Demétrio Pereira Sena
Entre a dor e o afeto
Demétrio Sena - Magé
A Cláudia e sua filha Thati, acompanhante; poucos dias depois, no mesmo leito, a Dona Nicea, de 84 anos, e sua sua filha Fernanda, também acompanhante. Em outra baia, dona Valéria, que chegou sozinha, passando muito mal, mas no dia seguinte circulava por toda a enfermaria e se tornou amiga de todos ou quase todos os pacientes.
Todas essas pessoas, pacientes e acompanhantes, marcaram positivamente os dias duros e difíceis de minha esposa, internada à espera de um cateterismo. No "mesmo barco", foram apoio, exemplos, emprestaram seus ombros e ajudaram nos picos de ansiedade. Depois dos profissionais de saúde, o que essas mulheres - até a dona Nicea, com sua serenidade octogenária - representaram para a Eliana foi determinante no seu processo de espera e melhora.
Para Minha filha Nathalia, que revezava comigo os dias e as noites de acompanhantes, e também para mim, tudo resultou novos laços de afeto. Fizemos boas e relevantes amizades. Laços que representam o que há de melhor no ser humano, porque surgiram de momentos profundos. Da solidariedade, da empatia e do sofrimento em comum.
Igual poema do Bandeira
Demétrio Sena - Magé
Depois de um enfarto quase fulminante, a senhorinha deu entrada em estado grave, na sala vermelha. Em dois dias, lúcida e falante, já estava na sala amarela, onde aguardava um cateterismo.
Feliz da vida, e obviamente sem o consentimento do pessoal da enfermagem, teve acesso secreto a salgadinhos e doces, na enfermaria. Fez um piquenique altamente calórico, às escondidas, com a pessoa irresponsável que foi visitá-la.
Na madrugada seguinte, voltou à sala vermelha, em estado crítico, aos gritos e com extrema dificuldade para respirar. Era um novo enfarto. Não tivemos mais notícias suas, até o dia em que deixamos aquela unidade de saúde, para o cateterismo que ela faria antes de minha esposa.
Esse episódio me lembrou o poeminha Notícia de jornal, do Manuel Bandeira. Espero que depois de toda a farra ela não tenha, metaforicamente, mergulhado na Lagoa Rodrigo de Freitas.
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Sem eco
Demétrio Sena - Magé
Nunca tive nem penso em vir a ter
algo além do silêncio abarrotado
do que há pra dizer e não consigo,
mas diria sem fim em poucas frases...
Eu jamais gritaria em tom de nós,
um só verbo de alguma explicitude,
algo além desta voz do corpo mudo
sem qualquer atitude mais voraz...
Sempre tive não sei o que dizer,
que me faz intuir que sou completo
em um simples prazer não terminal...
Gosto mais de você do que faria
o que fosse rasgar sumariamente
minha vã fantasia sem resposta...
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Rio solitário
Demétrio Sena - Magé
Por favor fale algo; mesmo sem falar;
a qualquer brisa mansa que chegue aos ouvidos;
num lugar onde os olhos costumam verter
com silêncios passíveis de conjugação...
Só me cansa intuir; nem consigo fazê-lo,
sobre o quanto sou visto com normalidade,
como sou entendido na minha expressão
de complexidade ou de muita estranheza...
E me deixe saber; já não sei de quais formas,
com palavras ou não, mas de modo expressivo,
que na quebra das normas não levo a temer...
Saiba quanto carinho; quanto bem lhe quero;
como tudo é sincero e sem preço a cobrar;
sou apenas um rio que jamais deságua...
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Nem no muro nem camuflado: esquerdista
Demétrio Sena - Magé
Sou cidadão esquerdista. Como ser social, ativista e pensante que sou - principalmente pensante -, não tenho como não ter lado. Seria conveniente, mas covarde. Auto protetor, porém socialmente preguiçoso; cagão. Uma tentativa nojenta de fazer média com ambos os lados, para não sofrer perseguições presentes nem futuras, com a eleição de seja lá quem for.
