daniel auvray

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A cidade respira em mim como uma ausência iluminada — janelas acesas que não aquecem, prédios que se erguem como lembranças que não voltam — e no meio desse concreto, há um silêncio que grita teu nome, como se Hilda Hilst sussurrasse ao pé do ouvido que amar também é perder-se em si, enquanto Caio Fernando Abreu me ensinaria que a dor tem um jeito bonito de permanecer, quase digna, quase fé, e ainda assim, caminho — meio quebrado, meio inteiro — porque existe algo maior que essa penumbra que insiste em ficar, algo que pulsa mesmo depois da despedida, algo que H. G. Wellington talvez chamasse de força invisível: essa estranha coragem de continuar, mesmo quando tudo dentro de mim ainda está indo embora.

Um milhão de mundos

Em São Paulo, no mesmo dia,
atravessei um milhão de mundos.

Havia uma cidade em cada esquina,
uma vida atrás de cada vidro,
um adeus parado no semáforo
e um sonho correndo atrasado
entre ônibus, prédios e buzinas.

Passei por lugares
onde ninguém sabia meu nome,
mas todos carregavam nos olhos
alguma coisa que também era minha:
a pressa, o medo, a esperança,
a vontade secreta de chegar.

A cidade mudava de rosto
enquanto eu seguia.

Ora era cinza.
Ora era ouro.
Ora era uma menina sob a chuva,
um homem dormindo na calçada,
uma senhora segurando flores
como quem ainda acreditava no mundo.

E eu, tão pequeno
dentro de tanta imensidão,
levava comigo cidades inteiras
que ninguém podia ver.

Porque há viagens
que não se medem em quilômetros.

Há dias em que atravessamos
um milhão de mundos
sem sair da mesma cidade.

E, quando a noite finalmente caiu
sobre São Paulo,
eu já não era aquele
que havia saído de casa.

Era todos os caminhos.
Todas as perdas.
Todas as luzes acesas
nas janelas dos outros.

Era uma cidade também.
Sao Paulo 13 de julho de 2026
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