Apagar a minha Estrela
Não pedi nada ao Papai Noel, nem sei se ele iria me ouvir. Mas se ele soubesse da minha dor, do meu desejo e da minha solidão! Ele nem esperaria a data natalina para me socorrer...(Saul Belezza - Mario Vale
Atos 20:24
Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.
O verdadeiro sucesso não é preservar a vida, mas terminar a carreira que Jesus nos entregou.
O meu quarto tem cheiro da morte.
A minha janela reflete a escuridão
A minha cama vazia me ensina o que é a solidão.
Hoje quando eu acordei e te vi
Você com um sorriso iluminando como sol radiante em minha janela.
Tinha certeza que o dia seria lindo e você minha única musa, amante e bela.
Você disse oi e se foi.
A escuridão serrou meu olhar
E agora só tenho uma esperança.
Que quando o amanhã chegar e você voltar.
Psicopatia / Pessoas Antissociais
Minha mãe sempre me disse: Louco não ataca Louco, finja e responda-o a altura.
É fácil reconhecer um psicopata: Ele zombará, falará da fé das pessoas com tom maldoso, de incredulidade e vulnerabilidade como pouca inteligência.
E achará vantagem nos tratos, relacionamentos com pessoas de pouca idade pelo prazer da sua pouca experiência, reconhecimento de malícia, isso é diversão para ele.
[...] Se da beleza, altruísmo ou prudência viessem minhas conquistas o mérito seria da minha vaidade, bondade ou disciplina. Se mesmo no ápice da minha imperfeição ainda sou como a luz que não faz barulho, mas desfaz qualquer abismo o mérito é apenas daquilo que realmente sou. (...)"
— Cicero Faustino
Minha tia já estava me esperando. Eu fui para a casa dela, passei 3 meses com ela, depois fui morar com a minha avó paterna.
Com ela, passei 2 anos.
Depois, no último mês! Eu tive que sair da casa dela, porque meu tio era um drogado e violento, então saí, porque ele começou a ameaçar meu namorado, hoje, meu marido.
Então, fui pedir abrigo na casa de uma cunhada da minha avó, ela disse "tú pode ficar, mas não quero nem saber de macho aqui na minha porta".
Eu tinha 19 anos, e esse macho que ela falava estava me esperando e ouvia tudo. A gente tinha marcado o casamento, faltava um mês.
Era só disso, que eu precisava.
Mas, ela fechou a porta para mim.
Eu tinha umas amigas que já não estavam tão próximas de mim, mas foi a minha única solução.
Pedir para a mãe delas, para eu ficar lá por 1 mês!! Até casar.
Foi o que aconteceu.
Fiquei 1 mês!!
Trabalhando, feliz, sendo cuidada por aquelas pessoas, e no dia do casamento, me levaram de carro e ainda participaram comigo.
Recebemos 1 almoço surpresa.
Foi o melhor período da minha vida!!
Continua...
Eu demorei para entender que minha fé não precisava de moldura. Não era sobre pertencer a um templo específico, repetir palavras decoradas ou provar algo para alguém. Um dia percebi, quase em silêncio, que Deus não estava distante nem escondido atrás de rituais; Ele morava em mim. E quando entendi isso, algo dentro de mim ficou tranquilo, como se finalmente eu tivesse chegado em casa.
Não depender de religião não significa desrespeitar quem encontra Deus nela. Pelo contrário, cada pessoa tem seu caminho, sua ponte, sua forma de conversar com o céu. A minha foi mais silenciosa, mais íntima. Foi no meio das minhas dúvidas, das quedas, das noites em que eu conversava sozinha com o teto, que comecei a sentir uma presença que não precisava de intermediários. Era uma fé simples, quase cotidiana, como respirar.
Eu descobri que Deus aparece quando eu cuido de alguém, quando eu escolho ser justa mesmo sem aplauso, quando eu perdoo, quando eu me levanto depois de um dia difícil. Ele está nos gestos pequenos, nos pensamentos que tentam ser melhores do que ontem. Mora nas decisões que tomo quando ninguém está olhando.
E isso muda tudo. Porque quando a gente acredita que Deus vive dentro da gente, a responsabilidade também muda. Eu passei a olhar mais para dentro, a vigiar minhas próprias atitudes, a tentar ser um lugar bom para Ele habitar. Não perfeito, porque ninguém é, mas verdadeiro.
