Jotta Andrade
*"O paralítico foi curado porque tinha amigos que o levaram a Jesus. E seus amigos, estão levando você pra onde? Não se engane, Seu círculo de amizade realmente importa!"*
🙏🏻🛐✝️
A felicidade não é a cidade ao fim do mapa, é o próprio vento pela janela, o ritmo das rodas nos trilhos, o horizonte que se desdobra enquanto se vai.
Pois lembre: o pássaro não entoa seu canto por ter a alegria; é no ato de cantar — no ar que vibra na garganta, na nota que se desprende e preenche o arvoredo — que a alegria, plena, nasce e se aconchega em suas penas.
A felicidade não é um porto à espera. É a própria maré dentro de você, o movimento que faz o navio navegar.
Há uma cena em Encontros no Fim do Mundo que não dá vontade de explicar. Dá vontade de ficar quieto. Um pinguim simplesmente se afasta dos outros, vira as costas para o mar, que é onde está a vida, e começa a caminhar sozinho, em direção às montanhas geladas da Antártida. Um caminho sem volta. Um caminho que, no fundo, aponta para a morte.
Herzog não tenta romantizar isso. Ele só mostra. E, curiosamente, aquilo deixa de ser só sobre um pinguim. Vira sobre a gente.
“Aquele pinguim é o sujeito que rompe.
É o momento em que algo sai do roteiro.”
Enquanto o grupo representa o seguro, o instinto, o “é assim que sempre foi”, o pinguim solitário faz o oposto. Ele não está perdido. Ele escolhe sair. E isso é o que mais incomoda. Porque ir contra o próprio instinto não é coisa de animal, é coisa de humano.
Quem nunca sentiu vontade de ir embora de tudo? De se afastar do que mantém a gente em pé, mesmo sabendo que pode dar errado? Sair de um lugar, de uma relação, de uma fé, de uma vida inteira… não por ignorância, mas porque ficar dói mais do que o risco de partir.
O pinguim não parece confuso. Ele parece cansado.
Cansado de repetir o mesmo ciclo, o mesmo caminho, o mesmo destino compartilhado. Talvez caminhar para as montanhas seja o último gesto de controle que ele tem. Um jeito silencioso de dizer: “até aqui, chega”.
Herzog fala em loucura, mas talvez seja pior que isso. Talvez seja lucidez demais. Talvez, por um instante, aquele pinguim tenha sentido algo que não deveria sentir: o desejo de ser único, mesmo que por pouco tempo.
Ele não caminha atrás da morte. Ele caminha atrás de algo que ele mesmo não sabe nomear. “A morte é só o preço.” No fim das contas, essa cena incomoda tanto porque ela quebra uma ilusão confortável: a de que todo ser vivo quer sobreviver a qualquer custo. Às vezes, viver do mesmo jeito deixa de fazer sentido.
E o mais estranho não é o pinguim indo embora sozinho. O mais estranho, e mais honesto, é perceber que, lá no fundo, a gente entende exatamente por quê. Só não encontramos as palavras para expressar o que é! Apenas esse aperto é essa agonia ao perceber que aquele pequeno ser nos ensinou tanto enquanto caminhava, cada passo era um passo de sua escolha, um passo de sua decisão, decisão essa que culminaria em sua liberdade!
A verdade e a Mentira!
Vou contar uma história
Que o tempo nunca apagou,
De uma tal Verdade pura
Que o mundo não suportou.
É dessas que a gente escuta
Mas nunca se aprofundou.
Na pintura antiga e forte,
Que o pincel eternizou,
A Verdade Saindo do Poço
Foi quem tudo revelou.
Obra de Jean-Léon Gérôme,
Que esse enigma pintou.
Diz a velha parábola
Que um dia, sem previsão,
A Verdade e a Mentira
Se encontraram na amplidão.
Uma cheia de malícia,
Outra cheia de razão.
Disse a Mentira, ligeira:
— “Que dia lindo, afinal!”
A Verdade desconfiada
Olhou o céu natural,
E viu que havia beleza,
Que o dia estava especial.
Andaram juntas por horas,
Conversando sem parar,
Até que acharam um poço
De águas boas de banhar.
Disse a Mentira, sorrindo:
— “Vamos juntas mergulhar!”
A Verdade, cautelosa,
Na água foi encostar,
Sentiu frescor e pureza,
Resolveu então entrar.
Se despiu da sua essência
Sem pensar em se guardar.
Mas eis que a Mentira, astuta,
Saiu ligeira do chão,
Vestiu a roupa da outra
Sem qualquer hesitação,
E fugiu pelo mundo afora
Levando sua ilusão.
A Verdade, revoltada,
Do poço veio sair,
Nua, crua e sem disfarce,
Tentando se redimir.
Mas o povo, ao vê-la assim,
Preferiu dela fugir.
Viraram rosto e desprezo,
Ninguém quis a encarar,
Pois a Verdade despida
É difícil de aceitar.
Mais fácil é a Mentira
Bem vestida a circular.
Triste, a Verdade retorna
Pro fundo do seu lugar,
Se esconde no escuro d’água
Sem mais querer se mostrar.
E o mundo segue enganado,
Sem vontade de acordar.
E assim segue essa história
Que o tempo só confirmou:
A Mentira anda vestida
Do que nunca lhe pertenceu,
E a Verdade, envergonhada,
No poço se recolheu.