Cidadão esquerdista se posiciona. Declarar-se "nem esquerda nem direita" é atitude rasteira típica de bolsonarista incubado. Pior do que os bolsonaristas confessos que já perderam toda vergonha de quem são. Cada um desses lamentáveis "nem esquerda nem direita" é um voto invariavelmente a mais, ainda que não vote, para candidatos da extrema-direita. Esses, após eleitos, ao fazerem covardias contra o povo, realmente não ligarão se o pobre prejudicado é da esquerda ou direita.
Não confio em quem não é nada (nem esquerda nem direita não é nada), tanto quanto não confio em quem declara que não há consciência negra, e sim, consciência humana. Só mesmo quem não tem consciência social põe panos quentes no racismo, com essa história de consciência humana, etnia, raça humana... tudo enquanto as minorias amargam todos os preconceitos. Sofrem todas as exclusões e destinações possíveis ao gueto, nos mais variados contextos e nominatas de sociedade.
Esquerdista, sim. E se a extrema direita vier a triunfar nas eleições, enfrentarei com orgulho as consequências de minha exposição identitária. Da certeza sincera de quem sou. Tenho certeza de que minhas filhas, alunos e alunas, para quem mais quero ser exemplo, esperam isso de mim. Mesmo quem não concorda, e vive, pensa e vota diferente, mas me tem em alta conta, espera isso de mim.
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Sobre as aspas da ruína
Demétrio Sena - Magé
Algumas "coragens" e "adrenalinas" cabem perfeitamente nas aspas, porque são estúpidas, de tão imprudentes. São casos de uma estupidez bem própria da juventude, mas cada dia mais pessoas maduras também caem nessas armadilhas.
Muitos indivíduos estão presos ou morreram antes da hora, porque foram muito "espertos"; "descolados"; "ousados" e sem limite. Aspas e aspas, porque só foram mesmo sem limite. Embarcaram em barcos à deriva por influências externas, achando que foi por índole ou personalidade própria. Entraram, depois não puderam sair, pois com o tempo, ninguém sai de algumas situações.
Uma vida sem projeto, na qual tudo é feito por impulso e à base do tanto faz, não costuma ser longa. Ou é, mas de alguma forma que a pessoa não morre, como também não vive. A inteligência de quem pauta sua vida pelo cuidado, a observação e critério, pode salvar sua integridade ou a própria vida. Só existe uma grande chance de futuro para quem aceita que nem tudo é "pra ontem".
A verdade não é outra: onde existe um excesso de "coragem", de "adrenalina", "esperteza", "descolamento" e "ousadia" - vide aspas -, falta inteligência. Quem não conhece o começar de novo, em novo ritmo, nada sabe da própria vida.
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Cidadão nada e ninguém
Demétrio Sena - Magé
Não é a favor nem contra seu velho pai, que sempre bateu em sua mãe, nem contra ou a favor de sua mãe, que apanha do seu pai. "Isso é da vida"; logo, ele é neutro. Jamais condenou a justiça, quando é injusta com os menos favorecidos, iguais a ele, mas também jamais condenou os menos favorecidos iguais a ele, por serem injustiçados; mesmo porque, até hoje não foi ele o injustiçado.
Da mesma forma não julga o patrão por explorar o trabalhador, como também não julga o trabalhador por ser explorado pelo patrão. Entende quem desmata e quem luta contra o desmatamento; elogia o policial honesto e o miliciano. Agrada os políticos de todos os lados, e nas eleições, vota em qualquer um, porque "todos são iguais". "Dança conforme a música" e não quer ficar mal com os bons nem com os maus.
Um malandro bobo que sempre se atrapalha e ajuda na vida boa dos piores malandros do poder. Para ele tudo bem que os poderosos trabalhem pela sua classe ou pelos eternos exploradores, porque "dá no mesmo", em sua opinião. Aliás, ele nem tem opinião formada; opina conforme a opinião mais "malandreada" ou escorregadia do momento, com quem converse.
