Viriato Andre

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E rompeu as fronteiras do silêncio,

para buscar palavras ao vento,

que, sem noção, foram lançadas,

como lâminas invisíveis,

para causar sofrimento.



A relatividade do status pessoal

afoga qualquer paridade,

pois a coroa que pesa na cabeça da rainha

não pode repousar no plebeu.



E assim, a majestade se ergue,

mas não impera nos meros humanos,

que, despidos de títulos e tronos,

carregam dores mais pesadas

do que qualquer coroa poderia suportar.



O tempo, imparcial em sua essência,

não curva joelhos diante de castelos,

nem poupa o mendigo na calçada fria.

Todos sangram sob o mesmo céu,

e todos partem sob o mesmo silêncio.



As palavras, outrora armas,

podem também ser pontes,

mas quem se ergue para usá-las assim?

A vaidade arranca raízes da compaixão,

e o orgulho apaga a luz da igualdade.



Pois no fim, a grandeza que resta

não está no ouro, nem nos títulos,

mas na capacidade de tocar o outro

sem ferir, sem pesar,

com a leveza de um gesto humano.

A vida não se organiza para que nossos sonhos aconteçam. O mundo não se importa com o que desejamos e, muitas vezes, nem as pessoas à nossa volta se importam.

Mãe e manas,
Sempre que me veem cruzar aquela porta e partir para o terreno, sei que olham para a farda, para a postura e para o dever. Mas o que eu queria que soubessem — e que as palavras raramente me deixam dizer — é que, em cada despedida, eu assino um contrato com o destino, escrito com o sangue do meu próprio medo.
Eu aceito ser o escudo das famílias moçambicanas que nunca vi. Aceito colocar o meu peito na frente de desconhecidos e dos meus irmãos de farda, acreditando piamente numa promessa silenciosa: eu cuido dos deles hoje, para que, se amanhã a terra me reclamar, eles cuidem de vocês por mim.
Cada vez que volto para casa e me fecho no silêncio, não é frieza. É cansaço de carregar o peso de um mundo que insiste em arder. Eu guardo o horror nos meus olhos para que ele não contamine os vossos. Escondo o perigo em "depósitos de honra" porque o meu maior sonho é que vocês vivam numa Moçambique tão segura, que cheguem a acreditar que o mal é apenas uma ficção.
O meu silêncio é o muro que eu construo à volta da nossa casa.
Se por vezes pareço distante, é porque estou a tentar apagar as chamas que vi lá fora para que elas não cheguem ao nosso jardim. Prefiro que me achem frio, prefiro que reclamem da minha ausência, do que ver o brilho do medo nos vossos olhos.
Porque, no fim do dia, a minha vida não me pertence. Ela é o preço que eu pago para que vocês nunca precisem de descobrir quão escuro o mundo pode ser.
Amo-vos mais do que o dever, mas é por vos amar que o dever é a minha única escolha

O Comandante e a Madrugada
Meus amores, cada quilómetro que me afasta de casa não é uma distância, é um passo que dou para manter o perigo longe de vocês. Enquanto o sol brilha, eu sou o mestre e o aprendiz; moldo a tropa, preparo o meu corpo e afio a mente, porque no terreno, o erro não pede desculpas.
O meu descanso é breve e estranho: durmo das 18h às 22h, quando o mundo ainda está a fechar os olhos, para que eu possa ser os vossos olhos quando a escuridão for total. Eu durmo para não ser surpreendido; eu vigio para que vocês nunca sejam acordados pelo medo.
Na solidão da minha tenda, o silêncio da mata não é vazio; ele é uma orquestra de sobrevivência. Aprendi a ler o chão pelo ouvido. Conheço o roçar de cada pata na folhagem seca. Distingo, sem hesitar, o rastro de uma centopeia ou o peso discreto de um escorpião. Eles são os meus vizinhos, e eu os respeito. Mas confesso: a cobra continua a ser o único mistério que não dominei — o seu deslizar é como a traição, silencioso e imprevisível.

A natureza é o meu relógio biológico, e as suas criaturas são os meus alarmes.
Sei exatamente a hora em que cada pássaro canta e quando cada bicho se manifesta. O meu maior medo não é o barulho da selva, mas o silêncio repentino. Quando a mata se cala, o meu coração dispara. O silêncio dos animais é o aviso de que um corpo estranho — uma sombra que não pertence a este reino — caminha entre as árvores.
Nesses momentos, seguro a arma, mas é a vossa lembrança que me segura an alma. Estou aqui, no meio do nada, a ler o segredo dos ventos e dos bichos, apenas para que a paz que vocês sentem ao deitar nunca seja interrompida.
Estou longe, mas nunca estive tão presente na defesa do vosso sorriso.