P. silva3
Aqui o Brasil não é mapa —
é corpo em brasa.
A pele da terra rasga em fogo,
e a fumaça sobe como um grito antigo
que ninguém quis ouvir.
No peito, a bandeira ainda pulsa,
cercada por cinzas e promessas queimadas.
O verde virou carvão,
o azul resiste como céu ferido,
o amarelo tenta lembrar que já foi sol.
Cada labareda é uma história interrompida,
um rio que pede socorro,
uma floresta que reza sem língua.
O país arde, não por acaso,
mas por descuido,
ganância e silêncio.
Mesmo em chamas, há algo que não morre: a esperança teimosa que brota na rachadura.
Do fogo pode nascer semente —
se o povo acordar,
e decidir ser chuva.
Mas então existe você
Que não puxa, caminha junto
Não me prende, não me drena
Me ama avançando
— e eu avanço por nós.
Na nossa vida existem encontros
Que são vento nas costas
Mãos que empurram com cuidado
E nos fazem avançar sem medo.
Existem também as âncoras
Que prendem o peito ao fundo
Pesam mais do que abraçam
E confundem amor com permanência.
Há quem puxe pra trás
Sugando a luz dos dias
Transformando sonho em cansaço
E presença em esgotamento.
Mas você…
Você me puxa pra frente
Não corre por mim,
caminha comigo
E transforma amor em caminho,
não em peso
A Morte do Caráter
O caráter adoeceu em silêncio,
foi perdendo a voz nas esquinas do interesse, trocou a espinha por atalhos e aprendeu a sorrir com dentes emprestados.
Enterraram princípios como quem varre poeira, cobriram a verdade com tapetes caros, e a honra virou um objeto antigo guardado num quarto que ninguém visita.
Hoje o caráter é lembrança em retrato amarelado, uma árvore cortada que ainda insiste em sombra, morreu de pequenas concessões diárias
— não por um golpe, mas por abandono
O caráter morreu como uma casa abandonada, onde as paredes ainda estão de pé, mas o eco da verdade já não mora; foi enterrado sob aplausos falsos, qual uma moeda enferrujada no fundo do bolso, esquecida pelo valor e lembrada apenas pelo barulho; e hoje caminha entre nós feito um espelho quebrado, refletindo rostos inteiros em fragmentos convenientes, enquanto a consciência aprende a sobreviver sem se olhar.
Percebi que era você quando o mundo ficava em segundo plano
e a minha vontade era só ouvir tua voz,
mesmo no meio do caos,
mesmo sem assunto.
Percebi que era você quando o meu peito aprendeu teu ritmo,
quando meu corpo reconhecia tua ausência
antes mesmo de eu admitir,
e o silêncio passou a ter teu nome.
Percebi que era você quando baixei as defesas,
quando te entreguei meus medos sem ensaio,
quando confiei minhas partes quebradas
sem medo de você ir embora.
E entendi que era amor quando não precisei provar nada,
quando cuidar virou natural,
quando te escolher todos os dias
pareceu a coisa mais simples do mundo.
Derby Paulista
O estádio é um coração cercado de concreto, bate em verde e em preto, em branco e em fé.
Cada canto é uma veia pulsando promessa, a cidade inteira prende o fôlego no apito inicial.
No gramado, a bola é um sol inquieto, ora foge, ora queima nos pés apressados.
As chuteiras escrevem versos na grama curta, poesia suada, rasgada, impossível de ensaiar.
As arquibancadas viram mar revolto,
ondas de gritos quebrando no mesmo cais.
Bandeiras são pássaros em guerra no vento, e cada gol é um trovão rasgando o céu paulista.
Quando o jogo acaba, a noite cai em silêncio estranho, como depois de uma briga entre irmãos.
Mas o derby fica — cicatriz e lenda —
gravado no peito da cidade que nunca dorme.
Nunca te iludi, sempre te amei
Nunca te iludi
— meu silêncio nunca foi vazio.
Carregava teu nome com cuidado,
como quem guarda água em mãos abertas, sabendo que amar também é não prometer o que não se pode cumprir.
Sempre te amei nos detalhes pequenos:
no jeito que o dia ficava mais leve quando você chegava,
na paciência que aprendi sem perceber, no respeito de te querer livre, mesmo quando te queria perto.
Não te confundi
com passagem nem distração.
Te escolhi sem alarde,
com o coração firme e os pés no chão, porque amor de verdade não precisa enganar pra ficar.
Se um dia duvidar,
olha pra trás com calma:
meu afeto nunca mudou de forma,
nunca vestiu máscaras —
nunca te iludi, sempre te amei.
Canção do Exílio
Minha terra mora em ti,
no jeito que teu riso me chama de volta.
Longe de você, tudo é ausência,
até o tempo aprende a doer.
As noites aqui não sabem teu nome,
o vento não traz teu cheiro,
e o coração anda estrangeiro
num lugar que não me reconhece.
Sonho com o dia do retorno,
quando teus braços serão porto
e não haverá mais distância
entre o que sou e o que desejo.
Se amar é exílio, aceito ficar,
desde que teu amor seja morada.