"Não é esquerda nem direita". Nem frio nem quente. Bom nem mau. É de classe medíocre metida a média, que se julga rica. Beija uma mão aqui e come na outra acolá. É aquele típico cidadão chuchu, que absorve qualquer gosto, cheiro ou textura. Nas campanhas eleitorais, nunca declara de que lado está, porque um dos dois ganha, e... "como ele fica nessa?".
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Minha tábua segura
Demétrio Sena - Magé
Sinto que você me conhece, vasta e profundamente, no desconhecido em mim. Sabe ler o silêncio do meu inusitado e decifrar cada segredo que não conto; as mais inconfessáveis confissões que não faço. Entende muito bem o ininteligível das escritas de minh'alma; das escrituras profanas - e submersas - deste meu testamento afetivo.
Decifro que seu olhar me decifra como nem eu faço. Que sabe do que não sou capaz, a partir do que sou. Confia no que não entende, na certeza do incerto que abona minha índole. Aposta no meu eu sobre você, com a segurança de quem se atira completamente no abismo e deixa estar. Vê bem claro no meu sombrio e não teme o temerário do que não vê, pois intui a lisura com que sou quem sou.
E você me comove com o que não diz, mas me assegura do quanto eu ouço nesse não falar. Tem um eco sincero, inquestionável para os meus gritos de socorro engolidos pelo não pedir que me faz tão pedinte. É a minha tábua segura, na insegurança do mar que não sei domar aqui dentro.
Vejo você tão próxima, mas à distância. Tão íntima e sem intimidade. Sinto-me compensado por tudo que, no fim das contas, nada. Mas que me completa e satisfaz, numa completude incompleta; numa satisfação insatisfatória. História escrita sem caneta, mão e papel. Só pela intuição afetiva. No sonho acordado em que sou grato por sua existência.
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Glórias ao Rock In Rio
Demétrio Sena - Magé
Eu também estaria lá no Rock in Rio, se pudesse. Pelo menos hoje, quando me emociono, via tevê, com Vanessa da Matta, Roupa Nova, Guilherme Arantes, Luiza Sonza junto ao Roberto Menescal, e ainda o Gilberto Gil. Mais tarde verei o Elton John. Ontem, o Jota Quest me levou às lágrimas, quando convidou o Tony Tornado para dar um show de alegria, energia e talento, aos 96 anos. Alguém quer falar de bênçãos?
Todo mundo cantando o amor; celebrando amizades; de corações abertos gritando a paz. Isso para mim é culto; é a verdadeira religação com todos os possíveis sagrados que nenhum livro manipulado explica. E quando alguém decide protestar, é justamente contra maldades, guerras, injustiças, desigualdades sociais, preconceitos religiosos e domínios; escravidões ideológicas.
Não troco estes momentos por nenhuma sessão de homilias, orações e louvores denominacionais dentro de uma igreja. Porque lá nas igrejas, bem sabemos quais, estão promovendo corporativismo contra os menos favorecidos, dominação ideológica, religiosa, de proteção da bolha e ódio; perseguição contra o mundo restante. Pior de tudo, oferecendo palco a políticos extremistas e corruptos.
Rendo glórias ao Rock In Rio, na língua dos anjos! Aos que dão shows no palco e na plateia! Grito em silêncio, aqui dentro de mim, "ribalábalá" em homenagem aos momentos de arte, união, alegria, entretenimento e paz, nessa festa que me anima e renova minhas esperanças! Tudo por saber que nem todos estão nos templos onde os inimigos do povo se fortalecem para conspirar contra o nosso país.
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Voltas
Demétrio Sena - Magé
Sou testemunha não só das voltas, mas também das revoltas que o mundo dá.
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Dentro de mim
Demétrio Sena - Magé
Mora dentro de mim, eu sei que mora
uma fauna impossível de conter,
sou a flora sombria dessa fauna
que não sei responder de qual espécie...
Correm dentro de mim, demônios tantos,
e tão tontos que sempre se atropelam,
não há santos na sombra de quem sou
entre vastas folhagens; galhos fartos...