Hoje eu caminho assim: sem precisar provar fé para ninguém, sem carregar rótulos pesados, mas com uma certeza calma de que não estou vazia por dentro. Há uma luz ali, discreta, constante, que me lembra todos os dias que Deus não está longe. Ele está aqui, comigo, vivendo cada passo da minha história.
Tem uma coisa estranha acontecendo dentro da minha própria casa e eu ainda não decidi se isso é amadurecimento ou algum tipo sofisticado de bug emocional. Meu marido anda em silêncio, mas não é aquele silêncio confortável de quem já dividiu tantas palavras que agora pode descansar nelas. É um silêncio que observa. Ele fala pouco, mas quando fala, solta frases que parecem ter vindo de uma reunião secreta com a própria consciência. Diz que agora percebe coisas que antes não percebia. E eu fico olhando pra ele com a sensação de que perdi o acesso à versão anterior do homem com quem eu me casei.
E aí teve o beijo.
Eu estava ali, entregue, porque quando eu amo eu não sei amar pela metade. Eu beijo como quem assina contrato sem ler as cláusulas, confiante, intensa, emocionalmente parcelada em doze vezes sem juros. Só que no meio daquele momento que, teoricamente, era pra ser nosso, eu senti. Não foi falta de toque, não foi ausência física. Foi pior. Foi ausência de presença. É como se ele estivesse ali… mas não estivesse. Como se o corpo dele tivesse comparecido, mas a mente tivesse mandado um representante.
Quando eu abri os olhos, ele estava me olhando. Não era um olhar apaixonado, nem distraído, nem sequer culpado. Era um olhar… analítico. Como se eu fosse um documentário interessante passando na televisão e ele estivesse tentando entender a narrativa. E naquele exato segundo, alguma coisa dentro de mim fez um barulho baixo, tipo vidro trincando devagar.
Eu me senti descartável.
Não descartável no sentido dramático de novela das nove, mas naquele jeito silencioso, sofisticado, quase elegante de perceber que talvez eu não esteja mais sendo vivida, só observada. E isso, pra quem sempre foi intensidade pura, é um tipo de solidão muito específica. Porque não falta alguém ali. Falta ser sentida.
E desde então eu fico tentando decifrar esse novo idioma dele. Será que ele evoluiu e eu fiquei parada? Será que ele está enxergando coisas que eu nunca quis ver? Ou será que ele simplesmente se afastou emocionalmente e agora chama isso de consciência?
O mais curioso é que ele não parece distante no sentido clássico. Ele não brigou, não sumiu, não virou outra pessoa completamente. Ele só… mudou o jeito de estar. E isso é muito mais difícil de confrontar, porque não tem um problema claro pra resolver. Tem uma sensação. E sensação não se debate, se vive.
E eu continuo aqui, meio entre o amor que eu construí e a dúvida que começou a sussurrar. Porque amar alguém que está presente é fácil. Difícil é amar alguém que começa a se retirar sem sair do lugar.
No fim das contas, talvez o maior medo não seja perdê-lo. Seja perceber que, de alguma forma, eu já comecei a perder… e ainda estou aqui, beijando alguém que me olha como se estivesse tentando entender quem eu sou.
Agora me conta, você já se sentiu assim também?
Tem dias em que eu olho pra minha vida por fora e penso, pronto, desandou. Parece aquelas casas antigas que a gente vê passando de carro, com a pintura descascando, a janela torta, o portão fazendo um barulho suspeito de abandono emocional. Tudo meio fora do lugar, meio cansado, meio capenga. E aí, no meio desse cenário que facilmente renderia um drama mexicano, eu faço uma coisa quase subversiva: eu me olho no espelho.
E não é aquele olhar automático de quem só confere se o cabelo cooperou ou se a olheira já virou patrimônio histórico. É um olhar mais demorado, mais honesto, quase um inventário interno. E aí vem o susto: por dentro… está tudo bem.
