Bernardo Leal Timm

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⁠Aquele que mais teme a morte é, paradoxalmente, o primeiro a entregar a vida pelo grupo; pois somente quem conhece o valor infinito da existência compreende a magnitude de oferecê-la em sacrifício.

⁠"Cedo na cama, a alma se maquia. Veste-se de ética, adorna-se de moral, até que o espelho devolva um reflexo aceitável. Só então o homem sai ao encontro do mundo: um ator impecável, trancado por dentro, caminhando entre fantasmas igualmente mascarados."

"Nada há de mais estéril que a mágoa. Ela imita o milagre do movimento perpétuo, mas seu único feito é moer o peito de quem a carrega, transformando o tempo em cinzas e o amanhã em um eterno ontem."

O asfalto sempre soube o nome de Joaquim. Ele era o homem de 60 anos que corria pelas ruas da cidade grande desde os seis anos de idade. Cresceu na periferia cinzenta, em um cortiço apertado perto dos trilhos do trem. Filho de uma lavadeira que trabalhava dezoito horas por dia, ele não tinha brinquedos nem espaço, mas descobriu cedo que a rua era de graça. Ele corria pelos becos de terra batida para esquecer o estômago vazio, corria para não se misturar com a violência que engolia os garotos da sua idade e corria simplesmente porque o vento no rosto era a única coisa que o fazia se sentir dono de si mesmo.
Na idade adulta, a vida continuou pesada. Joaquim trabalhou por quase quarenta anos como gari, correndo atrás do caminhão de lixo todas as noites, debaixo de sol ou de chuva temporal. Era um trabalho invisível, mas ele o fazia com uma dignidade rara. Joaquim conhecia cada morador de rua pelo nome, e muitas vezes tirava do próprio bolso o dinheiro de um pão para entregar a quem não tinha nada. Ele limpava a sujeira do mundo e, nas madrugadas em que não estava trabalhando, continuava correndo pelas avenidas desertas. A corrida não era um esporte para ele; era o seu santuário, o único momento em que não era o homem que recolhia as sobras dos outros, mas sim um homem livre.
Ele finalmente havia conseguido se aposentar. Suas articulações doíam pelo cansaço de uma vida inteira de trabalho braçal, mas seus pés continuavam firmes no asfalto. Até que a brutalidade do acaso o alcançou. Na calçada de uma padaria, enquanto tomava seu café da manhã, um motorista embriagado perdeu o controle do veículo e o prensou contra a parede de concreto. Joaquim não teve culpa de nada. O impacto destruiu sua coluna. No hospital, os médicos informaram que o trauma na medula era definitivo e que a paralisia total avançaria pelo corpo em poucas horas, tirando dele para sempre a capacidade de andar ou correr.
Foi uma injustiça imensa com alguém que passou a vida inteira fazendo o bem e cuja única alegria era o movimento. Joaquim não merecia aquele fim. Ele olhou para as pernas cobertas pelo lençol e soube que não sobreviveria trancado em uma cama de hospital. Sua alma morreria muito antes da carne.
Naquela mesma madrugada, sentindo a dormência começar a subir pelos tornozelos, ele arrancou os acessos do braço. Desabou da cama, arrastou-se pelo chão até a saída de emergência e ganhou a rua escura. Sob o ar frio da madrugada urbana, ele forçou os joelhos trêmulos e, por um último esforço de pura teimosia, o corpo obedeceu. Joaquim começou a correr.
A paralisia subia como uma maré lenta por suas pernas, mas ele continuou avançando pelas avenidas vazias da periferia. Sem sentir o impacto dos tênis velhos contra o chão, ele corria guiado apenas pelas suas memórias. A cada quilômetro, sua mente resgatava o passado: lembrou-se de si mesmo correndo na chuva para levar o remédio da mãe quando era jovem, dos dias de trabalho correndo atrás do caminhão com um sorriso no rosto e do menino que apostava corrida com o barulho do trem nos trilhos do cortiço.
Ao amanhecer, ele alcançou as margens de um pequeno lago esquecido no limite entre a cidade e a rodovia, o único lugar com árvores onde ele costumava descansar na infância.
O quadril travou por completo. Joaquim desacelerou no ritmo exato em que o controle de suas pernas desaparecia, até que os pés se fixaram na terra de uma vez por todas. Ele parou na beira da água, o corpo inteiro tremendo pelo esforço sobre-humano, e desabou de joelhos na grama.
Ele chorou. Foi um choro silencioso, pesado, o choro de um homem que passou sessenta anos apanhando da vida, mas que havia cruzado a sua última linha de chegada exatamente como escolheu: livre.
Joaquim olhou para o reflexo do sol nascente na água do lago, o mesmo sol que iluminava suas corridas quando ele era apenas um menino inocente fugindo da fome nos becos do cortiço. Ele não olhou para o céu com raiva do motorista que o atropelou, nem com rancor do mundo que sempre lhe deu o lixo e o esquecimento.
Com as mãos trêmulas apoiadas na terra úmida, ele respirou fundo o ar frio da manhã. Juntou o restinho de ar que ainda sobrava em seu peito cansado e, com as lágrimas escorrendo pelos sulcos do rosto enrugado, moveu os lábios. O sussurro saiu rasgado, mas firme:
— Obrigado... por terem me aguentado até aqui.
Não era um agradecimento ao destino cruel, mas sim um obrigado direcionado às suas próprias pernas, que nunca o abandonaram. Um obrigado ao seu corpo velho, que o carregou por tantas madrugadas solitárias e que guardou forças para lhe dar aquela última gota de liberdade.
Joaquim deitou-se de lado na grama, encolhendo os braços junto ao peito e recolhendo as pernas agora completamente paralisadas, como um menino cansado que finalmente chega em casa depois de um longo dia de correrias. Ele fechou os olhos devagar. O coração valente do gari deu uma última batida orgulhosa e parou.
À distância, o som dos motores e o barulho da cidade grande começavam a aumentar. O mundo acordava para mais um dia comum, inteiramente indiferente ao fato de que mais um homem honesto e inocente era injustiçado e encontrava seu fim.