Caem dentro das minhas armadilhas,
mas conhecem meus truques e se livram,
as matilhas de todo e qualquer bicho...
Ando fora de mim, porque não tenho
uma vaga na minha escuridão;
nem perdão por fugir do próprio ser...
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Respeite autorias. É lei
Tudo nada
Demétrio Sena - Magé
Sintonias não vingam como flor do campo;
quero crer no que sinto sob o meu silêncio,
quando acampo em teus olhos ocultos nos meus,
pra não sermos flagrados pelos próprios rostos...
Mas não tendo a temer, pois não temos intentos,
eu me deixo notar sobre o pólen do encanto
espalhado nos ventos ao nosso redor
e depois concentrado em um canto profundo...
Gosto mais de você do que me deixo estar,
sem pensar no que sinto nem temer sequelas,
como sei que não posso romper em mim mesmo...
É apenas um tudo que a nada conduz,
não há cruz contra espada pra tornar dilema
nem é sonho que possa escapar de si mesmo...
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Sobre o 13
Demétrio Sena - Magé
O meu voto é por mim e pelos meus,
pelo povo que às vezes nem percebe,
mas que bebe fiado a própria dor,
pra tentar esquecer que a dor existe...
Vou às urnas por mim, por minha gente
que trabalha igual bicho para monstros
cujas mentes estão em seus umbigos
e nem sei se têm alma e coração...
Voto contra barbáries, ditadura,
contra quem oferece os meus direitos
à loucura de um Hitler reciclado...
Pra manter este sonho de país,
ser feliz e trocar esse congresso
inimigo voraz do bem comum...
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Tempo
Demétrio Sena - Magé
Não me orgulho do tempo que não tenho
pra parar em um papo com alguém,
perguntar como vai quem já não vejo;
querer bem e dizer; olhos nos olhos...
Sendo assim me desarmo do sem tempo,
cavo brechas, consigo achar um ócio,
mando meu contratempo ir passear,
e me lembro de afetos esquecidos...
Eu me orgulho de nunca ter orgulho
de perder os prazeres pro trabalho,
não jogar um baralho com amigos...
Quero tempo de afagos em família,
empregar menos vida em meu emprego;
ter apego às tarefas; aos lazeres...
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Gatilhos
Demétrio Sena - Magé
Sempre me vanglorio de não ser uma pessoa depressiva. De não ter crises de ansiedade ou algo semelhante. Mas me esqueço de alguns gatilhos que me desesperam, embora eu saiba me resolver, logo depois do impacto.
Tenho medo, por exemplo, de ser abandonado, em passeios com mais pessoas, a lugares muito cheios. Fico todo o tempo vigiando o guia ou motorista. Se não o vejo por um momento, meu coração dispara. Não vejo mais ninguém. Tudo gira. É uma lembrança de quando eu era bem pequeno e minha mãe se perdeu de mim em uma feira de Brasília. Ou eu dela. Só fui encontrado no fim do dia, chorando em desespero e já me dando por completamente perdido.
Quer me deixar suando frio e com o peito apertado, a respiração difícil? Deixe-me sozinho em qualquer ambiente, com algo de valor que não seja meu. Em minha infância e na adolescência, em razão da minha cara de culpa, meu cabelo desgrenhado de culpa e minhas roupas andrajas ou molambos de quem tem culpa, muitas vezes fui suspeito de roubo.
Minha sorte foi que os sumiços (nunca foram roubos) foram sempre desvendados, porque se dependesse do meu aspecto, eu teria sido recluso em um colégio interno, como eram chamadas as instituições para menores infratores. Até hoje, ao ficar sozinho entre objetos de algum valor, tenho medo de que algum deles crie pernas ou asas, e suma, me deixando em sérios apuros. É um sofrimento que só eu sei dimensionar.
