Guibson Medeiros
Já sei ler, sei escrever
toda formatura é plena
é brincando de aprender
que desenho outra cena
por um novo amanhecer
cada passo vale a pena.
Terra de povo valente
que enverga mas não tora
onde a mão planta a semente
a colheita não demora
pega cedo no batente
toma um cafezinho quente
e um cuscuz feito na hora.
Que o chão esteja arado
fértil para agricultura
nosso lar adocicado
feito mel de rapadura
que o Natal seja arretado
e o Ano Novo de fartura.
Eu mesmo não me iludo
com ouro nem prataria
eu prefiro ficar mudo
num mundo de gritaria
e se dinheiro fosse tudo
gente rica não morria.
Não pense que o nordestino
desconhece a sua razão
mesmo se for franzino
é mais brabo que Lampião
quem tem medo do destino
não sabe o que é sertão.
Saudade desse lugar
do aconchego do povo
mesmo no sol de rachar
no prato feijão com ovo
mas se o destino deixar
e a chuva me convidar
vou pro nordeste de novo.
Dê bom dia a natureza
e valorize o que tem
por cada prato na mesa
agradeça e diga amém
e seja sempre a fortaleza
do alicerce de alguém.
Tudo aqui é a natureza
de um povo trabalhador
cada pão posto na mesa
é uma obra do Senhor
e muitas vezes a riqueza
vem do nosso interior.
Aqui o sol está brilhando
o nosso mar azul celeste
e o vento vem soprando
de bombordo pra boreste
e é tanta gente visitando
que o Caribe vez em quando
tem inveja do nordeste.
Carro de luxo aqui não tem
roupa de grife também não
não se ver nota de cem
e nem casa de barão
mas o nosso maior bem
é a sinfonia do Vem Vem
no amanhecer do sertão.
A seca traz desilusão
traz descaso e aperreio
se na mesa falta o pão
no prato falta o recheio
mas se chover no sertão
toda nossa população
amanhece de bucho cheio.
Por aqui eu vivo bem
no silêncio da madrugada
tenho cantiga do vem vem
e uma tarde ensolarada
e as vezes quem muito tem
muita vezes não tem nada.
Na seca eu fui embora
trabalhei na construção
a dor de viver fora
maltratava o coração
mas fiz caixa no sudeste
e voltei pro meu nordeste
pra ser feliz no sertão.
Quem mora no interior
não quer saber da cidade
em terra de plantador
não se fala em vaidade
aqui se diz sim senhor
e quem oferta o amor
jamais entrega a metade.
Minha raça é nordestina
meu sustento vem do chão
minha água é cristalina
da fonte do ribeirão
quem vê de longe não imagina
que essa cor de azul piscina
vem do céu do meu sertão.
Pode ter carro de valor
colar de ouro no peito
dinheiro no exterior
que tudo isso eu respeito
mas eu digo pro doutor
que quem vive no interior
é feliz do mesmo jeito.
Se eu fosse o provedor
da chave da alegria
pedia ao nosso Senhor
que me desse autonomia
pra fazer fogueira a punho
e todo mês virar Junho
pra ter São João todo dia.
Tem verde na plantação
motivo do meu festejo
a gota que molha o chão
irriga o nosso desejo
e a chuva no meu sertão
garante na mesa o pão
de todo bom sertanejo.
Andei muito por aí
já rodei esse país
do Oiapoque ao Chuí
já fui da copa a raiz
mas de tudo que já vi
o nordeste onde eu nasci
é que é lugar pra ser feliz.
A seca quando avança
não aduba o pé da serra
quando eu fui era criança
feito um cabrito que berra
e meu coração balança
sem perder a esperança
de voltar pra minha terra.
Ninguém é tão seguro
que não possa ser tocado
não existe um só muro
que não seja atravessado
mas é colhido no futuro
o que se planta no passado.
