Mano Brisa
O poeta não é um fingidor! Ninguém vê o que não é lembrado. Talvez o poeta é poeta pq tem varias vidas. O poeta é um tecedor. O poeta é um novelo de almas que se desenrola em versos. Sombras q só ganham forma na memória. E por isso a poesia é um portal para vidas paralelas, não inventadas, mas resgatadas do limbo do esquecimento.
Flor, tudo bem se você precisou ir. Tudo bem se não tinha como ficar. Guardo na memória e no coração as lembranças de todos os nossos momentos lindos que você me ofereceu, das lições que a vida nos trouxe juntos e as que você veio me ensinar.
Queria que, pelo menos por um instante, você pudesse se ver através dos meus olhos, para entender a beleza que sempre vi em você — um fascínio que jamais vou esquecer e sempre vou admirar.
Desejo que você se recorde com carinho de todo o amor que lhe dei, da atenção, da proteção, do cuidado e do dengo que me esforcei para nunca te faltar. Desejo que você entenda agora o seu valor, o que merece e não aceite menos do que alguém quiser lhe entregar. Que se afaste daqueles que te cobiçarem apenas pela beleza física e pelo prazer que possa proporcionar. Você merece muito mais que isso e, com menos, não deve mais se conformar.
Você merece ser amada, apreciada, cuidada e protegida profundamente por alguém que tenha disposição, paciência e zelo para te esperar e te amar até você aprender a amar.
Me desculpe se não consegui, se precisei desistir para me salvar. Fica bem! Beijo.
Passarinho, me perdoe se, em algum momento, eu não consegui te oferecer tudo o que sonhei para nós. Nada disso foi por falta de amor ou de vontade. Me perdoe por não ter conseguido manter nossa família unida. Nada disso foi de propósito, nem o que planejei. Nunca quis te dar menos do que merecia. Flor, que o mundo não transforme em ausência e frieza definitiva o amor que um dia brotou de verdade entre a gente. Rezo todo dia para que a vida não apague de vez o carinho e o afeto que cultivamos e que floresceram tão bonito entre nós, e que o tempo respeite com delicadeza o que compartilhamos.
Quando criança, eu sempre gostei de subir nas árvores, mesmo com medo de altura.
Eu gostava de escalar a mais alta para ter a vista mais longínqua e bonita. Hoje, percebo o perigo, o abismo: de como a queda é mais forte e o choque é imenso, a ponto de me desligar da realidade e ser obrigado a mudar de identidade. Me curar e reerguer está sendo difícil.
O mundo pleno que um dia tanto admirava se desfez. Um pedaço importante de mim se partiu junto com ela. Fui embora de mim. É uma tristeza misturada com um vazio tão profundo, difícil de suportar. Agora, até conseguir tomar um simples banho, me alimentar, dar um sorriso ou caminhar até a esquina é árduo.
Deus me perdoe! Por que fui ter coragem de amar? Esse luto que me assalta a alma é um preço muito alto.
O vazio que ficou na casa parece o reflexo de dentro do peito. Mesmo igual, tudo mudou: até a densidade do ar da casa mudou e ficou mais pesada e sufocante. O mesmo chão que antes era sólido, às vezes parece movediço. Todos os nossos sonhos e risos deram lugar a um silêncio que antes acalmava e era apreciado, mas que agora virou ensurdecedor e confuso.
Quando o "nós" deu lugar ao "eu", o mundo – tanto interno quanto externo – mudou de forma. Parece que ficou mais difícil se entender e viver a partir de agora. O ambiente ficou mais amedrontador e traiçoeiro. Será que tudo que a gente viveu não era real?
Esse fim gentil parece pior e mais difícil de suportar, pois eu não tenho nenhum sentimento ruim para me apegar. Eu não consigo desejar o mal, não guardo nenhum rancor, apenas ressentimento. Como se segue a partir disso, sem nada? Como se supera ou se convive com essa loucura? Juro, eu achava que fosse mais fácil...
A estrutura do espaço, dos planos, a forma de se enxergar: sem a presença dela, perderam a cor, o sabor, o cheiro. O que antes era lar virou um espelho. E ficar cara a cara só contigo mesmo, com as lembranças, com o que poderia ter sido, é muito doloroso.
Será que nomear o sentimento reduzirá um dia o poder que ele tem sobre mim? Será que criar novos rituais me ajudará a reencontrar o "nós"? Ou, mesmo vivo, ele foi embora para nunca mais voltar? Como achar a saída desse labirinto? Existe alguma lente para me localizar no eco da ausência?
O que mais dói: ser transformado num inseto e rejeitado pelo mundo dos vivos ainda enquanto respira, ou carregar o peso de saber que você só é aceito enquanto tem algo a oferecer?
A utilidade é a moeda mais cruel do afeto. É fácil ser querido e celebrado quando suas engrenagens giram sem ruído. É um choque perceber que o brilho nos olhos de quem você mais ama se apaga na mesma proporção em que sua produtividade diminui.
Ser amado pelo que você faz é um mero contrato. Ser amado por quem você é, porém, é um milagre.
Se hoje você se sentir estranho, exausto ou incapaz de performar e entregar o que esperam de você, lembre-se: o problema não é a sua metamorfose. O problema é quem só consegue enxergar o seu dever, a sua utilidade, a sua função — e não a sua alma.
Quem ficaria ao seu lado se, de repente, você não tivesse mais nada a dispor, apenas pelo valor da sua presença?
Será que existe, neste mundo, afinidade e identificação instantâneas? Será que até o amor genuíno tem prazo de validade?
