Lucas Farias Martins
Ladainha da Criadela
Na casa-grande, o tear e a capela:
a Sinhá borda, a criadela fia.
Entre a seda e o algodão, a tela
que embranqueceu o que a senzala cria.
Fia-a em tecê-la.
Dizei-me: quanto mais a devo?
Sinhá, cada vez mais embranquecê-la...
Para que, então, calaste e impostaste a tirania?
Cala-me, sob apostos, junto à tigela.
Não fales — senão atiro diante das vossas clientelas.
Bitola engarrafada, quebraste em mim a sentinela
que havia de existir, impondo-me e exigindo a criadela.
Sinhô, vós hais de ser onisciente sobre nós.
Mas jamais fostes insolente perante o Kairos.
Ó cara majestosa, findar-me-ão os dias afins:
não restará um só adiante, quanto avante a senzala quis.
Mas hei de rir na cinza da tigela,
hei de tecer a minha própria teia.
Sinhô, tua onisciência é cautela:
a mão que fia um dia desenleia.
