Apenas
Eu não sou o Paulo Macaia Buiti. O meu nome de registro no bilhete nacional apenas é Paulo Macaia e nada mais.
“O homem não pensa apenas para compreender; ele pensa para sustentar aquilo que, dentro dele, já escolheu adorar.”
O ABISMO CROMÁTICO DA CONSCIÊNCIA.
Há músicas que não atravessam apenas os ouvidos.
Elas penetram regiões esquecidas da psique.
Fendas subterrâneas da memória.
Catacumbas emocionais onde antigos fantasmas ainda respiram em silêncio.
A melodia dissolvia lentamente a arquitetura racional do espírito.
Tudo parecia transformar-se numa espiral líquida.
As paredes do mundo abandonavam sua geometria ordinária.
O tempo deixava de correr horizontalmente e passava a afundar-se em círculos.
Então a consciência começou a ver cores que não pertenciam ao espectro humano.
Azuis metafísicos.
Violetas litúrgicos.
Dourados sepulcrais semelhantes ao brilho de velas acesas em cemitérios abandonados.
Havia um oceano dentro da mente.
E nele flutuavam rostos esquecidos.
Amores interrompidos.
Infâncias mortas.
Nomes apagados pelo pó dos calendários.
Cada nota parecia abrir uma porta invisível entre dimensões interiores.
Como se a alma fosse um corredor infinito de espelhos líquidos.
E em cada reflexo existisse outra versão de nós mesmos.
Mais triste.
Mais lúcida.
Mais próxima da eternidade silenciosa das estrelas.
O universo inteiro pulsava como um organismo alucinógeno.
Galáxias respiravam.
Planetas sonhavam.
E os pensamentos humanos surgiam apenas como pequenas partículas elétricas perdidas na vastidão cósmica.
A realidade começou então a desfazer-se como tinta diluída na chuva.
Os relógios tornaram-se inúteis.
Os nomes perderam importância.
O corpo parecia distante.
Quase um objeto abandonado pela consciência durante uma experiência transcendental.
E no centro daquele delírio cromático surgia uma figura etérea.
Uma mulher construída de névoa lunar e melancolia.
Seus olhos continham auroras boreais moribundas.
Seus cabelos moviam-se como fumaça dentro do espaço sideral.
Ela não falava.
Apenas olhava.
E naquele olhar existiam séculos inteiros de solidão metafísica.
Subitamente compreendi que o ser humano passa a vida inteira tentando anestesiar-se contra o infinito.
Criamos rotinas para não ouvir o vazio.
Criamos ruídos para não perceber o eco da existência.
Criamos multidões para fugir do próprio abismo.
Mas certas melodias rasgam os véus psicológicos.
Elas arrancam a consciência de sua zona anestesiada.
E fazem a alma contemplar aquilo que normalmente permanece oculto sob a matéria.
A vertigem.
O mistério.
A insignificância humana diante do cosmo.
E ao mesmo tempo a beleza terrível de existir por alguns instantes dentro da eternidade.
No fim restava apenas silêncio.
Um silêncio tão vasto que parecia conter o nascimento e a morte de todos os universos.
E dentro dele a mente continuava caindo.
Lentamente.
Belamente.
Como uma estrela moribunda mergulhando em seu próprio sonho.
Fidelidade não é apenas honrar o que foi dito é, sobretudo, honrar o que está nas entrelinhas de um compromisso inaudito.
Aquilo que parece ruído pode ser apenas uma linguagem complexa demais para a percepção humana reconhecer.
Quando a fé é baseada apenas no que se sente, o risco é grande: confundir emoção com direção divina.
Sossega, não sendo uma boa pessoa, senão a sociedade matar-te-á em vão. Finge apenas que és uma má pessoa.
"Não combata as sombras, apenas acenda a luz da razão e da virtude, e verá que o mal se dissipa por si, como névoa diante do sol." Celso Jerônimo
"Aquele que foi criado com pouco descobre cedo que a abundância exterior pode ser apenas um véu de ilusões. O verdadeiro valor das coisas não reside no acúmulo de bens ou na aparência, mas na simplicidade que nutre o espírito e fortalece a existência. Ninguém se define pelo que veste, muito menos pelo que possui, pois a identidade humana não se sustenta na superfície, mas na profundidade de ser."
“Os grandes desastres da humanidade não nasceram apenas das mãos dos perversos, mas também do silêncio daqueles que, sob o disfarce da neutralidade, confundiram indiferença com virtude. Não há neutralidade porque todo aquele que não combate a injustiça acaba por lhe dar guarida".
A vida é um fio de luz que se apaga lentamente a cada amanhecer. Por isso, viver não é apenas resistir ao tempo, mas preenchê-lo de sentido. Cada gesto, cada olhar, cada silêncio é um modo de eternizar o instante antes que ele se despeça. Não espere que o tempo lhe pertença. Ele pertence, sim, ao que você faz dele. Porque viver é transformar o efêmero em memória e o agora em eternidade.
"A consciência não redime o homem do absurdo, apenas o livra da ilusão. Entre o desamparo e a lucidez, subsiste a dignidade de assumir a própria condição."
