Ivete Nenflidio

Encontrados 10 pensamentos de Ivete Nenflidio

Abortando voo⁠

Dizia Fernando Sabino, os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem não ter. Eu não finjo que não tenho, ao contrário, admito que tenho pavor, mas como é necessário voar, tento não pensar ou focar na ação, simplesmente voo.
Meu medo tem uma origem, numa decolagem. A aeronave prestes a subir abortou, foram alguns segundos de frenagem com a pista molhada, os ruídos eram intensos e os passageiros tiveram seus corpos projetados violentamente.
O mais assustador não foi o ato de frear de forma súbita ou os gritos ou, ainda, os rostos assustados da tripulação, o mais perturbador foi saber que dentro dos aviões são transportados passageiros e que alguns sinônimos da palavra são: breve, fugaz, efêmero, finito.

Ivete Nenflidio
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⁠Teu nome

Se tu fosses uma palavra, certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou te chamasse de caminho, mas não qualquer um,
tu serias aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamar-te de mistério
ou de infinito, já que não posso imaginar tua dimensão.
Teu nome poderia ser chuva,
rio ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés e lembraria o balanço do teu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra de ti.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem, esperança, memória,
sem dúvida, teu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e tu terias nome e sobrenome.

Ivete Nenflidio
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⁠Devaneios

Distraída, pego-me pensando em ti,
amei sem que tu soubesses,
sem que tu percebesses.
Preciso me acostumar com a tua ausência
e buscar, na escassez de ti,
respostas.
Não espero mais o beijo,
só ficaram planos e o querer.
Tento não pensar mais em ti.
Antes te encontrava dentro de mim,
agora tento eliminar as lembranças,
rasurar meus poemas, apagar teu nome.

Ivete Nenflidio
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⁠Baía da Praia dos Prazeres

Te espero em frente ao mar,
somos apenas eu e a Lua,
te espero, estou ao lado da encosta!
Sou aquela de mechas rubras e costas nuas...
Estou a refletir sobre a imensidão do mundo,
estou desarmada,
pele gélida, coração palpitante.
Quero tocar-te, sentir teu hálito fresco,
teu pelo hirsuto de desejo,
te espero com um poema guiado pelo vento,
te espero com os lábios semicerrados,
sou silêncio, nenhum vocábulo.
Te tocarei com os olhos,
te falarei com as mãos.
Examinarei cada parte,
te entregando fragmentos de
todos os meus sentidos.

Ivete Nenflidio
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⁠Pescador

Com corpo trancado, sai para a labuta,
adentra a imensidão,
mares, ares do oeste,
uma extenuante luta.

És sonhador e leva consigo a cor dos meus olhos.
Pelas tuas mãos firmes, travessias de descobertas,
estás prestes a me ver...

És jangada de braços-remos,
em seus gritos ecoam os sons dos oceanos
e na Pedra do Sal, mais um dia se esvai...

Com seu olhar atento, vai lendo o mar e os ventos
e se acalma na frondosidade de profusas copas
e na balsa de antigos ipês repousa em tábuas...

És prometido a me perder e vai vivendo,
negociando com mercadores,
e segue viajando por outros lares,
ouvindo o relato de tantas dores...

Sei que logo voltará,
regressará para se fortalecer
e, no aconchego do meu ser,
na restinga dos meus olhos,
me verás colorida,
cores de bromélias...

E se refrescará no tempero das minhas águas,
onde mergulhará e me encontrará inteira,
e descobrirá no frescor da minha brisa
um voo de gaivota,
um vento fresco paraíso
de doces notas.

E no teu abraço, no qual me perco,
grandes galhos labirínticos
impedirão a erosão do teu ser
e fortalecerás mais uma vez
as suas desgarradas raízes.

Ivete Nenflidio
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⁠Lusco-fusco

Na busca por novos caminhos,
tento decifrar desatualizadas cartas,
primitivos manuscritos com raros caracteres,
não compreendo, são frases implícitas,
confusas visões... bifurcações...
Confesso segredos em breves distrações;
definitivo lusco-fusco,
singela luz do declínio,
doce crepúsculo,
chega sem pressa...
É um fugaz divisor das águas.
Estou inquieta, tento meditar, busco a paz,
não sinto o vento, na febre você partiu,
hoje fotografo seus olhos para te esquecer,
procuro a melhor metáfora poética.

