Abraham Cezar
O sábio não caminha em um só mundo, mas em muitos. Ele conhece as trilhas invisíveis, os portais ocultos e os atalhos do tempo. Para aquele que vê além, o passado e o futuro são apenas reflexos de um mesmo instante eterno.
O passado não está atrás de você, nem o futuro está à sua frente. Tudo está acontecendo agora, e a mente é quem define qual parte da história está sendo vista.
A Luz só se revela quando a escuridão é atravessada. Quem foge da sombra nunca verá a plenitude da Luz.
Toda porta é uma escolha. Quando um portal é aberto, só a consciência define se ele levará à ascensão ou à queda.
Tiferet é o espelho que reflete o universo, mas aquele que se vê no espelho e se reconhece na Luz, esse já não precisa mais do reflexo.
O tempo é um rio, e Binah é sua corrente. O iniciado sabe que, no coração da correnteza, há sempre um ponto imóvel onde tudo já aconteceu e nada jamais acontecerá.
Aquele que vê a Árvore como um simples desenho, nunca colherá seus frutos, mas aquele que se torna um com seus ramos, jamais conhecerá limites.
Quem conhece a direita e ignora a esquerda está perdido. Quem conhece a esquerda e ignora a direita está iludido. Mas quem conhece ambas e as une dentro de si, esse está desperto.
Aquele que solta, encontra. Aquele que luta contra a corrente, se cansa. Mas aquele que aprende a nadar com o rio, descobre que a jornada já o leva para onde precisa estar.
Quem compreende a unidade, não teme a tempestade, pois sabe que o vento que sopra forte é o mesmo vento que o leva ao destino certo.
Aquele que busca apenas acumular conhecimento, encontrará um espelho. Aquele que busca a verdade, encontrará um portal.
No início, o silêncio dançou,
entre o nada e o tudo se criou.
A palavra, som não dito, brotou,
e a luz oculta em faíscas brilhou.
Do ponto surgiu a linha infinita,
o Nome esculpido no tempo, bendito.
Quatro letras, sopro eterno da vida;
e no sopro, o mistério não dito.
Yod é a chama que nunca se apaga,
Hei é o ventre onde o cosmos repousa.
Vav, a ponte que une o céu e a estrada;
Hei final, a vida que floresce formosa.
Ó viajante, que busca o segredo,
no coração a chave do Todo está.
No reflexo da alma, o espelho do Éden,
e o Tetragrama em seu ser pulsará.
Ei, cê viu isso? Passou batido,
tipo neblina no vidro, sumindo em ruído.
Olhar reto, pose de forte,
mas esse silêncio grita mais que a sorte.
É sempre assim com quem tem alma fraca,
dão ghost, somem, perdem a placa.
Acham que o vácuo os faz crescer,
mas tão pisando onde a areia vai ceder.
Mas qual é a fita? Por que fingir?
O riso torto, o olhar fugir?
Me vê e finge que eu não existo,
como se meu nome apagasse na lista.
É que a verdade mexe, faz tremer,
mostra as máscaras que cês querem esconder.
Preferem o fake, correm do brilho,
do que encarar que perderam o trilho.
Então que fiquem na bolha inflada,
se afoguem na maré da própria cilada.
Eu? Sou trovão, sou brasa, sou rua,
e eles? Só eco — com medo da chuva.
Não folheiam, mas sentenciam,
como quem encara um tomo fechado
e crê decifrar-lhe os mistérios
pelo traço do tempo na capa.
Murmuram que és raso enigma,
que teus passos se dissolvem no vento,
mas ignoram que teu caminho
se estende onde os pés daqueles que nem querem ousaram tocar.
O silêncio, esse arauto impassível,
sempre sussurra o que os tímpanos tíbios temem,
pois a grandeza, em seu estado incipiente,
é um espelho que fere
os que não suportam o reflexo de si.
Potencial é trovão contido no horizonte,
um aviso que precede o dilúvio,
e aqueles que habitam sob telhados frágeis
preferem desacreditar o vento
a fortalecer seus muros.
Humildade exige menos que compreender;
dissipar dói menos que buscar,
pois enxergar além da névoa
exige olhos que saibam ver.
