Deborah Surian
Não moro no talvez
Pode ser que um dia a vida nos coloque frente a frente. Pode ser que a conversa aconteça, que o acaso nos devolva um ao outro por alguns minutos.
Pode ser.
Mas eu não moro mais nesse talvez.
Não vou construir meus dias na casa de uma possibilidade, nem deixar a porta aberta esperando passos que talvez nunca venham.
Não preciso dizer que nunca mais.
Não preciso matar o futuro para conseguir sobreviver ao presente.
Basta não esperá-lo.
Se acontecer, eu encontro o que acontecerá com a mulher que serei então.
Mas hoje, eu fico aqui.
Sem negar a possibilidade, sem alimentá-la.
Porque há uma diferença imensa entre saber que uma porta existe e passar a vida sentada diante dela.
Eu já esperei demais.
Agora, se algum dia você voltar, que me encontre vivendo.
Não esperando.
Deborah Surian
A foto sou eu mesma
Deborah Surian
Eu não queria escrever sobre ir embora.
Nunca foi isso.
Eu queria escrever sobre quem fica.
Sobre a mão que não solta.
Sobre o homem que escolhe permanecer
mesmo quando a vida aperta,
mesmo quando o desejo muda de lugar,
mesmo quando o silêncio começa a falar.
Passei a vida inteira tentando entender
por que algumas pessoas são escolhidas
e outras precisam aprender a sobreviver
com a sensação de terem sido deixadas para trás.
Talvez por isso eu goste tanto do ficar.
Porque eu sei o que é esperar.
Sei o que é ouvir pouco
e sentir demais.
Sei o que é procurar no olhar do outro
a confirmação de que ainda sou desejada,
ainda sou importante,
ainda fui escolhida.
Eu queria o profundo.
Não esse quase.
Não esse vem e vai.
Não essa presença que acende o corpo
e depois se esconde na rotina.
Eu queria ficar sem precisar pedir.
Ser lembrada sem precisar desaparecer.
Ser procurada sem precisar duvidar.
Mas me deram o raso.
E eu, que sempre fui tão boa em nadar sozinha,
às vezes ainda me pego perguntando:
me ensina a ficar?
Ou, pelo menos,
fica comigo mais um pouco.
Antes que eu transforme
mais uma vez
a saudade em lugar para morar.
