jeremias cardoso
Tudo passa, tudo passará.
Da memória surge uma tela em mim,
cheia de lugares onde nunca estive:
coisa inglória, sofá horrendo, mofo e tristeza.
E a selva amazônica
— tribos, índios, saqueadores —
aparece nessa tela onde nunca estive:
Pindorama de águas, verdes, animais e horrores.
Cheio desses lugares onde nunca estiveste,
poderíamos algo materializar:
tempos antes de beijos silvestres,
e depois trilhar vias tortuosas.
Sentir pulmões e diafragmas
inflar de ar, o cheiro da mata;
correr com bichos assustados,
mil cantos, berros,
e, ao fim, sentir-se voltar para casa.
Joguemos então a tela
e o sofá no crematório das inutilidades.
Sempre há dois lados.
As repetições só fizeram sentido
quando parei para ver
a violenta, imensa onda —
intragável, de recuo invisível.
Para me ver limitado, sem voz, apenas assistindo.
Abro o notebook, a internet, seus símbolos e portais.
Parece que vivo há dez mil anos.
O banco deixou de ser martírio para os jogadores;
sempre foi uma nave do tempo.
Do banco ouço Chico cantar:
"ai que saudade dos meus doze anos",
"que saudade ingrata..."
A nova casa trouxe-me
quinzenas de sede e fome,
atrozes obstinências.
Mas...
a hora da alegria chega depois do dia mais cansado.
Cansado de quê, exatamente?
Hoje é dia de semana,
mas poderia ser feriado — tanto faz.
Sob um sol mais limpo, banhando tudo de luz,
a vida fica mais agradável
quando descobrimos que não é eterna.
E nada se compara à insustentável leveza da vida
sem a internet.
Tudo passa, tudo se esconde em mim.
Da memória, uma tela se desenha,
lugares onde nunca pisei,
ecos de um passado que não é meu.
Sofá gasto, mofo que invade o silêncio,
tristeza que habita os cantos escuros.
E a selva, vasta e imensa,
tribos, índios, sombras que me cercam.
Pindorama, terra de águas e verdes,
animais que correm, horrores que calo.
Lugares que não são meus, mas me tocam,
fragmentos de um mundo que habita em mim.
Antes dos beijos selvagens,
antes das trilhas tortuosas,
sinto o ar inflar meus pulmões,
o cheiro da mata, o pulsar da vida.
Corro com os medos, com os gritos,
mil vozes que ecoam dentro.
E, no fim, retorno ao meu centro,
à casa que sou, ao silêncio que me completa.
Deixo a tela cair,
queimando o inútil, o que não me serve.
Renasço do fogo, limpo, livre,
pronto para sentir, para ser.
Bovary,
nuances inevitáveis,
o vinho enleva e me embala.
Deixei-me ir, deslizei no tempo,
sem saber o que pensava,
nem o que dizia exatamente.
Às vezes, penso que
nunca vivi tudo o que poderia.
Existem correntes invisíveis,
presas que não compreendo.
Ousaria perder a amizade—
esse grande tesouro?
Sonho de liberdade,
que pulsa em silêncio no peito.
Quem ama não escolhe,
não exclui, não espera.
Simples assim,
amor que se entrega,
amor que é.
Do caroço da fruta, sou o que resta,
um eco do que já fui.
Na vida que carrego, amei verdadeiramente —
amor que morreu, silêncio que ficou.
Precisei emprestar meu próprio eu,
desajustado, estranho a mim mesmo,
e devolvi o que não me cabia.
Fizeram de mim um ser largado,
rasgado, perdido no mundo alheio.
Deitaram-me em leito de espinhos,
gemidos presos em gritos mudos,
fogo gelado que queima por dentro.
Minha alma ardia, descartada,
na lata do lixo onde o bicho devora,
latidos de abandono.
Um gato de sapato bicudo,
matador silencioso no canto da casa,
olha e sorri com malícia fria.
Cavei minha própria cova,
enterrado com a terra que tirei,
assustado despertei,
e voltei a dormir —
perdido no labirinto de mim mesmo.
Às vezes, me pego pensando... É nessas horas, quando acolhemos as fragilidades e tristezas que moram em nós sem pedir licença, que surge a força para criar textos complexos. Textos capazes de iluminar, mas que alguns desavisados — aqueles desprovidos de experiência ou sem dor aparente — talvez não consigam compreender. Ah, aí é fácil: basta soltar as palavras ao vento, e ele faz o resto. Leva consigo a dor iminente, para um lugar que nem imagino, pois imaginação não é meu forte.
Ao despertar, teu nome dança em meus pensamentos, E isso basta para iluminar meu dia. Que as bênçãos divinas envolvam teu caminho, meu amor, E nunca esqueças que meu coração pulsa por ti, eternamente.
Lúcia Iara, presença que fala no silêncio profundo do olhar,
serenidade que sussurra segredos ardentes ao vento apaixonado.