Ivete Nenflidio
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⁠Mar profundo

Na desabitada costa de La Perla,
fitando a amplidão de horizonte intocável,
com passos lentos caminha a poetisa...

Seu pequeno corpo busca o descanso,
seus desajeitados passos marcam a areia fina e macia,
no aveludado caminho, recorda amores que não viveu,
viagens de uma vida não vivida, sucessiva caminhada...

Em seu derradeiro olhar, assiste a cores,
recorda seu breve destino, idealiza cada cena, visões trágicas!

Busca o aconchego das águas,
encontra nas profundezas do mar a esperada paz,
agora adentra o mar com passos cravados e
o coração cheio de incertezas,
busca espumas, sangra os olhos, busca o sal!

Sua cama agora é úmida e fria, no remanso das águas,
entre devaneios e ouvidos selados,
concebe notas de antigas árias, cantigas dos anjos.

Calmamente adormece!

No entorpecido sono, no repouso merecido,
relembra alegres distrações de menina...

Corpo padece, coração que cessa, triste desfecho...

Sua despedida foi como suas palavras,
vestida de encantamento, triste epílogo...

Sentiu a única saudade possível,
sua face marcada por dores e amores
não revelou seus mais profundos segredos,
não encontrou respostas.

A poetisa de olhos negros não soube morrer,
mas a morte a abraçou, as águas a acolheram
e os seres marinhos a ampararam.

A noite chorando
encheu de orvalhos sua vegetação litorânea.

A Lua, assistindo à triste partida,
se escondeu atrás do breve nevoeiro.


Um poema para Alfonsina Storni

Ivete Nenflidio
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Trecho do poema "Virgínia"

⁠Mulheres de Minas
Curam as dores da alma, as dores do corpo
e toda a carência,
são protetoras das matas, das florestas,
das plantas, rezam pela colheita,
e lindos oratórios enfeitam,
com seus vestidos de chita,
altares de santos e violas de fita...

Ivete Nenflidio
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⁠Morte

Se um dia eu ficar sem norte,
se um dia bater à minha porta a morte,
e sem ar, sem poder respirar,
ela me abraçar,
não fique triste,
não há motivos,
emotivo ficarei de ver-te triste...

Ivete Nenflidio
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⁠Quem me dera

Meus poemas?

Ah! São tolos…

Tenho versos ordinários, porcos…

São sintéticos, como flores de plástico.

São como borralhos de cinzas podres,
estão mais para ditados populares,
são como o gosto amargo do tabaco
do cigarro que trago,
São como cais desertos,
distantes de seus barcos,
sim, são assim, são rasos, vagos,
são como nós-cegos.

Não são como as ardentes e conscientes palavras de Pablo,
estão distantes das espantosas metáforas de Eduardo,
não são como as fabulosas passagens lúdicas de Mário
e estão longe dos enigmas mirabolantes de Jacques…

Não revelam as profundezas da alma como os versos de Clarice,
e não se parecem em nada com as palavras do boêmio e faceiro Charles,
não são como os surpreendentes livros de Rosa
e estão anos-luz do realismo de José…

Não são como a solidão lascívia de uma Florbela,
não revelam a vanguarda como Abaporu,
não afrontam como Pagu,
e muito menos estão nos versos doces e adoráveis de Cora.

Quem me dera escrever poemas e dedicá-los a Cuba, assim como fez Neruda,
ou defender o povo latino-americano, como fez Galeano.

Quem me dera fosse tão humana como Quintana.
Quem me dera ter o senso de humor de um expert como Prévert.
Quem me dera fosse um grande escritor, assim como a imensa Lispector.
Quem me dera escrever como Freire, Voltaire ou Baudelaire.
Quem me dera decifrar todas as cores de Guimarães,
ou ter a lucidez e as palavras de afago de Saramago.

Quem me dera encontrar as palavras francas de Espanca.
Quem me dera quebrar tabus como fez Pagu.
Quem me dera retratar indígenas, negros, favelas e vilas como fez Tarsila.
Quem me dera fazer brotar nos meus tachos a doçura de Coralina…

Ah! Quem me dera! Quem me dera!
De que vale a minha arte, se não existe para quem?


Poema vencedor do Prêmio Camilo Pessanha

Ivete Nenflidio
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