Apenas
A noite é mestre em revelar a verdadeira face do desejo. Ela não julga, apenas mostra o que pulsa. Algumas verdades aparecem em roupas simples. E eu as recebo com humildade de aprendiz. Porque cada desejo é também mapa para a cura.
O amor que me cura não exige perfeição. Ele pede apenas coragem para chegar com as mãos vazias. Acolhe os termos e as condições sem contrato. E na simplicidade do gesto, tudo se transforma. Porque amor que exige pouco é o que mais dá.
Há noites em que o céu me pede silêncio. Ele me julga sem palavras, apenas com vastidão.
Sinto minha pequena história diante do infinito. E a sensação é de humildade e alívio. Aceito o lugar que me deram no cosmos.
Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.
O pessimismo é apenas o realismo de quem já foi ferido demais pela expectativa e hoje prefere a segurança da observação.
A vida é um mestre severo: ensinou-me que amar não retém ninguém e que promessas são apenas palavras ao vento.
Nas madrugadas, as máscaras descansam. Sou apenas eu, meu cansaço e a verdade crua que o dia não suportaria ver.
No fim, sobrará apenas o vento soprando entre as ruínas do que tentamos ser, levando as cinzas dos nossos poemas e as memórias dos nossos pecados. O mundo seguirá seu curso, o sol nascerá para outros miseráveis, e o meu nome será apenas um sussurro de quem soube ler o abismo.
Sinto saudades de uma versão minha que talvez nem tenha existido, apenas a ideia de quem eu poderia ser antes de tudo.
Não há glamour no sofrimento. O que faço é apenas documentar o naufrágio para que o mar não pareça tão vazio.
A música de Sergei Rachmaninoff não é apenas ouvida, é sofrida em cada terminação nervosa, uma arquitetura de dor e glória onde os concertos para piano se erguem como catedrais de um romantismo tardio e visceral. Há uma beleza quase insuportável na forma como suas notas fortes golpeiam o silêncio, não por violência, mas por uma necessidade urgente de existir, enquanto as mãos gigantescas do mestre costuram harmonias complexas que parecem traduzir o peso de uma Rússia eterna e nostálgica. É um mergulho em águas profundas e gélidas, onde a melancolia se transfigura em virtuosismo, revelando que, por trás de cada acorde denso e cada fraseado melódico que se arrasta como um suspiro de despedida, habita a alma de um homem que transformou o próprio exílio interno em uma das linguagens mais sublimes e devastadoras que o mundo já ousou escutar.
Abandonei a busca pelo final feliz. Hoje, busco apenas o final honesto, aquele que respeita a complexidade do caminho.
Sou um caos que encontrou na poesia sua única forma de ordem. Sem os versos, eu seria apenas estilhaços.
A escrita é o meu suporte de vida. Nada romântico, apenas o oxigênio necessário para quem se sente sufocado pelo real.
O sono, para mim, é apenas um campo de batalha onde os monstros do dia trocam de roupa para continuar o cerco sob o véu da noite.
A dor é o único mestre que nunca mente, ela nos despe de todas as vaidades até que sobre apenas o osso da nossa fragilidade radical.
Às vezes, o que as pessoas chamam de "cura" é apenas o hábito de carregar a dor sem mancar tanto, um jeito de esconder a deficiência da alma para não incomodar a estética alheia. Eu prefiro mancar abertamente, exibindo minha humanidade defeituosa como uma bandeira de resistência.
Não me faltou vontade, nem coragem para crescer. Faltou-me apenas o espaço que mãos alheias roubaram. Chamaram de orientação o que era apenas prisão; chamaram de liderança o que não passava de opressão.
Ao olhar uma estrela cintilante, não sei se seu brilho é verdade ou apenas a memória de uma luz extinta, que há muito deixou de existir. Talvez não seja ela que se perdeu, mas eu, que permaneço no lugar errado.