Pois longe de ti não há chão
— há apenas saudade tentando sobreviver.
As sem-razões do amor
O amor não pede licença à lógica,
chega quando não é chamado
e permanece mesmo sem explicação,
feito chuva mansa em dia inesperado.
Amei sem saber o motivo,
sem rumo, sem garantia.
Meu coração escolheu antes da mente,
e eu apenas segui o que pulsava.
Há amores que não resolvem a vida,
mas dão sentido ao caos.
São as sem-razões do amor,
existindo mesmo quando tudo falha,
mesmo quando doem,
ensinam a ficar inteiro.
Porque amar não é cálculo nem acordo:
é entrega sem defesa,
é aceitar que algumas coisas
só existem porque não têm razão.
As cem razões para amar lá
Eu poderia listar cem razões para te amar,
mas nenhuma caberia inteira nas palavras.
Te amo no que explico e no que escapa,
no que fica e no que insiste em ir.
Te amar é perceber que o mundo silencia
quando tua presença atravessa o dia.
É encontrar sentido no simples,
como se tudo ganhasse outro nome.
Há razões que nascem do teu riso,
outras do silêncio que me entende.
Algumas vêm da calma,
outras da saudade que você deixa.
E quando as razões acabam, eu continuo.
Porque amor não é conta exata,
é escolha diária,
é ficar
— mesmo quando não há mais porquê.
Arte de amar
Amar é aprender a nadar em mar revolto, onde o vento não pede licença e as ondas testam a coragem do peito.
Ainda assim, o coração
insisteem ficar à deriva.
O amor é arte feita sem esboço,
pincel molhado de sal e esperança,
cada toque um risco, cada erro uma nova forma de beleza.
Há noites em que o medo parece afogamento, o silêncio pesa como âncora no fundo do peito, mas até o mar mais bravo ensina
que respirar é um ato de fé.
Porque amar não mata
— transforma.
Desmonta, refaz,
ensina o corpo a flutuar.
Quem ama não foge da tempestade:
aprende a chamar o caos de casa.
Amor de História
Nos apaixonamos como quem descobre um manuscrito antigo,
com cuidado para não rasgar o tempo, folheando silêncios,
lendo sentimentos escritos à margem.
Teu olhar era linha do tempo,
me levando do agora ao sempre,
cada palavra tua uma data marcada
no calendário secreto do meu coração.
Havia batalhas internas, tratados não assinados, um amor vivendo entre capítulos proibidos, como se o destino pedisse notas de rodapé para explicar o que não podia ser vivido.
E mesmo sem final oficial,
nos tornamos fato histórico
um no outro:
um amor que não se apaga,
apenas muda de século dentro da memória.
Encontrei um pergaminho antigo,
guardado no fundo do tempo,
nele dizia que o amor não se desfaz,
apenas muda de caligrafia.
Antes de te conhecer,
eu era só um menino sonhador,
rabiscando o mundo em guardanapos, acreditando que versos eram abrigo.
Eu caminhava com o peito aberto,
como quem atravessa um deserto
seguindo estrelas que não sabia nomear, colecionando silêncios como mapas.
Então você surgiu feito tinta viva,
molhou meus dias de cor e sentido,
ensinou minha mão a escrever sem medo, como quem descobre a própria língua.
Hoje sei:
o pergaminho não era papel,
era o meu coração esperando leitura,
e o amor que diz durar pra sempre
aprendeu a morar no teu nome.
Clássico paulista
Palmeiras
O Palmeiras é floresta antiga que aprendeu a vencer o concreto.
Raiz profunda, tronco firme, folhas que não caem nem quando o tempo castiga.
Quando o vento sopra contra, ele range — mas não quebra.
É verde que cresce em silêncio e, de repente, toma tudo.
São Paulo
O São Paulo é torre erguida no meio da cidade, olhando o jogo de cima.
Tem a calma de quem conhece a própria história e a frieza do mármore.
Não corre atrás do caos: espera, calcula, decide.
Quando vence, parece simples — como se sempre soubesse o final.
Corinthians
O Corinthians é rua cheia, grito rouco e punho fechado.
Não entra em campo sozinho: carrega um povo nas costas.
Joga como quem apanha e responde com o coração antes da razão.
É fé que não explica, só empurra.
Santos
O Santos é mar aberto, menino descalço e bola leve.
Joga sorrindo, como quem aprendeu cedo a conversar com o impossível.
Revela talentos como ondas revelam conchas.
Quando toca a bola, o futebol parece lembrar de onde veio.
Se quiser, faço mais cifrado, mais épico, ou puxo pro lado romântico-nostálgico — do jeito que você gosta de lapidar poesia.
O auto-Perdão
Ele incendiou o coração dela
como quem risca fósforo em noite de vento, e no clarão do erro,
queimou as próprias mãos
sem perceber que o fogo também volta.
Ela o perdoou como chuva mansa
caindo sobre terra rachada,
lavando as cinzas, oferecendo verde novo, acreditando que até solo ferido
pode voltar a florescer.
