Leonardo Piana
Quem trabalha com escrita sabe que as palavras orbitam seu próprio tempo, e mesmo entrar em órbita com elas não significa domá-las. Por isso deixo as palavras completarem seu ciclo. Eu as sigo com os olhos e os ouvidos atentos. Eu as persigo com o coração. Eu as colho quando estão maduras e amadureço com elas. Mas toda colheita requer alguma força.
aquiles disse que antes de virar poeta
quis ser instrutor de escalada na serra do cipó
mas como de tudo na vida
acabou desistindo
que pena
seria bonito ganhar a vida
ensinando às pessoas
a leitura das pedras
a sabedoria das quedas
o que fazer com as mãos
queria escrever um poema que despertasse
ternura
esta que dorme como um andarilho
em qualquer lugar
um poema que fizesse as pessoas
olharem para as palavras
darem um risinho e encherem os olhos
pensando nas suas avós
e que nada escrito se compara
à imagem delas dizendo ai sentei
e depois ligando a TV
para assistir a um programa qualquer
contando histórias das amigas que sobraram
sem prestar atenção na tela
as avós sendo levianas
porque elas têm essa liberdade de serem
levianas
a cultura não exige muito delas
exceto que sejam elas mesmas
velhas e detentoras
de inacreditável sabedoria
esta sabedoria das coisas mínimas
do ritmo das plantas e das colheitas
dos artifícios da casa
do funcionamento dos órgãos internos
a sabedoria do lado mais sombrio
do coração dos homens
elas sabem da morte
e desviam da morte com elegância
coisas que apenas o tempo
e apenas às mulheres
pode ensinar
Divididos somos menos, e às vezes queremos ser menos até ser coisa nenhuma, queremos viver numa parte pequena deste todo que somos. Às vezes, basta uma parte – uma orelha, um coração (...). Cansa muito ser inteiro.
