EmíliaBôto
Constatar que voltar para casa, não é voltar, não é porque a mente mentiu, não foi imaginação ou ilusão. É porque voltar quando a mãe já não está mais lá, faz toda a diferença. A casa não existe mais. A ausência física dela dói, mas essa saudade é o reflexo do tamanho do amor que existia. O amor dela era o que nos unia e mantinha o meu porto seguro. E sem ela sou apenas um barco no oceano levada pelos ventos.
Há descasos que são justificados pela reação que a pessoa teve que tomar para garantir sua sobrevivência mental.
Eu acho incrível as pessoas que moram em uma casa com sua família a vida inteira. Criam memórias, lembranças, laços que atravessam anos e décadas. Não tive essa experiência. Vivíamos mudando de casa e de endereço. Éramos como nômades, ciganos. Mesmo constituindo minha própria família, acabei reproduzindo esse padrão. Não tenho essas memórias de forma física. Não tenho uma casa do passado para mostrar que estivemos lá. Também não pude preservar o quarto do meu filho.
Quando nasci, minha mãe disse que pensou que eu fosse um menino. Meu pai reclamava de ter fêmeas em casa. Passei a vida tentando provar que eu não fui um erro.
Ainda quero honrar a nobreza dos meus pais. No entanto, uma sucessão de escolhas erradas me levou a uma situação em que sinto que falhei com o meu próprio caráter. Não que eu seja uma pessoa má, mas os caminhos que tomei me conduziram a um lugar onde me envergonho de não ter sido firme — como meus pais foram — diante de adversidades severas..
Em silêncio, sem que ninguém saiba, eu choro a morte do meu filho todos os dias. Hoje me perguntaram por que eu chorava, se alguém havia morrido. Quando disse que era pelo meu filho, ouvi como resposta: "Mas já se passaram sete anos?". Preferi não explicar, apenas calei. As pessoas realmente não entendem que o tempo não apaga a ausência de um filho.
O golpe mais cruel e baixo que a vida me deu foi perder o meu filho. Se alguém tinha que partir, eu sentia que deveria ser eu, e não consigo me conformar com essa inversão. Essa dor consegue doer mais do que a ideia da minha própria morte — e olha que eu sou absolutamente apaixonada pela vida.
Se alguém quiser falar sobre dor, sou toda ouvidos. Conheço quase todas as dores do mundo; até as que não passei, sinto como se fossem minhas. Do psicológico ao espiritual, fui acometida de tudo.
Eu não acreditava que a vida era tão dura, mesmo ela sendo dura lá atrás. Achei que o mundo era colorido, os problemas possíveis de resolver e que dava para crescer sem grandes danos. Mas a realidade me cobrou caro. Sigo enfrentando batalhas sem trégua desde que nasci. Isso não alterou a minha fé, ainda que a abalasse. Minha esperança é de que, em breve, poderei romper todos os grilhões e cadeias que hoje me prendem e por fim, possa viver o melhor dessa vida ainda com plena saúde e autonomia.
