EdsonRicardoPaiva
Sorrateiro
Os olhos se viam felizes
Refletidos pelo espelho
Mas o tempo, sorrateiro
Envelheceu seu rosto
Ao longo de um dia inteiro
Como gotas de chuva
As noites que desabam
Sobre nossas casas,
Nossas coisas, nossas vidas
As horas correm felizes,
suaves por uma fenda
O sinal de saída, o apito do trem na curva
Hora de dormir e descansar
O brotar das uvas em novembro
Felizes idas e vindas
Pode ser que a vida seja
Não um fim em si mesma
Mas um laço indefinido, que liga
Entre futuro e passado
Uma pergunta retórica
Mesmo assim, ser respondida
Depois deixada de lado
Pra no fim, passar despercebida
Por ser o assunto indissolúvel
Questão que, de mal resolvida
A gente vai se apegando
Às alegrias passageiras
Que o tempo vai trazendo, sorrateiramente
Nada nessa mão, nada na outra também
Sorria! Você viveu mais um dia!
Edson Ricardo Paiva
O Paraíso
Tristemente esse lugar existe
E se esconde distante
"Distante" abrange muito mais
Que simplesmente estar longe
Guarda em si a cada laço
Cada passo e cada compromisso
Cada direção oposta
A cada estrada que seguimos
Catando estrelas com rede
Quais fossem
Imaginárias borboletas
Quando se deseja
Arrancar asas aos sonhos
Troféus, carrosséis de ilusão
Coisas que voam
...e que brilham
Clarear do dia
Não há paraísos,
Paz, nem melodia
Borboletas, beija-flores e estrelas
Há palavras escritas
Que resultam num lugar vazio
e pensamentos
que te afastam
muito, muito mais que você pensa
Mas você os pensa muito intensamente
Triste!
O Paraíso está para sempre lá
No voar da abelha
No cair da folha
No voo do pensamento
Universo
Simplicidade
Desenhada em versos
Sem tinta
Sem papel ou comprometimento
Nenhum compromisso cumprido
Firmado com Deus
Com a mente
Com a morte
Só sangue a fluir dos cortes
de sorte
Que felicidade
Se encontra a menos de um passo
Num lugar distante
Que existe lá dentro da gente
Entre a mente e o coração
Escondido
Atrás do mal
Que há nos olhos
Paraíso, Felicidade
O lugar mais distante
Que Deus encontrou para guardar
Por isso
Difícil de achar.
Edson Ricardo Paiva
"vida x azar: a gente precisa acertar o tempo todo, o azar só precisa acertar uma vez."
Edson Ricardo Paiva
"Voando de cara para o vento a vida inteira não se ocupa em pensar se a vida ela é boa ou não é a vida é só vou voar é momento que se vive à toa"
Edson Ricardo Paiva
Se Eu Soubesse Que a Vida
Se eu soubesse que a vida
Era um barco à deriva
Mas que nem sempre ela o era
Não ficava lá, parado na esquina que não se dobra
Nem perdia meu tempo a olhar horizonte
Não se deixe iludir pelo tempo, ele não é nosso amigo
Teria dormido menos, teria sonhado mais
Se soubesse que há fases na vida
Cujos sonhos quase sempre são verdade
E há verdades que são só palavras que vão no vento
Elas teriam sido o que são:
Só verdades de momento
Momentos importantes, de mudarem vidas.
Saía da esfera da dúvida
Fecharia as portas do meu coração
Para assim eu nunca sentir saudade
Pois saudade é uma semente
Que precisa antes madurar
Pra depois ser percebida
Eu não sei se é uma falha da vida
Que a espalha aos montes pelos caminhos
A teria sentido menos
E teria sido apenas
Se valesse a pena de ser sentida
Teria direcionado as velas do barco
E mirava um ponto no horizonte
Lhe teria dado outro rumo
Ah, se eu soubesse
Que de vez em quando há sonhos mais reais que a vida
E que há sonhos, de tão parecidos o são
Eles dão sentido às vidas, tão sincronizadas
Que nem as batidas das penas
Nas asas coloridas de um pequeno beija-flor
Me fartava todo dia, de tanta alegria
Se eu soubesse que todo tempo do mundo
Não era tanto tempo assim
Enfim, creio que nem tempo havia.
Edson Ricardo Paiva
Hoje a Lua brilha
Sobre o meu quintal.
A luz do Sol que trilha,
Mas não deixa rastro
Sobre a escuridão.
Eu penso nas noites passadas,
Penso sobre densos nevoeiros,
Flechas atravessadas
Quando os olhos pouco viam.
Do pouco que viram,
Traduziram pouco… ou quase nada.
Um cinzeiro sobre a mesa,
A luz da Light na calçada,
Tantas diferenças,
Tênues relevâncias.