É estranho, eu sei. A gente cresce achando que paz interior vem depois que tudo se resolve do lado de fora. Depois que o dinheiro entra, o amor se encaixa, os planos dão certo, o mundo aplaude. Mas a vida, essa debochada profissional, faz o contrário. Às vezes está tudo um caos do lado de fora, e ainda assim, lá dentro, existe um silêncio confortável, uma calma quase teimosa que insiste em ficar.
E aí vem o julgamento alheio, claro. Porque quando você não está desesperada o suficiente, o mundo acha que você desistiu. Quando você não está correndo igual uma louca atrás de tudo ao mesmo tempo, interpretam como falta de ambição. Como se paz fosse sinônimo de preguiça emocional. Como se estar bem consigo mesma fosse algum tipo de falha de caráter.
Mas eu descobri uma coisa meio libertadora, dessas que a gente não posta porque não dá tanto engajamento quanto um surto bem editado: nem toda calma é falta de vontade. Às vezes é maturidade. Às vezes é exaustão que virou sabedoria. Às vezes é só a consciência de que nem tudo precisa ser uma guerra.
Eu ainda quero coisas, claro. Ainda tenho sonhos, planos, vontades que cutucam. Mas já não é mais naquele ritmo desesperado de quem acha que precisa provar alguma coisa o tempo todo. Tem uma diferença enorme entre querer crescer e precisar correr o tempo inteiro. Eu continuo caminhando, mas sem me atropelar no processo.
E no meio desse mundo que vive gritando urgência, eu tenho aprendido o valor do que não faz barulho. Do que não aparece. Do que não precisa ser explicado. Porque no fim das contas, de que adianta ganhar o mundo e perder a própria paz? Parece frase de camiseta, mas quando a gente entende de verdade, muda tudo.
Então se por fora parecer que está tudo meio bagunçado, mas por dentro existir esse lugar tranquilo, não se assuste. Talvez você não esteja atrasada. Talvez você só esteja, finalmente, no lugar certo dentro de si mesma.
Não tem escapatória, minha gente, e eu falo isso rindo com um leve desespero elegante, porque no fundo eu sei que é verdade daquelas que não pedem licença pra entrar. A gente pode até caprichar no nome, escolher uma fonte bonita pra lápide, deixar datas organizadinhas como quem monta um feed harmônico, mas em algum ponto da eternidade… pronto, virou história apagada, arquivo morto do universo, figurante do esquecimento. E eu acho isso de um humor ácido quase genial, porque passamos a vida inteira tentando ser memoráveis, enquanto o tempo, debochado, está só esperando a nossa vez de virar poeira premium.
Eu imagino a cena como se fosse uma grande fila invisível, todo mundo muito ocupado vivendo, pagando boleto, se apaixonando errado, acertando por sorte, tirando foto bonita do céu, e lá no fundo, bem no fundo, tem uma plaquinha piscando em neon: “em breve, todos indisponíveis”. E a gente segue. Segue como se não soubesse. Ou pior, como se tivesse todo o tempo do mundo pra começar a viver de verdade depois.
E é aí que mora a ironia mais deliciosa e cruel. A gente adia o riso, economiza abraço, engole vontade, guarda palavras como se fossem peças raras de museu, sendo que no fim… ninguém leva nada. Nem o orgulho, nem o medo, nem aquela discussão que parecia tão importante às três da tarde de uma terça-feira qualquer. Tudo fica. Tudo perde o sentido. Tudo vira silêncio.
Eu, sinceramente, acho cômico. Trágico, sim, mas com uma pitada de comédia existencial que me faz rir sozinha às vezes, tipo quem entendeu a piada antes dos outros. Porque no final das contas, somos isso mesmo: poeira com consciência, tentando dar significado ao intervalo entre o nascer e o desaparecer.
E aí vem aquele conselho que todo mundo já ouviu, mas que quase ninguém leva a sério de verdade: viver o agora. Parece frase pronta de caneca, mas quando a gente para pra encarar sem filtro, dá até um friozinho bom na barriga. Porque o agora é a única coisa que não mente. O agora não promete, não enrola, não cria expectativa. Ele simplesmente acontece. Cru, intenso, imperfeito… e absurdamente precioso.
O futuro? Ah, esse é um mistério com data garantida e roteiro desconhecido. A única certeza é que ele chega. Mas como chega… ninguém faz ideia. E talvez seja exatamente isso que deveria fazer a gente viver com mais coragem, mais verdade, mais presença. Porque esperar o momento perfeito é quase uma piada interna do universo. Ele não vem.
