Guga Melo

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Olhem para mim.

Tentem ver em mim o que só o espelho me mostra:
falhas, traços, cicatrizes —
marcas que nem lembro quando
foram esculpidas à força.

O tempo deixou sinais.
O sorriso cavou vincos
onde a lágrima abriu caminho.

A boca que tanto falou
hoje silencia.
E o silêncio virou reflexão.

Se me olhares fixamente,
lerás na minha pele
a minha história inteira.

O tempo esculpiu.

Marcio Melo

Duas Viúvas


Eram duas viúvas. Sem marido, sem filhos, sem lei que as defendesse. Sem valor para o mundo da época.


Uma tinha idade. Outra tinha pátria longe.
O que as unia não era o sangue. Era a escolha.


Rute disse: "Aonde fores, irei. Teu povo será meu povo."


Noemi não tinha mais nada para oferecer. Rute não tinha mais nada a ganhar ficando. E mesmo assim ficaram. Juntas.


Não viveram de esmola humilhante. Viveram da lei boa — aquela que manda deixar a espiga caída para a viúva, para o órfão, para o estrangeiro.


Todo dia Rute catava. Todo dia Noemi fazia o pão.
Uma confiava na força da outra. Uma respeitava a dor da outra.


Não foi piedade. Foi amor.
Não foi favor. Foi dignidade.
Não foi medo. Foi confiança.


Duas mulheres que o mundo deu como mortas, ensinando a Israel o que é permanecer.


E por permanecerem juntas, tiveram casa, pão e futuro.


inspirado em Rute a moabita
Marcio Melo