Gesiel Modesto

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Sou um pássaro trancafiado desde o nascimento; e vinte anos após, libertaram-me por cuidado de outrem. Eis que pergunto, com desespero e fervor: como pode um pássaro que só conheceu uma realidade, onde suas asas foram inutilizadas, voar para o além — sem ou com direção —, e sentir a serenidade do pôr do sol no sublime horizonte infinito?
Como poderia atravessar o mar, se nunca lhe deram a resistência necessária para deixar o chão?

Tudo o que percebo é apenas um feixe entre a luz e a sombra que pare a terrível ilusão que chamamos de vida. Mas de tudo o que não é verdade, alcançamos algum significado quando descascamos a casca que nós mesmos construímos, para colher um fruto maduro que nasceu da plena inexistência da realidade.

Efêmera linha da vida; vermelho segmento da criação. Eis, apresento-me com reverência para o criador: pinceladas que gritam histórias não ditas, mas encardem a mão do artista.


Não há plenitude sem bagunça.


Calor confortante de almas intersectantes: baú de lembranças ou livro de esperanças.


Não há conexão sem morte.


Sobriedade de um insano igualado à deturpação da lógica de um abnegado.


Não há vida sem balança comedida.