Então eu decidi, entre um pensamento profundo e outro completamente inútil, que vou viver como quem sabe que é passageira, mas não insignificante. Vou rir mais alto, amar mais sem cálculo, sentir mais sem pedir permissão. Porque se no fim eu vou ser esquecida mesmo… que pelo menos eu tenha sido intensamente lembrada por mim enquanto estive aqui.
Meu pai é pobre lascado, minha mãe sempre foi violentada por ele, até Enlouquecer, mais de 30 anos de abusos... Perdeu a sanidade Mental, passou por hospitais psiquiatricos e tratamentos de choque, nós cuidamos dela, ela ficou melhor, está lá com ele novamente, e diz que ele nunca fez nada com ela e nem conosco... Não tenha pena de gente assim! Eles sofrem por suas próprias escolhas e dependência emocional. Lavei minhas mãos...
Ela sempre nos ameaça, dizendo que a gente que precisa ir preso no lugar dele, só porque a gente fala pra ela deixar ele. Nunca parou de apanhar dele, está enlouquecendo novamente!!
NOSSOS GENITORES, NOSSOS ALGOZES!!
Durante muitos anos da minha vida, enfrentei situações que colocaram à prova a minha fé, a minha força e a minha capacidade de continuar seguindo em frente.
Meu pai sempre esteve envolvido com práticas que ele dizia serem destinadas a mim, aos meus irmãos e a outras pessoas. Ao longo dos anos, vi inúmeras situações que me fizeram acreditar que tentaram destruir a nossa vida de várias formas. Mas, apesar de tudo, existe uma certeza que carrego dentro de mim: Deus sempre foi o meu guardião supremo e nunca permitiu que eu fosse derrotada.
Houve uma pessoa que me odiava profundamente e fez um trabalho de vodu contra mim. Até hoje sinto dores exatamente nos locais onde, segundo o ritual, teriam sido colocadas agulhas. Muitas pessoas podem interpretar isso de maneiras diferentes, mas eu sei o que vivi e o quanto aquilo marcou a minha trajetória.
Em outro momento, uma colega de trabalho, que era obcecada pelo meu marido, comentou abertamente que estava acostumada com trabalhos de feitiçaria. Pouco tempo depois, ela me presenteou com um body vermelho. Algo dentro de mim não se sentiu em paz. Resolvi jogar a peça fora.
Anos mais tarde, quando morávamos em outro lugar, aconteceu algo ainda mais estranho. Uma garota roubou uma regata do meu esposo que estava secando no varal. Durante a pandemia, ela também tentou obter o nome completo dele para realizar um cadastro que nunca chegou a acontecer. Algum tempo depois, descobrimos algo que nos deixou profundamente inquietos.
Meu marido estava organizando uma caixa de sapatos quando encontrou duas mechas de cabelo vermelho dentro de um par de tênis que eu havia ganhado do meu irmão. Uma mecha estava em cada pé do tênis. Naquela casa não havia mais ninguém com cabelos daquela cor. Eu havia dado roupas minhas para essa mesma pessoa anteriormente. Quando encontramos aquelas mechas, diversas situações passadas começaram a fazer sentido em minha mente.
O mais impressionante é que, durante toda aquela semana, antes mesmo de descobrirmos os cabelos, eu tive sonhos recorrentes com oferendas descendo pelas águas de um rio. Em uma das manhãs, acordei sentindo um cheiro intenso de velas queimando misturado ao aroma característico que eu associava a locais de culto espiritual. Naquele mesmo dia, os cabelos foram encontrados.
Depois desse período, minha saúde começou a piorar drasticamente. Passei por momentos extremamente difíceis. Houve ocasiões em que senti que meu corpo estava desistindo de lutar. Mas, mesmo nos momentos mais sombrios, quando tudo parecia perdido, pessoas que me amam moveram o mundo para me ajudar. E acima de tudo, Deus me sustentou.
Por isso, carrego uma profunda gratidão.