Mas dentro dele morava um espelho quebrado:
toda vez que se olhava, via o erro em cacos.
Mesmo com o céu limpo que ela oferecia, ele insistia em caminhar sob tempestade,
incapaz de se dar abrigo.
E assim,
ele naufragava em porto seguro.
Tinha perdão como farol aceso,
mas preferia a culpa como âncora.
Porque às vezes o amor salva —
mas o auto-perdão é quem ensina a voltar à superfície.
Um pedido de desculpas
O coração não voltou a bater sozinho,
virou casa abandonada depois da tempestade,
janelas rangendo saudade,
esperando passos que soubessem chegar sem quebrar.
Eu ouvi um pedido de desculpas
como chuva fina em terra rachada,
não fez barulho, mas ficou,
penetrando devagar no que ainda era seco.
Entre escombros, te vi juntando cacos
como quem remenda um vaso antigo com ouro,
sabendo que as rachaduras não somem,
apenas aprendem a brilhar de outro jeito.
Hoje o peito bate como farol cansado,
não ilumina por excesso, mas por insistência.
Porque amar, depois do erro,
é navegar mesmo sabendo do mar.
há corações que não sabem mais pulsar sozinhos, precisam de verdade, cuidado e presença, como flores que só se abrem quando alguém fica.
Ainda pulsa a esperança
O fogo devora o verde,
o amarelo, o azul profundo,
uma bandeira queimada como memória de um sonho.
Ruas viraram cinza
e eco de passos perdidos,
mas ainda pulsa a esperança
em meio ao abandono.
As chamas refletem o caos de cidades em pranto,
carros queimados,
prédios que choram fumaça.
No horizonte,
silhuetas caminham sem destino,
como sombras que guardam histórias de um povo ferido.
O céu se abre em nuvens pesadas, carregadas de medo,
helicópteros cortam o silêncio
de uma pátria em alerta.
Mesmo na destruição,
há um grito que insiste:
“Olhem para nós,
aprendam com a dor
que carregamos.”
E assim, entre brasas e escombros, o país respira,
resiste no eco de vozes que ainda não se calaram.
A bandeira, ferida, ensina que mesmo em chamas
pode brotar a coragem de recomeçar.
E no fogo,
A bandeira ainda brilha,
não como símbolo,
mas como desafio.
Que arda o que precisa arder,
para que o amanhã renasça das cinzas, intacto e audaz.
E mesmo em cinzas, o Brasil respira.
Porque nenhuma chama vence quem aprende com a dor.
Da bandeira que arde nasce um silêncio gritante:
ou mudamos a terra,
ou queimamos com ela,
em desamor.
Filhos do Futuro
Carregam nos olhos
a luz que ainda não vi,
Sementes de um mundo
que insiste em nascer.
Em cada gesto, em cada riso,
há o que eu sonhei,
E o que eu não consegui,
talvez, vocês consigam.
Que aprendam com
o vento a suavidade
do tempo,
E com a chuva,
que às vezes tudo se renova.
Que saibam que o amor é força
e é abrigo,
E que perdoar é a ponte
que une corações.
Que encontrem caminhos
mesmo na sombra da dor,
E que nunca temam
a vastidão
de seus sonhos.
Pois cada passo,
mesmo incerto,
é história viva,
E cada escolha é música
que o mundo irá ouvir.
Filhos do futuro,
guardem a esperança,
Como quem segura
estrelas nas mãos.
Vocês são promessa,
raiz e asas,
O começo que transforma
o ontem em amanhã.
É fase
Que seja o vento,
se for pra tocar,
mas que toque como
quem aprende o caminho da pele,
manso e inevitável,
feito segredo que só o coração entende.
Se for pra esperar,
que seja como a lua,
inteira mesmo quando
parece metade,
brilhando paciente sobre
telhados de silêncio,
sabendo que toda ausência
também é fase.
Se for pra amar,
que seja como rio em deságue,
sem medo das curvas,
sem medo do mar,
levando nas águas
o excesso
dos sonhos
e devolvendo ao mundo
a coragem de ficar.
E se for pra viver,
que seja como chama,
dessas que dançam
mesmo sob tempestade,
iluminando o escuro com riso aceso —eterna centelha de felicidade.
Um artigo dizia:
''Historicamente, se diz que no coração está a origem do amor, da coragem e da bravura.''.
Que você fique —
não apenas na moldura dos meus dias,
mas na essência silenciosa do que sou,
no espaço entre um pensamento e outro,
onde mora tudo o que ainda não sei dizer.
Fica nos meus planos desajeitados,
nas promessas que faço ao vento,
nos caminhos que invento só para ter
a desculpa bonita de segurar sua mão
como quem segura o próprio destino.
Fica nas minhas manhãs apressadas,
no café que esfria enquanto penso em você,
nas noites em que a saudade sussurra seu nome
e transforma ausência em esperança,
distância em vontade de abraçar.
Mas, acima de tudo, fica no meu coração —
faz dele teu abrigo, tua calma, tua certeza.
E se o mundo lá fora for tempestade,
fica…
porque é em você que encontro lar.