Por "não ter Deus no coração", sendo reconhecidamente ateu, muitos acham, inclusive familiares, religiosos ou não, mas que publicam versículos em redes sociais, que sou capaz de coisas horrendas: até de minha presença, pura e simplesmente, agravar a doença de uma pessoa querida que não está bem. Isso também é um gatilho; morro de medo de me aproximar de alguém prestes a morrer, e depois sentir nos olhares, que a minha presença foi a causa.
Quando me vanglorio de não ser depressivo, é porque logo me resolvo: desarmo meus gatilhos, consciente das lembranças marcantes e, em muitos casos, do preconceito e da ignorância que me cercam desde a mais tenra idade.
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"Ressalmo"
Demétrio Sena - Magé
Bem aventurado, mesmo, é o varão que não anda segundo os conselhos do pastor vendido para políticos. Não se detém no templo dos corruptos e corruptores... nem se assenta na roda dos negociadores de votos dos fiéis. Antes tem o seu prazer de cidadão esquerdista que acredita na liberdade, no amor, e medita de dia e de noite sobre o bem comum... no melhor para todos... na beleza da diversidade humana que abraça todos os povos; etnias; religiões; ideologias livres e sinceras, conforme o entendimento e a escolha de cada um.
Esses realmente serão como árvores que dão frutos saudáveis. Que oferecem sombra capaz de refrigerar as mentes; almas; corações. Sombra que acolhe sem preconceito, as etnias infindas, as religiões incontáveis, a não religião, todas as classes sociais, orientações e gêneros. Nem tudo quanto fizerem prosperará, porque os maus estão por aí; os extremistas nunca cessarão as armadilhas... e os falsos líderes religiosos, que sempre oferecem seus rebanhos em sacrifício aos maus políticos, nunca desistirão de estabelecerem seus paraísos particulares na terra.
São assim os ímpios "igrejados". De um lado os que dominam; do outro os que são dominados, por preguiça de sentir, pensar e caminhar por conta própria. Espero que os lobos em pele de cordeiro sucumbam nas urnas e o rebanho desperte a sua cidadania. Quando a própria igreja, em parceria com o poder terreno, torna-se a roda dos escarnecedores, o alerta é que passou da hora de os verdadeiros cristãos não se assentarem mais nessa roda. Ou em última instância, o que acho impossível, remodelar ou recontextualizar a roda.
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Náufrago
Demétrio Sena - Magé
Sempre foi um carinho sem desejo;
um despojo de afeto sem espera,
sem ensejo pra ser agraciado
em alguma janela do futuro...
Nunca foi um tricô no pensamento,
não tracei um projeto na minh'alma
nem forjei o momento que haveria;
e sequer percebi se houve ou não...
Mas entendo a distância preventiva;
o silêncio cravado com frieza;
a dureza nos olhos abismais...
Sou apenas um náufrago invisível
ou a sombra tangível sem matriz,
que se dá por feliz quando não é...
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Reservista
Demétrio Sena - Magé
Só me resta saber que sou à margem;
quando muito, guardado pra demandas
de miragem possível num deserto,
pra passagem difícil de cumprir...
Invisível; perdido em meus atalhos;
à espera, talvez, de um assobio;
meus retalhos dispersos e dispostos
a quem tenha remendos por fazer...
Já entendo; não sou essencial,
se não for crucial que me apresente
como quem é chamado nas missões...
Entendi meu papel; sou extra-lista,
para breves desvãos de contingente;
reservista pra ser soldado raso...
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Dente ciso
Demétrio Sena - Magé
Quero só me vencer; a mais ninguém;
mas não sei nem por onde começar;
ter alguém pra poder me dividir
pode ser o lugar da própria cura...
Só não posso eleger por minha conta;
intuir; atirar-me feito anzol;
ser aquela missão já pronta e posta
como sol que o deserto não pediu...
Ninguém vai acolher, tomar pra si,
qualquer drama tardio; sem aviso;
dente ciso na boca já completa...
Todos têm uma luta, o próprio luto,
outro duto engarrafa o labirinto;
como hei de vencer pedindo colo?
