Gleice Priscila
A Arte de Conter Águas
Na superfície, aprendi a ser leve,
balanço embarcações, embalo olhares,
finjo calmaria para quem passa.
Mas abaixo do azul profundo
há movimentos que não se explicam;
correntes internas, em descompasso, se cruzam,
procurando um ritmo que nunca chega.
Lanço âncoras e as sustento por anos,
algumas firmam,
outras pesam.
Nem sempre sei se me mantêm inteiro
ou se me pedem silêncio demais.
Para conter a superfície em equilíbrio,
sustento ondas,
absorvo impactos
e recolho o que quebra.
Há fúria no fundo,
não em tempestades visíveis,
mas em giros contínuos,
em força que aprende a não transbordar.
Ainda assim, sigo vasto,
ensino caminhos,
devolvo ecos
e carrego vidas sobre mim.
E às vezes, diante do horizonte,
nem avanço, nem retorno,
apenas existo,
sentindo tudo o que me atravessa.
Talvez seja isso ser oceano:
sustentar o mundo
enquanto aprende, sozinho,
a não se desfazer em sal.
E se for assim,
quantos de nós
aprendem a respirar
em águas profundas?
A Voz que Clama
Mulheres guerreiras,
munidas de inteligência,
trajadas de coragem,
reivindicam seus direitos.
Vozes que ecoam feito trovão,
vozes que cortam o Atlântico
e desmoronam barreiras.
Mulheres de todas as nações
clamam em um só coro:
a sede pela paz
e a fome pela igualdade.
Mulheres de fibra
entrelaçam suas forças
e, fio a fio,
traçam metas,
mesclam sabedoria
com determinação.
Como colcha de retalhos,
constroem pouco a pouco
histórias de lutas e conquistas.
Batalhas
que deixam marcas profundas.
Porém, o combustível para prosseguir
é a vontade de vencer
todo tipo de preconceito.
E a esperança,
ah! a esperança!
É a força crucial
para libertar as amarras
de todas as desigualdades.
Portanto, a voz que clama
não pode se calar.
Uma Palavra Basta
Antes de tocar os meus lábios,
eu já te percebo no perfume.
Desperta desejos,
afasta as pedras do caminho,
adoça o meu humor
e, sem pedir licença, se impõe.
Desliza quente, intenso,
como um riacho borbulhante, marcante.
Pode vir puro ou acompanhado,
mas sempre chega inteiro.
E, no cochichar da xícara,
aquece a alma
e acende o dia.
Então, entre as mãos
e o primeiro gole,
cabe inteiro em uma palavra:
café.