És ouro puro, brilho que incendeia a alma e faz florescer o coração;
delicada como jasmim, teu toque é um beijo suave que faz o mundo suspirar.
Tu dobraste o vento em teus braços, aqueceste o mar revolto,
e com um gesto divino, transformaste tempestades em doces calmarias.
Lúcia Iara, guardiã das memórias vivas —
cicatrizes de batalhas vencidas que revelam tua força serena e indomável.
És cultura que pulsa no peito, arte viva em cada suspiro,
história eterna, escrita com a tinta do amor e da paixão.
Passado e futuro se entrelaçam em ti;
o presente floresce em teu sorriso encantado.
Charmosa e marcante, tua beleza emana do ser,
alma divina, flor do jardim, brisa suave do mar.
Luz que guia as noites mais escuras — única, rara, singular,
um poema infinito, um amor que não se finda.
Lúcia Iara é princípio, meio e eterno fim da minha alma.
Lá vai Lúcia Iara, caminhando ao mercado, trazendo alimento para seus pequenos. Ela é pura luz — um abraço que a gente deseja sentir sempre.
DIA DA CONSERVAÇÃO
Na amizade, os motivos, razões e princípios se entrelaçam como pétalas delicadas de uma flor rara, criando um laço profundo e fraternal. O apreço, a estima e o respeito são os versos suaves que compõem essa poesia silenciosa do coração.
Falar de consideração e reconhecimento é falar da essência pura que aquece a alma. Eu conheço bem essa magia, pois tive e tenho amigos que, com seus sorrisos e gestos, pintaram momentos hilários e inesquecíveis neste palco encantado que chamamos vida.
Dentro de mim, habita uma gratidão infinita e uma admiração que floresce a cada lembrança daqueles que, com gestos simples, revelaram o que há de mais sublime na existência humana: a atitude sincera, a palavra doce e o respeito profundo pelas opiniões alheias.
Essas ações, tão belas e genuínas, não pedem nada em troca; elas brilham por si mesmas, como estrelas que iluminam a noite escura do mundo, mostrando o caminho do amor verdadeiro e da amizade eterna.
A poesia desce em cascata para o âmago da alma,
um sussurro divino que acalma e incendia o espírito.
É uma salada de letras,
tempestade suave,
banhada na essência pura da flor que desabrocha no silêncio do jardim,
no abraço etéreo da brisa que dança sobre o mar,
na luz solitária e prateada do luar que vigia os sonhos esquecidos.
Ela acaricia a mente como um toque celestial,
pintando com tintas invisíveis as paredes secretas do ser,
onde o infinito se revela em cada suspiro.
Nosso ciclo se desenrola entre sombras e suspiros. O nascimento, um lampejo de alegria efêmera, contrasta com a partida — um adeus silencioso que dilacera a alma, um momento sombrio que nos prende ao medo e ao sofrimento.
Vivemos à mercê dessa hora cruel, atormentados pela dúvida que corrói o peito: como será o último suspiro? O mistério da saída nos envolve em névoas densas, onde perguntas ecoam no vazio e respostas se escondem na escuridão.
O medo, companheiro inevitável, nos sussurra verdades dolorosas. A vida, tão bela e luminosa, é também um prelúdio para a ausência. Sabemos que a morte virá, silenciosa, para levar tudo embora — sonhos, risos, amores.
Resta apenas o consolo amargo de que, após ela, cessarão as dores, os lamentos e o vazio; um silêncio eterno onde nada mais existirá.
O frio que passou permanece na memória,
tardinha que se instala suave no sul silencioso.
As galinhas, quietas, empoleiradas no terreiro,
guardam o segredo do silêncio profundo.
Ao longe, as rodinhas de chimarrão desenham círculos de histórias,
enrolado até o pescoço, me perco em lembranças que sussurram.
Saudade dos tempos de ciranda, de pique-esconde,
onde o mundo era feito de risos e sonhos simples.
Na distância do tempo, só o doce permanece,
o sabor da esperança que ainda repousa no peito.
Vejo, nas crianças, a alegria que não se apaga,
juntas, cantando, rodando, tecendo futuros invisíveis.
Sinto uma leveza, o perfume das rosas.
Sinta o vento que alivia o calor;
se tiveres frio, eu te abraço agora.
Quero estudar o amor.
Sinto leveza nas palavras que nascem.
Me inscrevo em grupos de confissões:
estou estudando o amor,
os riscos de vida dessas situações,
o não poupar de si em busca do prazer,
a disposição para o dar e o receber.
No meio do não pensar, apenas ser —
ser o que tem de ser,
segundo a disciplina que segue a cartilha do amor.
Descubro que a vida só é boa
quando se conhece o amor:
gratuito, insensato, ponderado.
Estou estudando as ciências naturais
que emanam das leis, das leis do amor.
Enquanto você busca a resposta, eu já trouxe os dados.
