Amor entre Almas
CRONIQUINHA SEM VERGONHA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Entre o safado e o sem vergonha existe uma diferença considerável. O safado é um sem vergonha com intenções ocultas ou escusas. A sua sem-vergonhice tem alvo externo; quer sempre algo de alguém.
Já o sem vergonha é um safado sem malícia. Ele apenas não tem vergonha; sua safadeza é natural. Não estabelece alvo, resposta nem projeto externos, quando a exterioriza.
É meio louco escrever isto. Quem leu esta insanidade poderá desler, para se despir do risco de já ter gostado. Quanto ao mais, perdoe este sem vergonha pela safadeza de ocupar seu tempo com esta croniquinha.
CRIADOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Aprendi a rezar um poemário
que sulquei entre as tábuas do meu ser,
é berçário e mortalha de meus sonhos,
primavera e geleira de quem sou...
Sou autor desta bíblia solitária
cujos salmos profanos me libertam,
me despertam pra dor de cada dia
e me curam de qualquer perfeição...
Ser poeta me faz o criador,
o senhor do vazio que abarrota
este mundo suspenso em meu espaço...
Fiz-me carne do verbo poemar,
sobre o mar onde a vida já pairava
lá no meio do início de meu fim...
VERSOS DE ALERTA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Pense um tempo de gente que achou equilíbrio
entre todas as formas de avanço e conquistas,
pois lançou suas vistas além do seu eu;
desaguou na importância de todos os seres...
Veja um mundo em que todos têm tempo de amar,
porque viram que o tempo se refaz e rende,
quando a gente se aprende nas lições do outro
e se mira no aço das próprias verdades...
Uma vida mais leve reside no casco
do que pode não ser mas compramos que sim,
sob o fim que se vende como sem saída...
Reatemos os elos do sonho rompido,
somos mais do que pedras em nossos caminhos
ou espinhos trocados em nome do nada...
O QUE A VIDA ME DEU
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Encontrei meu lugar, é jamais tê-lo
entre a sombra dos anos que se vão,
sob gelo, silêncio e nostalgias
ou saudades de chãos que nem pisei...
É jogar a minh´alma em cada corpo
que prometa o remédio pra carência;
cada forma de olhar na qual me aqueça
ou encontre dormência pro que dói...
Aprendi a me achar, é me perdendo
e me vendo nas linhas de horizontes
onde os mares me chamam sem destino...
Tenho apenas o dom de não saber
o que a vida me deu pra perguntar,
meu lugar é não ter pra onde ir...
TINTAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não entendo a loucura de quem não é louco
entre tantas razões pra perder a razão,
para ter ilusão de que o mundo melhor
é viver nesse mundo que o mundo não é...
A maior das loucuras é ter sanidade,
suportar estes tempos alheio ao sonhar,
ver de frente a verdade; quem sabe de costas;
não voar para longe nem ter fantasias...
Só entendo esta vida sem nada entender,
sem me ver enredado por sua frieza,
reduzido a pessoa nada pessoal...
Nunca fui essa massa que o todo modela;
sempre fui a novela que se auto escreve
com as tintas do sonho que não busca ibope...
DOR DE SOLIDÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Meu olhar serpenteia por entre seus olhos,
arma o bote na calma de minha tensão,
pra sugar no silêncio desta timidez
o que seu coração talvez queira dizer...
Novamente me acanho, só me assanho em sonho
e por mais que me chame pra fora de mim,
mais me ponho em meus medos de não ser feliz
nos engenhos guardados pra quando não sei...
Mas também pode ser que seu ser sequer tenha
uma lenha viável pra chama que trago,
um afago na força do meu bem querer...
Minha voz trai meus olhos e cala o calor,
volto cheio de nada, vazio de tudo
que tentei dar à dor de minha solidão...
GENTE ILESA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quero gente com tempo pra perder
entre o tempo corrido, assoberbado,
numa leve conversa; só de gente;
sem os ranços do quadro funcional...
Tenho grande ambição de gente livre
pra sair dos projetos, dos ofícios,
dos comícios, das elucubrações,
e lembrar que pessoas são pessoas...
Busco gente ocupada com a lida,
mas que tenha uma vida pra sorver,
para ver que amizades não têm preço...
Já me canso do mundo impessoal;
do real que desmente o ser humano;
quero gente com tempo de ser gente...
SONETO FORÇADO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Hoje sinto a poesia engarrafada
entre as vias ou veias em conflito;
quanto mais a procuro, chamo e grito
mais a perco no abismo do meu nada...
Choro a seco, meu brado soa mudo;
sai dos olhos e some pela estrada;
gasto verbos na folha rabiscada,
mas não digo a que vim depois de tudo...