Mas diga-me: quantos já viram
a alvorada de um relâmpago
e compreenderam que estavam diante da luz,
e não apenas do eco que a sucede?
Os cegos ouvem e se espantam,
os sábios veem e se encantam.
A luz não suplica por meras críticas.
Rasga as trevas sem pedir permissão.
Ela rasga o véu das trevas, impassível,
e somente aqueles que ousam encará-la
são dignos de testemunhá-la.
Era uma vez uma linda borboleta azul. Suas asas brilhavam sob a luz do sol como pequenas joias vivas, e ela adorava voar pelos campos, jardins e bosques, admirando a beleza do mundo.
Em um de seus passeios, avistou ao longe um escorpião caminhando sozinho. Curiosa e gentil como era, aproximou-se para cumprimentá-lo.
O escorpião ficou surpreso. Nunca antes uma criatura tão bela havia demonstrado interesse em sua companhia. Acostumado ao medo e à rejeição, ele não entendia por que aquela borboleta desejava estar perto dele.
- Olá - disse a borboleta com um sorriso. - Posso caminhar com você?
O escorpião, sem esconder o espanto, aceitou.
A partir daquele dia, os dois passaram a passear juntos. A borboleta voava lentamente para não deixar o amigo para trás, enquanto o escorpião caminhava com rapidez para acompanhá-la.
Com o passar do tempo, o escorpião começou a mudar alguns hábitos. Mantinha o ferrão recolhido e imóvel sobre as costas, como se quisesse mostrar que não representava perigo. Parecia até que não possuía ferrão.
A borboleta o levava para conhecer lugares encantadores. Juntos atravessavam jardins coloridos, seguiam por caminhos floridos e observavam o pôr do sol nas avenidas arborizadas.
Para o escorpião, aqueles momentos eram preciosos. Pela primeira vez em sua vida, sentia que alguém gostava dele de verdade.
Até então, conhecera apenas a solidão.
Todos fugiam ao vê-lo. Ninguém desejava sua amizade. O medo que inspirava era maior do que qualquer qualidade que pudesse ter.
Mas a borboleta azul era diferente.
Ela enxergava além da aparência e não demonstrava receio algum. Sua confiança fazia o escorpião sentir-se aceito, algo que jamais havia experimentado.
Os dias passaram, e a amizade entre os dois parecia cada vez mais forte.
Porém, certa noite, algo inesperado aconteceu.
Como de costume, a borboleta adormeceu ao lado do escorpião.
A noite estava silenciosa. Apenas o som suave do vento atravessava as folhas das árvores.
Foi então que o escorpião sentiu um estranho impulso.
Seu ferrão começou a se mover lentamente.
Ele tentou detê-lo.
Lutou contra aquele movimento.
Mas, pouco a pouco, o ferrão ergueu-se sozinho, aproximou-se das delicadas asas da borboleta e a atingiu.
A borboleta despertou imediatamente, tomada por uma dor intensa.
Assustada e com lágrimas nos olhos, olhou para o amigo e perguntou:
- Você sempre foi tão gentil comigo. Por que me feriu?
O escorpião abaixou a cabeça.
Tomado pela tristeza e pelo arrependimento, respondeu:
- Eu não queria fazer isso. Mas é da minha natureza. Tentei controlar meu instinto, porém não consegui.
Aquelas palavras machucaram quase tanto quanto a ferroada.
Com grande esforço, a borboleta afastou-se.
Mesmo sentindo dor, abriu as asas e começou a voar.
Voou para longe.
Voou enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Voou sobre jardins, campos e rios, até que a distância entre ela e o escorpião se tornou impossível de medir.
Com o tempo, a ferida cicatrizou.
A dor diminuiu.
A vida seguiu em frente.
Mas a lembrança daquela noite jamais desapareceu completamente.
Desde então, a borboleta aprendeu uma lição difícil: por mais que exista bondade e afeto, algumas criaturas não conseguem vencer a própria natureza.
E, embora tenha conseguido superar a ferroada, a borboleta nunca mais voltou a se aproximar de um escorpião.
