Buckler
Conversando com a Lua
Ho terrível noite que não findas, foras feita aos bêbados, às putas e aos que sobrevivem apenas da saudade.
Então eu fico.
Sem dizer que fico.
Sem jurar que permaneço.
Eu só encosto a alma na tua,
como quem encosta a testa no vidro,
e olhe para fora
o mundo ainda respira.
Não te ofereço futuro,
não te vendo eternidade,
não te distraio com promessas bonitas.
Só deixo o calor existir.
Só deixo o instante acontecer.
Porque às vezes
o nada não quer ser preenchido,
quer ser acolhido.
E no silêncio entre um sentir e outro,
se existir verdade,
ela não grita.
Ela só… fica.
Em tudo que amei, fracassei.
Sinto-me um personagem mal contado de Dostoiévski,
mas não o Idiota.
Talvez “O Patético”.
Aquele que vê demais,
sente demais,
entende demais,
e mesmo assim espera.
Eu vejo a maldade.
Eu a sinto antes que ela fale.
Ela entra pelos gestos,
pelos silêncios,
pelas pequenas traições que ninguém nomeia.
Eu sei.
Eu sempre sei.
E mesmo assim eu espero.
Espero que, dessa vez,
algo de bom aconteça.
Que alguém fique.
Que alguém não minta.
Que alguém não desista quando perceber que amar exige mais do que encanto.
Mas não acontece...
E o pior não é a maldade.
É continuar esperando depois dela.
É olhar o mundo já sabendo do fim
e ainda assim desejar um começo.
Talvez meu erro não seja amar.
Talvez seja não aprender
a endurecer.
Mas há algo em mim que insiste,
não por ingenuidade,
não por burrice,
mas por uma fé involuntária
de que o bem pode, em algum momento,
vencer a própria tendência de falhar.
E se isso é patético,
então que seja.
Porque entre ser pedra
e ser alguém que ainda espera,
eu ainda escolho
esperar.
Todos nós já ouvimos a frase de Paulo de Tarso em Epístola aos Romanos: “o salário do pecado é a morte”. Durante muito tempo pensei nisso apenas como uma questão moral, algo entre o homem e Deus. Mas com o tempo percebi que o problema é mais profundo. O pecado não é apenas moral, ele é existencial.Aquilo que chamamos de pecado não fere apenas Deus, fere a própria ordem da vida.Quem planta desordem não colhe paz, colhe morte: às vezes espiritual, às vezes física, às vezes emocional, às vezes no próprio futuro.
Eu necessito, eu necessito…
como quem já não distingue desejo de falta,
como quem arde por dentro
sem saber onde termina o fogo.
Necessito sentir você
não só na pele,
mas no intervalo das coisas,
no silêncio entre uma palavra e outra,
no espaço onde o mundo desacelera.
Necessito estar perto…
perto o suficiente
pra que tua respiração bagunce a minha,
pra que tua presença dissolva
o excesso que me transborda.
E, ainda assim,
no meio de toda essa fome,
há uma pausa em você
que me salva do excesso
que, contraditoriamente,
é tudo o que eu mais necessito.
