu não digo?"
Mesmo quando te calas.
E eu seria o eco da tua voz,
a falta que não se explica,
o abraço que nunca se desfaz,
mesmo quando te afastas.
E eu não sou o sonho nem o despertar,
só o instante que te suspende:
"Você lembra do que fomos?"
Mesmo quando não respondes.
O amor é um dedo que desenha
o contorno do teu ombro descalço,
é o sol que se esconde na tua nuca
antes de se perder no abraço.
O resto são cartas sem remetente,
palavras que o vento leva embora,
promessas de gelo, derretidas
no calor da tua boca agora.
Há quem fale de amor como de números,
como se coubesse em fórmulas exatas,
mas o amor é o silêncio que habita
entre duas pálpebras fechadas.
O que vem sem pele, sem cheiro,
sem o tremor de um fio de cabelo,
é só um eco de outros amores,
um fantasma vestido de anelo.
Eu não quero o amor que se escreve,
que se diz, que se guarda em gavetas,
quero o que arde sem explicação,
o que nasce da tua carne inquieta.
Porque o frio até parece ternura,
mas é só a sombra do que importa:
o amor vive onde os corpos se encontram,
e o resto é história mal contada.
Às vezes me pergunto: o que poderia fazer para lhe dizer, sem precisar pronunciar palavras, sem quebrar o silêncio nem alterar a beleza do tempo nublado de seus pensamentos?
Gostaria de encontrar um gesto,
uma ação simples, uma atitude delicada
que mostrasse que estou ali, ao seu lado.
Muitas vezes quis que ele pudesse ler meus pensamentos,
ver através da luz dos meus olhos
e saber tudo o que sinto,
que compreendo a solidão que grita dentro do seu silêncio.
Talvez, assim, sentisse menos peso no peito.
Eu também me perco em pensamentos,
em buscas, em tentativas de resolver as equações da vida.
Sinto-me só quase o tempo todo,
mesmo cercada de vozes que falam
mas não escutam de verdade.
E isso dói.
Só queria dizer, sem promessas:
eu estou aqui.
Estou aqui quando o espelho te mostra um estranho.
Estou aqui quando o passado pesa mais do que deveria.
Estou aqui quando o barulho do mundo tenta calar tua essência.
E estou aqui mesmo quando quer apenas silêncio...
Consigo ser presença sem invadir,
distância sem me ausentar.
Só quero que saiba: eu estou aqui.
Não sou resposta, nem cura.
Quero apenas ser presença, abrigo, carinho.
Sou simples, mas as vezes confusa, até um pouco estranha,
neste tempo que exige tanto.
Muitas vezes me reconheço nas personagens camponesas dos romances de Jane Austen,
como se minha alma tivesse ficado ancorada em outra época.
E se o preço do brilho for a solidão,
então quero ser a luz
pequena, suave, constante
que te lembre sempre:
você não está sozinho.
Às vezes me calo na tua presença,
não por silêncio, mas para não invadir,
para não pesar no ar que respiras,
para que teu mundo permaneça leve, suave, teu.
Sou a mesma de 2016,
a de 2025,
e aquela de outras épocas que me encontram em sonhos,
em flashes de lembranças que dançam como vento nas folhas.
Ofereço carinho onde cabe,
como luz que se derrama sem pressa,
como brisa que toca sem dominar,
como abraço que acolhe sem prender.
Sou amor, entrega e lealdade,
sigo inteira, atravessando o tempo, atravessando nós,
presente em cada silêncio,
presente em cada gesto que fala sem palavras.
Meu querido diário,
Hoje, mais um dia perdido em um mês qualquer, acordei com o ouvido desafinado e o rosto pesado demais para inventar qualquer texto motivacional, inflado de alegrias forçadas. Não tenho vontade de encher linhas de metáforas só para que entendam um cheiro, uma cor ou a tristeza de alguém que tenta disfarçar.