Nenhuma feitiçaria, nenhuma maldade e nenhum desejo de destruição foi capaz de apagar a minha existência. Posso ter ficado fraca muitas vezes, mas nunca fraca o suficiente para que a minha vida fosse tirada.
Deus sempre foi o meu guardião e protetor.
Mas as feridas mais profundas não vieram apenas de fora.
Vieram dentro da própria família.
Meu pai passou a vida nos amaldiçoando. Dizia que o sonho dele era nos mandar para o Iraque para morrermos em uma guerra. Além das palavras cruéis, houve violência física, psicológica e inúmeras formas de abuso que deixaram marcas profundas em todos nós.
Nossa mãe, infelizmente, foi conivente com tudo isso.
Com o passar dos anos, compreendi que algumas pessoas não mudam. Aprendi que, para existir paz verdadeira, certos laços precisam ser rompidos de forma definitiva.
Hoje não existe ódio dentro de mim.
Existe apenas a valorização da paz que conquistei.
Quando eu tinha apenas 16 anos, depois de passar uma noite inteira sendo torturada pelo meu genitor, tomei a decisão mais importante da minha vida: fugir. E não fui sozinha. Levei comigo meus três irmãos.
Naquele momento, eu era apenas uma menina, mas fui obrigada a amadurecer rápido demais.
Infelizmente, nossa mãe decidiu levá-los de volta para aquele ambiente de sofrimento. Eu nunca mais retornei.
Apesar dos erros, tenho orgulho da coragem que tive naquela época. Tenho orgulho da menina que enfrentou o medo para buscar liberdade.
Hoje, depois de tantos anos, finalmente consegui afastar meus irmãos daqueles que foram nossos algozes.
Somos livres.
Livres dos abusos.
Livres das manipulações.
Livres do medo.
Livres das correntes invisíveis que tentaram nos prender durante toda a vida.
Olho para trás e vejo uma história marcada por dor, perdas, perseguições e batalhas que pareciam impossíveis de vencer.
Mas também vejo uma história de sobrevivência.
Uma história de resistência.
Uma história de fé.
O mundo muitas vezes pareceu estar contra mim, mas Deus nunca deixou de lutar ao meu lado. Em cada batalha, em cada lágrima, em cada momento em que pensei que não conseguiria continuar respirando, Ele me sustentou.
Hoje, meus irmãos estão livres.
Eu estou livre.
E meu coração transborda gratidão.
Gratidão a Deus.
Gratidão à vida.
Gratidão ao Universo.
Porque, apesar de tudo o que tentaram fazer, nós sobrevivemos.
E finalmente conhecemos o significado da liberdade.
Quando olho para a minha história, percebo que o que mais me marcou não foi apenas a violência que vivi.
Foi a quantidade de responsabilidades que colocaram sobre os ombros de uma criança.
Uma criança deveria estar preocupada em brincar, estudar, fazer amizades e descobrir o mundo. Eu não tive esse privilégio. Desde muito cedo precisei aprender a sobreviver.
Aprendi a reconhecer sinais de perigo antes mesmo de entender muitas outras coisas da vida. Aprendi a identificar mudanças de humor, ameaças e situações que poderiam terminar em violência. Aprendi a proteger meus irmãos quando eu mesma precisava de proteção.
Durante muito tempo, enxerguei isso como força.
Hoje entendo que essa força nasceu da necessidade.
Eu não escolhi amadurecer cedo.
Fui obrigada.
Eu não escolhi me tornar protetora.
Fui obrigada.
Eu não escolhi carregar preocupações de adultos quando ainda era uma menina.
Fui obrigada.
Eu não escolhi conhecer o medo antes de conhecer a segurança.
Fui obrigada.
E talvez seja por isso que, ao longo dos anos, eu tenha desenvolvido uma capacidade enorme de resistir.
Mas existe uma diferença entre ser forte e ser forçada a ser forte.
Muitas pessoas elogiam a resistência de quem sobreviveu. Poucas percebem o preço que foi pago para construí-la.
Mesmo assim, existe algo que me traz paz quando olho para trás.
Apesar de tudo o que aconteceu, eu não permiti que a violência definisse quem eu me tornaria.
Poderia ter reproduzido o mesmo ciclo.
Poderia ter me tornado uma pessoa amarga.
Poderia ter passado adiante toda a dor que recebi.