De repente a poesia vem à marra
feito bicho acuado que se solta;
filho dócil que um dia se desgarra...
Foi um feto inspirado, porém torto,
que rompeu as amarras da revolta
e nasceu apesar de quase morto...
VALE VIDA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Uma vida só vale seu tempo cumprido
entre sonhos, ações, utopias, verdades,
o cupido, as paixões, desafios aceitos
e as quedas seguidas de novos perigos...
Não há mundo que valha um só giro no espaço
se não for pra causar as vertigens de praxe,
pra borrar nossa guache, nossas aquarelas,
nos fazer insistir e pintar outros quadros...
Todo tempo se cumpre com horas feridas,
porque vidas precisam afrontar a morte
ou serão evasivas; vazias de causa...
Vale a pena viver sem certeza e promessa,
sem a peça que sempre nos falta encaixar
e assim desfazemos pra fazer de novo...
EXPRESSO 666
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um Cristo forjado entre seres de bem;
uma crista que aguça exaltações febris;
um além prometido pra este momento
em que todos precisam de alguma miragem...
Multidões enaltecem a lenda fugaz;
bradam raivas ungidas, fanatismo pátrio;
pregam paz e guerreiam redundantemente,
por efeito maciço de alguma hipnose...
Um rebanho tangido por gritos de ordem;
umas tristes ovelhas alegres de tontas;
todas prontas pro dia de seus holocaustos...
São regidas por ódio e por frases sagradas,
vão marcadas pra terem uns dias de glória
e depois amargaram seus anos de culpa...
VITALÍCIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Seria o mundo vital;
justiça; paz entre o povo;
o sonho certeiro...
Ah, se fosse natal
de natal a natal...
também fosse ano novo
o ano inteiro!
PROMISSÓRIA SOCIAL
Demétrio Sena - Magé
Foi aquele que aquela concebeu
entre urros e muitos xingamentos;
uma boca excedente pra ter fome
com os outros rebentos tolerados...
Aqui fora também não lhe quiseram;
é aquele que aqueles avacalham
e navalham por vir também daquela
que por outros aqueles foi usada...
Sempre foi um aquilo social
que ninguém saciou de pão e lida;
meio quilo de olhar a apiedado...
A doença que o fere contagia;
cada dia os aqueles ou aquilos
multiplicam a nossa promissória...
FANATISMO
Demétrio Sena - Magé
Os meus olhos internos não enxergam mitos
entre os donos de vagas nos halls do poder;
quero ser este pária no páreo da pátria
na qual tantos acampam à sombra de alguns...
Nunca hei de ser lêndea nos pelos das lendas
que se formam às custas da fome das massas,
recusei desde cedo as trapaças do sonho
de contar com heróis para ser o que sou...
Não entendo quem acha que alguém é seu deus
e seus olhos apagam a luz da razão,
do bom senso e do amor por afetos reais...
Fanatismo político ou religioso
nos alija do mundo e das nossas verdades;
é um dom venenoso injetado na alma...
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CONVERSÊ BÍBRICO
Demétrio Sena - Magé
Na longa fila do banco, a conversa entre dois idosos evangélicos, aparentemente conhecidos um do outro, estava bem animada:
- Paz do sinhô, irmão! Faz tempo que nóis não se vê!
- A paz, irmã! Sube que a sinhora tá com netinho novo! É home, né?
- isso, irmão! É um varão abençoado!
- Qual é o nome dele, irmã?
- É bíbrico, irmão; quero vê se o sinhô adivinha!
- Hum... é Jusé? Sadraque? Abidinego?
- Não. Vô dá só uma dica. É o nome da pessoa que botô os animá na arca de Noé!
- Aí a sinhora já disse! O nome dele é Noé!
- Noé? Não, irmão! O nome dele é Abraão! Foi Abraão quem botô os animá na arca!
- Não, irmã; foi o Noé mermo; ajudado pela famía!
- Nada disso! Eu sô professora da escola dominicá! Sei o que tô dizeno!
- Irmã, me adescurpe; mas acho que a sinhora tá inganada...
Foi, não foi; não foi, foi; parecia o poema OS SAPOS, de Manuel Bandeira. O diálogo foi esquentando, com ambos querendo saber mais que o outro, até que um senhorzinho franzino, enfiado em um terno laranja e com cara de veterano em assuntos "bíbrico" resolveu entrar na questão.
- Os sinhores me adescurpe; mas os dois tão errado. Não foi Abraão nem Noé quem botô os bicho na arca.
- Uai; mas entonce quem foi, se não foi nenhum deles? - Perguntou a mulher, com ares de muita indignação.
- É, eu tomém quero sabê; proque agora fiquei na dúvida. - Desafiou o outro.
