Amor no Tempo Maduro- Carlos Drumond de Andrade

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AMOR MADURO

O amor maduro não é menor em intensidade. Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão. É mais definido colorido e poetizado. Não carece de demonstrações: Presenteia com a verdade do sentimento.

Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo. Mas vive dos problemas da felicidade. Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem, o prazer. Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro. Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca e do cheiro do outro - está a compreensão antecipada, a adivinhação, o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto, os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver, o equilíbrio de carne e de espírito.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa. Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois, vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos
antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.

Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão, basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito. Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso. É feito de compreensão, música e mistério.

É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança. É o sol de outono: nítido, mas doce.

Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo.

Artur da Távola

Nota: Trecho adaptado de um texto do autor.

O amor é um egoísmo a dois.

O amor é um poema essencialmente pessoal.

O nosso amor-próprio exalta-se mais na solidão: a sociedade reprime-o pelas contradições que lhe opõe.

O amor-próprio dos tolos desculpa o das pessoas inteligentes, mas não o justifica.

O amor-próprio do tolo, quando se exalta, é sempre o mais escandaloso.

Pode ferir-se o amor-próprio; matá-lo, nunca.

O verdadeiro amor só conhece a igualdade.

Mors Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

O nosso amor-próprio é muitas vezes contrário aos nossos interesses.

Ninguém é mais adulado que os tiranos: o medo faz mais lisonjeiros que o amor.

O amor começa pelo amor; não se pode passar de uma forte amizade senão para um amor fraco.

É mais fácil perdoar os danos do nosso interesse que os agravos do nosso amor-próprio.

Os bens que a ambição promete são como os do amor, melhores imaginados que conseguidos.

A obstinação nas disputas é quase sempre efeito do nosso amor-próprio: julgamo-nos humilhados se nos confessamos convencidos.

Ninguém nos aconselha tão mal como o nosso amor-próprio, nem tão bem como a nossa consciência.

Somos enganados mais vezes pelo nosso amor-próprio do que pelos homens.

Suportamos tudo isso, por amor dos eleitos.

Sou maduro o bastante para perdoar, mas não sou idiota o suficiente para confiar novamente...

O que se tornou perfeito, inteiramente maduro, quer morrer.