A noite flutuante
Paira sobre a noite enluarada.
Madrugada avança sobre horas de sonhos,
Meu sono acanhado,
Meus olhares, cada vez mais poucos,
Traduzindo a cada noite
Muito mais do que enxergam —
Pouco ou quase nada.
O silêncio da noite
Chega a ser maior, mais denso
E mais abrangente que a própria noite.
Até que sobre pouco:
Muita luz, muita neblina, silêncio demais.
Paz por sobre a rua,
Luz do poste, que,
Goste ou não goste, não passa da esquina.
Meus olhares cansados também não.
Edson Ricardo Paiva
Tem uma lua diferente
Que só nasce na minha rua
Ela pode parecer igual
Pra toda gente
Não pra mim, que a vejo de lá
E quando eu saio da minha rua
Levo junto meus olhares
E prossigo vendo as coisas do meu jeito
Pois desse jeito, eu sei, não sofro tanto
Não ponho leveza onde não há
Não aumento a tristeza onde há
Tem um azul claro vibrante
Tem um céu assim, pra mim
Quando eu o olho de lá
E quando eu me molho na chuva de lá
Não me sinto menos rico
Por não ter um guarda-chuva igual
Não desejo nunca mais ultrapassar as portas
De cujas maçanetas
Eu jamais devia ter me aproximado
Às vezes, fico até de madrugada
Olhando estrelas da calçada
A lua brilha na areia do chão
Como na areia da praia
Mas é preciso olhar pro chão
Como quem olha pro céu, para vê-las
E não desejar que caiam estrelas
Todas elas vão cair um dia
Nesse dia, eu vou morar na estrela
Para ver minha rua distante
Como distantes serão meus olhares
E vai tudo estar do mesmo jeito
Ou, talvez, até melhores
Não sei
O melhor lugar do mundo
Fica atrás dos meus olhares
Sob a chuva sem guarda-chuva
Na qual, fatalmente, eu apenas me molho
Eu apenas vivo assim
As emoções pequenas
Nas asas da ilusão, eu viajo pra bem longe
Mas, quando eu saio da minha rua
Levo junto meus olhares
Minha paz, meu coração
E o melhor lugar deste mundo
Será sempre onde eu estiver
Pois estou contente em minha companhia.
Eds
Ah, coração
Quisera fosses apenas
Um pedaço assim
De pedra, giz ou carvão
Este, que bate em mim
Nada sente
O da alma é diferente
Esse me diz, todo dia
Meu poeta, eu não queria
Viver outra coisa além
Dessa singela poesia que fazemos
Nela, a vida pode não ser bela
Seguramente não é
Mas a gente bota o pé
Quase que seguro de onde pisa
E não precisa mais ninguém
Além de tu e de mim
Pois o mundo não é assim
Que nem a gente
Felizes, interagindo
Buscando um desfecho
Que não se arvore a ser perfeito
Também não precisa ser lindo
Desde que tenha alguma graça
E que faça algum sentido
Pra tu e pra mim
Pois o mundo não pensa assim
O avião que passa lá no céu, só voa
O trovão da tempestade é barulhento
A chuva molha e a vida é boa
Contigo aqui comigo, coração
A chuva é maravilhosa
O trovão da tempestade, ecoa
A vida, flutuante, pega carona
Numa corrente de vento
O avião que voa, sobrevoa um mar de rosas
Mas não vimos nada disso
Porque estivemos desatentos
Tentando enxergar poesia
Onde a luz do dia iluminava
Uma parede de concreto
Uma cidade reta
A flora de ervas daninhas que aflora
Pra glória de quem deseja
Que tu e eu também vejamos
O quanto este mundo seria bom
Se todos os corações apenas
Se comportassem
Como pequenos pedaços
De pedra, giz ou carvão.
Edson Ricardo Paiva
A vida trouxe dias
Que pensei que fossem primaveras
Mostrou cores que enxerguei azuis
Me ensinou palavras doces
Conduziu-me só pelas estradas, crendo estar acompanhado
Fez sentir calor
Quando era frio
E não havia nada pra se ver nesse denso nevoeiro
A voz gasta do silêncio ensina mais
O aroma, a brisa de verão
Não precisa dizer nada
Era eu que gostava da vida
Dessas coisas que alegravam o caminho
Nem sempre era estrada
A vida não trouxe nada
Era a gente que acreditava
E foi feliz assim
Compreendi
Que a vida é uma cantiga
Que não liga pra onde o vento leva
Olhe bem, tem dias que nada adianta
E tudo acaba em uma terça-feira
Quase sempre o sol nascente escuro
Alguma coisa faltando
Aquilo que era, não era
Parecia doce, primavera
Confundia
Pensei que fosse azul
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Edson Ricardo Paiva