Não sou só a pergunta — não fico na teoria; eu ajo.
Estou em constante transformação, construindo meu caminho mesmo diante das críticas.
Sigo em frente. Se você não quiser vir junto, tudo bem — só peço que evite lamentações e críticas vazias.
Você é uma luz — então brilhe.
Tudo se move, tudo se ajusta — existem maneiras de resolver as coisas. Quem se opõe a nós pode ser superado, mas o desafio é manter o foco quando alguém atira pedras sem alvo e você corre o risco de ser atingido.
Cresci na igreja: meus pais me levavam todo domingo e eu gostava de cantar. Com o tempo, porém, perdi o entusiasmo e não encontrei motivos para continuar. Não sei exatamente por que — talvez por mágoa, talvez por algo difícil de explicar. Nem tudo na Bíblia é fácil de entender, mas eu acredito e aceito isso. Sou humano, fraco e limitado.
Antes, pensava que devia crer cegamente em tudo, mas dúvidas foram surgindo. Me pergunto se tudo o que está escrito chegou exatamente como foi dito. Assim como Sócrates, Jesus não deixou textos próprios; escreveram sobre ele. Será que não alteraram, reduziram ou acrescentaram palavras?
Acredito em Deus e em Jesus. O que me incomoda é que, para mim, a Bíblia parece ter contradições em vários trechos. Talvez o problema seja eu, lendo-a como um livro comum. Também sinto que, em certos aspectos, a Bíblia pode funcionar como um freio para a humanidade. Não quero impor meu ponto de vista — cada um é livre para refletir.
Escrever sempre me fascinou. As ideias aparecem e desaparecem: algumas permanecem, outras se perdem. Preciso de inspiração e sou influenciado pelo que me rodeia — mesmo assim, às vezes não consigo começar.
Hoje estou travado; nada vem. Sei que é apenas uma fase e que vai passar, então tento recomeçar. Costumo escrever demais e, ao reler, não gosto do que escrevi. Apago tudo e começo de novo.
Quando surge um novo pensamento, as coisas começam a tomar forma. Mas logo vem o pânico: escrevo sem freios, depois filtro tudo e, no fim, parece que não sobra nada para contar a história.
A fé tem um poder profundo: ela transforma a vida e orienta a realização dos seus desejos. Ao acreditar, você gera uma expectativa positiva que facilita a conquista dos seus objetivos. A fé alimenta perseverança e otimismo — é a confiança firme de que as coisas podem dar certo.
Quando a fé aparece, parece que tudo passa a conspirar a seu favor, e você naturalmente se coloca a serviço do próximo. Você escreve sua própria história ao optar por atitudes construtivas; é nesse caminho que se cresce. A fé também ajuda a superar obstáculos — quem acredita tende a pensar de forma positiva, atraindo mais alegria e oportunidades.
Mantendo uma postura otimista, despertamos energias que muitas vezes são difíceis de explicar. Cultive esse bem-estar e confie no que deseja. A fé fortalece a saúde, acalma a alma e traz grande benefício.
Aflições fazem parte da condição humana; a fé é elevada e nos ajuda a reconhecer nossas limitações — somos frágeis e erramos. Nunca desista: levante-se, sacuda a poeira e siga em busca da vitória. Viver com sabedoria é viver na fé. Ao agir com bondade e excelência, contribuímos para uma humanidade mais grata pela nossa presença.
A beleza é complexa e difícil de definir, mesmo quando a consideramos essencial. O tempo, no entanto, costuma desmentir essas certezas, levando consigo o que idealizamos como permanente.
O medo é natural. A vida é bela e valiosa — disso todos temos ciência. Ainda assim, cedo ou tarde a morte chega e nos tira tudo. O conforto está em saber que, depois da morte, não haverá mais dor nem sofrimento.
Contar historinhas para minhas filhas é uma alegria. Para elas, tudo precisa ter um fim: o homem nasce e morre, a planta cresce e depois desaparece. Elas não conseguem imaginar o universo como algo sem limites. Passo horas tentando conceber um término para o universo, porque, na cabeça delas, toda história exige um desfecho.
Amar é um nó cego em nossa programação genética, muitas vezes orientado pelo instinto. Conectando consciência e inteligência, o amor pode ser tanto doce quanto amargo.
Quem fofoqueia sobre a vida alheia ou julga outra pessoa está descumprindo a própria regra moral; ao fazer isso, assume o papel de juiz. Se age assim de forma recorrente, deixa de ser apenas observador e passa a adotar essa função como seu comportamento habitual. A forma mais clara de ver isso é lembrar que há um único detentor da verdade: Deus. Então, quem você acha que é para avaliar, opinar ou emitir um veredicto sobre o outro?
Lida com honestidade e sem tentativas de distorção, a Bíblia é a força mais influente e funciona como um freio para a humanidade.
A maldade desta raça manifesta-se em um coração dividido, que age conforme suas conveniências.
