Agilson Cerqueira

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Mente inquieta


Agilson Cerqueira


O prumo quebrado,
A régua que não mede o abismo.
Se a lógica farta é prisão,
O delírio é o único batismo.


Não se divide a alma em fatias,
Nem se doma o que é correnteza.
Quem busca a norma, vicia;
Quem busca o salto, tem a certeza:


Só o atrito acende a luz.


Alguns enxergam durante o dia,
Outros vislumbram estrelas.
Há os que só vivem de sentimentos,
E há quem viva de razão.


Intensidades do ser em todos momentos.
Entre o lirismo e o ceticismo existencial:
Alegria, riso, choro e decepção.
Mente inquieta - tensão essencial!


Agilson Cerqueira

Átomos Ambulantes


Agilson Cerqueira


Sou átomos ambulantes.


Nasci da combinação de partículas,
que se uniram em moléculas,
formaram tecidos,
ergueram órgãos
e deram abrigo à consciência.


Sou feito de matéria
forjada em mundos distantes,
de átomos com origem planetária e estelar.


Sou subproduto de antigas explosões,
herdeiro do fogo de uma supernova.


Já existi há bilhões de anos,
como energia vagando entre estrelas,
antes de me tornar matéria,
antes de me tornar eu.


Fui moldado por processos de fusão,
por encontros e separações,
por atrações inevitáveis
e expulsões orbitais.


Carrego em mim a memória das estrelas:
daquelas que se fundiram,
das que nasceram,
das que morreram lentamente
ao esgotarem seu combustível.


Hoje caminho sobre a Terra,
mas minha origem permanece no infinito,


Sou poeira estelar organizada,
um breve arranjo de átomos
que contempla o próprio universo
do qual nasceu.


Agilson Cerqueira

TEORIA DOS SIGNIFICADOS (Versando e Proseando)

VERSANDO
Com ótica,
Sem semiótica,
Visões sem linguagens mentais:
Analfabetos funcionais.


PROSEANDO
A visão inaugura o contato com o mundo, mas não o seu significado. Os olhos captam formas, cores e movimentos; entretanto, é a mente que lhes confere sentido. Entre o que se vê e o que se compreende existe um intervalo invisível, preenchido pelos signos, pela linguagem e pela experiência. Sem esse percurso, a realidade permanece apenas como fenômeno, jamais como conhecimento.


A ótica revela a existência das coisas; a semiótica revela aquilo que elas representam. Uma descreve a incidência da luz; a outra investiga a incidência do sentido. Quando a primeira existe sem a segunda, o mundo transforma-se em um inventário de imagens destituídas de significado. Vê-se tudo, compreende-se pouco.


Não é a ausência da visão que empobrece o pensamento, mas a incapacidade de atribuir significados ao que se apresenta diante de nós. A ignorância mais profunda não reside na falta de informações, mas na impossibilidade de interpretá-la. O analfabetismo funcional nasce precisamente nesse espaço: onde há percepção sem compreensão, leitura sem interpretação, informação sem consciência.


Toda civilização se alicerça menos sobre aquilo que enxerga do que sobre aquilo que é capaz de significar. O ser humano não habita apenas o universo das coisas, mas, sobretudo, o universo dos sentidos que cria para elas. Quando os significados desaparecem, a realidade permanece visível, porém intelectualmente inacessível.


Ver é um ato biológico. Compreender é um ato filosófico. Entre ambos se ergue a linguagem, não apenas como instrumento de comunicação, mas como a própria arquitetura do pensamento. É nela que o mundo deixa de ser apenas visto para tornar-se verdadeiramente conhecido.