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Roda-viva mortal
Demétrio Sena - Magé
Mais do que nunca (ou então do que sempre), a sociedade como um todo sofre, sendo vítima de quem um dia foi sua vítima inicial: por desamparo, preconceito, arrogância e negligência. Mas a sociedade jamais aprende: continua fazendo vítimas que sempre voltarão para fazer da mesma, essa vítima de quem ela faz vítima e logo depois se torna. Isso é uma interminável roda-viva mortal.
É algo notório e sociológico: existem tanto a vítima estrutural (inicialmente o lado mais frágil) quanto a vítima retroativa ou por estorno (vítima da primeira vítima), numa disputa insana que as torna vítimas rotativas uma da outra. Trocar o conceito ou contexto de vitimado por vitimizado não cabe a nenhuma das margens. Muito menos à margem que, desde sempre, já é mesmo marginalizada.
No fim de tudo, a sociedade é sua própria vítima, porque sempre viveu dos guetos que ela produz. Os guetos criam sub-sociedades à margem dos olhos majoritários e se organizam. De vítimas, tornam-se algozes, fazem vítimas onde se tornaram e jamais conseguiram se libertar: são vítimas terminais das próprias vítimas que são, enquanto seguem tentando ser algozes de seus algozes iniciais.
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Lula
Demétrio Sena - Magé
Quem destila maldade como a própria trilha
de louvores perversos onde o bem é mudo,
tem a treva nos olhos; ela faz que brilha,
pra forjar um sentido que mascara tudo...
Se ninguém está limpo, tem o mais imundo;
eis o lado que rosna: "deus, pátria e familia";
traz o velho discurso de salvar o mundo,
mas impõe sua fé, para formar quadrilha...
Nesses dias difíceis de bichos na rua,
comedores de mentes comerão a sua,
caso não desempaque; teimosa igual mula...
Você quer que desenhe, que fale por foto,
pra poder explicar que na hora do voto
é preciso entender que só temos o Lula?
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Terrivelmente terríveis
Demétrio Sena - Magé
Já faz tempo que está em moda (terrível moda), o termo terrivelmente evangélico. E nisso, os evangélicos que assim se declaram realmente não se degeneram em relação ao termo. Eles de fato são terríveis. Têm demonstrado que são capazes de qualquer atrocidade, sob a terrível desculpa de que são autorizados pelo suposto Deus; ungidos por Ele, façam eles o que fizerem de bom ou mau.
Excluem, julgam e condenam com critérios duvidosos; fecham todas as portas para quem não os obedece; atacam outras religiões, inclusive com violência física e depredação. Também transformam seus templos - lugares de culto e adoração ao seu "sagrado" - em palanques políticos eleiorais, sempre com candidatos que lhes prometem poder terreno; força para destruir todas comunidades, crenças, não crenças e grupos ideológicos opostos.
Muitos ainda maltratam esposas e filhos (pela força ou pela dominação verbal) em nome de velhos critérios bíblicos distorcidos. Mentem para proteger seus pupilos políticos, e quando esses políticos cometem atos condenáveis, costumam dizer que "pelo menos são cristãos"; como se o cristianismo lavasse caráter como se lava dinheiro; especialmente o dinheiro público.
A lista não acaba: em favelas, existe até a proteção de traficantes às igrejas evangélicas. É o caso do Peixão, no chamado Complexo de Israel, no Rio. Ele protege as denominações evangélicas impedindo que outras religiões professem sua fé e se instalem. Peixão lê a Bíblia e mata; louva e mata; ora e mata "como o Rei Davi" e se proclama um homem de Deus, ao mais terrível estilo Velho Testamento.
Terrivelmente evangélico é mesmo ao pé da letra. Se existe exceção? A exceção é o não Terrivelmente evangélico. Grupo muito pequeno, que não se levanta contra as práticas terríveis dos "Terrivelmente". Só não fazem as mesmas coisas; calam; deixam "nas mãos de Deus" a missão que "Deus" deixou em suas mãos. Devolvem as responsabilidades. E isso não deixa de ser terrível. Terrivelmente terrível.
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