Mas escolhi outro caminho.
E talvez essa seja uma das minhas maiores vitórias.
Com o passar dos anos, percebi que a minha luta não era apenas por mim.
Era também pelos meus irmãos.
Eu sabia o que estávamos vivendo. Sabia o quanto aquilo nos destruía por dentro. Sabia que, se ninguém fizesse algo, aquela realidade continuaria se repetindo.
Por isso, quando finalmente consegui me afastar daquele ambiente, uma parte de mim nunca desistiu de ajudá-los a enxergar que existia vida além daquele sofrimento.
Hoje, quando digo que me sinto com a missão cumprida, não estou falando de perfeição.
Estou falando de liberdade.
Porque para quem cresceu em um ambiente saudável, liberdade pode significar muitas coisas.
Mas para mim, liberdade sempre teve outro significado.
Liberdade é dormir sem medo.
Liberdade é não ouvir gritos.
Liberdade é não viver esperando a próxima ameaça.
Liberdade é não precisar olhar para trás o tempo todo.
Liberdade é poder respirar em paz.
Durante anos eu vivi em estado de alerta.
Hoje eu vivo em estado de gratidão.
Não porque o passado deixou de existir.
Não porque as cicatrizes desapareceram.
Mas porque finalmente compreendi que sobrevivi.
As marcas continuam em meu corpo.
Algumas lembranças continuam em minha mente.
Mas aquilo que tentaram destruir permanece vivo dentro de mim.
A minha fé permanece.
A minha capacidade de amar permanece.
A minha esperança permanece.
A minha vontade de viver permanece.
E quando olho para os meus irmãos livres daquele ambiente, percebo algo que me emociona profundamente.
Nós conseguimos.
Depois de tantos anos de medo, dor, lágrimas e sobrevivência, nós conseguimos.
Eles marcaram partes da nossa história.
Mas não conseguiram escrever o nosso destino.
Hoje, eu não sou mais a menina que vivia esperando a próxima tragédia.
Sou a mulher que atravessou a tempestade e permaneceu de pé.
E isso ninguém jamais poderá tirar de mim.
30/11/2017
Acordei pela manhã após uma longa noite de pesadelos infinitos.
Reflexos da minha realidade ainda lembrados sem que eu pudesse impedir.
Chorei mais uma vez.
Como se aquilo me machucasse inteiramente por dentro.
No sonho, eu e meus irmãos éramos totalmente massacrados por nosso pai.
Não fazíamos barulho algum.
Nem mesmo conversa.
Ele nos ameaçava com palavras terríveis.
Como no passado, quando éramos crianças.
Igualmente.
Até que resolvemos partir pra longe dali, da nossa casa.
Mas, no atalho que passávamos, vi atrás, há alguns metros, meu pai apontando uma arma pra nós.
E aconteceu.
Ele matou primeiro meu irmão do meio, acertou bem no coração.
A segunda bala atingiu meu irmão mais velho, no qual é cinco anos mais jovem que eu.
A terceira bala, me atingiu, bem no peito.
Ele acertou em cheio nossos corações.
Vi meus irmãos caírem, a passos de distância de mim.
Foi difícil conter as lágrimas, enquanto eu também morria com um tiro no coração.
Morremos os três. Só o irmão caçula que não foi morto, pois ele tinha ficado pra trás.
Acordei, e foi um impacto tão forte que não contive minhas lágrimas.
Bom, não peço e nem quero tais pesadelos.
Mas, infelizmente o passado me atormenta todos os dias.
Mas, pelo menos, eu tenho liberdade hoje pra viver a minha vida.
Meu pai, sempre foi o vilão do nosso fracasso.
A gente tenta conter as lembranças ruins, substituindo - as por coisas maiores. Que possa nos trazer paz.
Mas, em uma vez ou outra, pesadelos vêm, como se fossem trazidos por espíritos do além, que parecem querer devorar nossa felicidade.
Mas, não conseguirão jamais.
Passamos por tantas coisas nessa nossa jornada, que é difícil acreditar que ainda estamos vivos.
Sentimos orgulho do que somos agora.
Nós somos filhos de Deus.
E a nossa história, por mais que seja complicada e dolorosa de lembrar, somos mais que vencedores."
