Amor no Tempo Maduro- Carlos Drumond de Andrade
Não permita que a pressa alheia determine o ritmo do seu crescimento, o tempo da lagarta é diferente do tempo da borboleta.
O tempo é a água ácida que dissolve a superfície, levando a espuma e o adorno, o que resiste à erosão é a densidade bruta da essência, o mineral que não se rende ao esquecimento.
O tempo é o escultor indiferente que gira o torno, mas a argila, a substância da sua história, é sua e de mais ninguém. A responsabilidade de dar forma e alma à obra é um fardo exclusivo e glorioso.
O tempo é o arauto gélido que apenas anuncia o inevitável fim dos ciclos, mas o bisturi da mudança está em suas mãos.
A decisão de cortar o passado é sua
e só sua.
A saudade não é a ausência de um corpo, mas a presença fantasmagórica de um tempo que não se resigna, é a memória
em brasa, o passado que se recusa
a ser apenas pó.
A espera é o lugar de treino onde a paciência cresce e se aprimora. Não é tempo perdido e parado, mas um momento especial onde Deus trabalha em coisas que não podemos ver. Se quisermos colher antes da hora, teremos frutos amargos, é essencial respeitar o tempo da semente, honrando o silêncio da terra onde a promessa ganha força.
O tempo não cura tudo, apenas muda o lugar onde a dor se acomoda. Às vezes ela se torna menor, às vezes muda de forma, às vezes se transforma em sabedoria. E em raros momentos, vira força. Mas nunca desaparece totalmente.
Há feridas que o tempo não cicatriza, ele apenas ensina a pintar por cima. Cores novas, técnicas de ocultar, a vida vira tela retocada. Passo o pincel, sorrio ao espelho e finjo que a obra está completa, mas sei que por baixo do verniz a dor ainda pulsa, insistente.
Aprendi que o tempo não é cura, apenas mateiro. Ele disfarça as dores com cascas novas e leves. Mas quando anoitece, a lembrança volta com precisão de relógio. Há melodias que não tocam mais no rádio, mas habitam meus ossos. E eu aprendo novamente a escutar essa partitura antiga.
A saudade canta com uma voz que ninguém ensina, vem das feridas do tempo, e transforma ausência em uma música que dói.
As lembranças que mais doem são também as que mais amei. Elas têm perfume e corte ao mesmo tempo. Passei a tratá-las como se fossem frascos delicados. Abrir um a cada dia é exercício de coragem. E as lágrimas que saem servem para
regar memórias.
Há amizades que chegam como salva-vidas improvisado. Não seguram a embarcação, mas dão tempo. Com elas aprendi a pedir socorro sem vergonha. O orgulho, às vezes, é coisa que afunda. E, por sorte, há mãos que nos puxam de volta.
Às vezes penso que sou ilha e ponte ao mesmo tempo. Isolado, construo travessias para quem está perto. Há dias em que não quero ponte alguma. Outros, sou inteiro de tal modo que abraço o mar. E nessas variações, descubro meu próprio ritmo.
Performance de normalidade: dou bom dia, sorrio no tempo certo e respondo com polidez, enquanto por dentro, tudo desaba em silêncio.
O vazio não se preenche, se integra. Com o tempo, ele deixa de ser um buraco e passa a ser a mochila que você aprendeu a carregar.
Há memórias que são feridas abertas, sangram sem aviso, ignoram o tempo e nos lembram que o passado nunca dorme.
Escrever é o meu jeito de dizer ao tempo que, embora ele esteja vencendo a batalha contra o meu corpo, minha voz ainda ecoa nos vãos das horas. Cada palavra é um prego que martelo na parede do esquecimento, tentando segurar o retrato de uma alegria que já não reconheço.
Sinto falta de uma infância que talvez nem tenha existido, um tempo de barro e sol onde o amanhã era apenas uma hipótese irrelevante. Hoje, o futuro é um monstro que se alimenta das minhas horas de sono, sussurrando que o tempo é uma ampulheta cheia de vidro moído.
O tempo é um alfaiate cruel que vai apertando nossas roupas de esperança até que não consigamos mais respirar sem sentir a costura do passado nos sufocar. Aprendi a andar nu de expectativas, vestindo apenas a pele crua da realidade, por mais fria que ela seja nas manhãs de junho.