Estou exausta dessa estrada que eu mesma construí, dessa obrigação de dar sentido ao cotidiano. Cansada das declarações vazias nas redes sociais, onde o amor não é vivido, apenas encenado para virar assunto.
Estou tão sem forças que quase recorro a uma frase de Vinícius de Moraes só para dar um ar de profundidade. Mas também estou cansada da ideia de que um texto possa ser confundido com uma dose de álcool, que seja visto como revelação, que cada palavra precise soar como epifania, quando na verdade, as mágoas já aprenderam a nadar sozinhas.
Cansada de agradar a todos em troca de algo que nem sei nomear e que, de qualquer forma, não paga sequer o meu desodorante.
Meu celular parece feito de criptonita, minha capa vermelha anda desbotada, e já não tenho forças para sobrevoar o céu cor-de-rosa em busca de alguém para salvar.
Apesar do cansaço e da descrença nas pessoas, sigo preferindo a companhia dos animais, pois acredito no amor puro que eles oferecem. Mas também acredito em Vinícius, Clarice, Machado, Jorge Amado, Florbela, Shakespeare... talvez porque a literatura seja o último abrigo que resta quando o mundo insiste em me esgotar. Talvez seja apenas uma maneira mais bela e possível de viajar, exercitar a imaginação e alimentar meus sonhos.
16/08/2016
Primeiro eu acordei, depois de sonhar com você, no eco do sonho que te vestia de luz.
O mundo era silêncio, só o teu nome ecoava,
um sussurro que me atravessava a alma.
Depois, descrevi o sonho, como quem pinta o céu, teu corpo era mapa, teu beijo, bússola.
Tua voz cantava uma melodia que me embalava, e eu, perdida em teus abraços, esquecia o tempo.
Voltei a dormir, mas o teu cheiro persistia,
como um fantasma de ternura, suave e quente.
Ao despertar, a saudade já habitava meu peito,
um vazio que só tu poderias preencher.
Passei a manhã suspirando seu nome, vendo teu rosto em cada canto, tua boca, um doce enigma que me consome.
Teu olhar, um farol que me guia na escuridão,
teu calor, um fogo que me aquece por dentro.
Lembrei de tua respiração, ritmo de vida e paixão, da expressão que te invade quando me entrego a você.
Cada suspiro teu era um verso, cada gesto, poesia, e eu, apenas uma refém do teu infinito.
Agora passo as horas querendo saber de você onde estás, como estás, se ainda me lembras.
A saudade é um rio que corre dentro de mim,
e eu, à margem, espero que tu voltes a sorrir para mim.
Resposta do ser amado"
Quando te afastas e vives em silêncio,
meu peito também se fecha, em defesa e receio.
Não nego tua falta — ela vibra nas frestas —
mas me recolho.
Me apago.
E o amor que grita em ti, em mim se cala.
Teu feitiço me toca, mas não me prende sozinho.
Quando caminhas sem me olhar,
eu também deixo de me mostrar.
Como um farol apagado, esperando
que o barco queira voltar.
Não sou labareda quando me deixas no frio.
Sou brasa quieta,
dormindo entre as cinzas do que fomos,
esperando o vento certo.
Mas se tua mão buscar a minha,
se teus olhos voltarem com sede de nós,
acharás mais que abrigo:
acharás um coração aberto,
um peito ainda teu,
um amor que não foi embora — apenas silenciou
pra não sangrar em vão.
Se vieres com ternura,
não precisarás perguntar se ainda és minha.
Sentirás.
Na pele, no olhar, no beijo suspenso entre o tempo e o agora.
Porque teu nome vive em mim —
mas só floresce quando regado de volta.
Teu encanto é chama,
mas só queima em dois corpos acesos.
Tua ausência é sombra —
e a minha resposta, o eco do que recebo.
Se teu amor renasce,
o meu desperta inteiro.
Com o mesmo feitiço,
mas só quando chamado.
Com amor,
ainda teu — Niklaus.