- Foi Pilatos, meus irmão na fé... ocês tomém são invangélico, num são?
- Somo sim. Somo - Respondeu a mulher -; mas fala, irmão. Eu nunca sube dessa; que foi Pilatos quem botô os bicho lá.
- Eu tomém não; mas o senhô tem arguma prova? Prova mermo? Bíbrica?
- Os dois pense comigo: quem a Bíbria disse que lavô as mão? Num foi Pilatos?
- É; isso foi, mas... - A mulher tentou questionar.
- Pois entonce, meus irmão! Se Pilatos lavô as mão, foi proque as mão ficô tudo suja, de tanto animá que pegô!
- Agora o sinhô pegô nóis.
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SOBRE UM NOVO TEMPO
Demétrio Sena - Magé
Entre as inúmeras formas de renovação humana e social que desejo a cada novo ciclo - pessoal ou coletivo -, sonho com um tempo de menos teorias da conspiração. Teorias em torno da crença... da não crença ou do ateísmo... da sexualidade, o gênero, a ideologia... dos hábitos, o passado, a origem e a cultura do outro, que só dizem respeito ao outro. Que não causam danos reais ao seu redor (as teorias da conspiração envolvem danos fantasiosos, todos causados por desinformação, superstições e fanatismo).
Se começarmos o ano cuidando mais de nossas vidas e menos das dos outros... desejando a nossa felicidade mais do que a infelicidade alheia... disputando menos destaques pessoais e dando menos ouvidos ao que não é de nossa conta e podemos observar silenciosamente, por conta própria, teremos um ano melhor. Já o mundo melhor exigirá de nós, mudanças mais profundas de pensamento, ação e respeito ao outro. Seja como for, é sobre nós em relação ao próximo e seu direito a ser quem é.
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AMIZADES E "AMIZADES"
Demétrio Sena - Magé
Entre dois amigos, os conceitos de amizade costumam ser diferentes. Algumas vezes, conflitantes. Mas quando as diferenças ou conflitos não desaguam em amizade unilateral, nada fere o sentimento nem desata o laço. Amizade unilateral é quando só um se importa com o outro. Só um procura, chama, inclui, dentro de suas possibilidades reais, e sabe que um sentimento sincero sempre tem possibilidades reais. Esse saber é fundamental na manutenção de uma amizade... sem ele, o relacionamento unilateral definha, com o tempo, porque o próprio tempo conspira contra tal critério de envolvimento.
Nas amizades bilaterais, as diferenças de pensamentos não envolvem graus diferentes de amizade. Não sustentam uma amizade maior de um lado, menor do outro. Nenhum dos lados é egoísta, personalista, sonso e traidor. Um lado pode ser esturrão, explosivo, difícil de dar o braço a torcer em questões cotidianas e, até injusto por algum tempo, nessas questões... mas o consenso final é sempre certo. Sempre existem ajustes, considerações e os apelos afetivos capazes de aparar as arestas, sem deixar cicatrizes. O que não ocorre, de modo algum, é a condição de uma amizade ser mantida depois de uma traição; uma "rasteira"; uma sucessão de mentiras graves, atos antiéticos, silêncios e distanciamentos desnecessários de um lado, até que o outro se cansa e silencia, de uma vez. Afasta-se definitivamente.
Em um todo, é a falta de sinceridade, transparência e franqueza que resulta o esfriamento gradual ou imediato do lado sincero, transparente e ativo da amizade. O mais espantoso é que, depois do fim desse relacionamento, aquele ou aquela que gradualmente gerou o desgaste, o cansaço e a desistência no outro, é quem há de gritar aos quatro ventos que, a amizade acabou porque o outro lado foi incompreensivo. Não foi longânimo. Pior que foi. Só não foi de aço, de gelo ou mármore. O que sempre correu em suas veias foi sangue de verdade. Sangue humano.
Mas, ó: estou separando amizades unilaterais de amizades bilaterais, aquelas em que ambos os lados, com suas diferenças, até gritantes, são iguais em nível, relevância e profundidade.
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Respeite autorias. É lei
Amigo, um elo entre eu Deus.
Como e bom saber que Deus é meu melhor amigo.
Que através de você ele demonstra todo o carinho, respeito, dedicação, empatia e todo o amor que tem por mim.
Obrigado por ser este canal.
Sei que através de você nunca irei me sentir sozinho.
Entre a felicidade e a tristeza existe um tempo para esquecer.
Entre a vitória e a derrota existe um tempo para aprender.
Na vida adulta, encontramos o equilíbrio entre a liberdade de escolha e a responsabilidade de agir, transformando desafios em oportunidades de crescimento
