Amo a Mim Mesmo
Encontro em Fumaça
Sentei-me diante de mim mesmo —
mais jovem, mais leve, mais inteiro —
como quem ainda não havia aprendido
a negociar com o mundo.
Havia silêncio suficiente
para caber duas versões da mesma alma.
Olhei para ele —
e, talvez por hábito, talvez por fuga —
acendi um cigarro.
A chama breve iluminou o intervalo
entre quem fui
e quem me tornei.
Ele me olhou sem dureza,
sem reprovação —
apenas com um espanto limpo,
quase infantil.
E então se levantou.
Sem pressa.
Sem ruído.
Sem discurso.
Levantou-se como quem não reconhece mais
aquele gesto,
ou talvez —
aquele homem.
Fiquei ali,
com a fumaça desenhando dúvidas no ar,
tentando entender
em que ponto da estrada
eu havia aprendido a precisar daquilo
que antes não me habitava.
— Não era sobre o cigarro.
Era sobre ausências.
Sobre os silêncios que deixei de escutar.
Sobre os pesos que aceitei carregar
sem perceber quando começaram.
A cadeira à minha frente vazia
doía mais do que qualquer julgamento.
Mas então —
quase como um eco que não se apaga —
senti que ele ainda estava ali.
Não no corpo,
mas na lembrança intacta
de quem eu fui
antes das camadas.
Apaguei o cigarro.
Não como redenção —
mas como gesto de escuta.
E no instante em que a fumaça cessou,
algo em mim também se assentou.
Ele não voltou a sentar-se.
Mas também não foi embora.
Porque há encontros
que não pedem reconciliação em palavras —
apenas um pequeno retorno
àquilo que nunca deveria ter sido deixado.
E ali, no silêncio,
sem precisar dizer nada,
eu me reconheci de novo.
— ainda inteiro,
mesmo depois de tudo.
Paulo Tondella
Eu tive vergonha de mim mesmo
por ter pensado que estava traindo meu parceiro(a), e descoberto que trai a mim mesmo
Às vezes tenho a sensação de viver alguns passos atrás de mim mesmo. Caminho, falo, tomo decisões… mas meus pensamentos parecem observar tudo de longe, como se não reconhecessem totalmente as minhas próprias ações. Há um desencontro silencioso entre quem pensa e quem age dentro de mim.
Sou impulsivo. Sei exatamente os caminhos que deveria evitar, mas, ainda assim, meus pés parecem escolhê-los primeiro. É como assistir a mim mesmo atravessando portas que já sei, de antemão, que não deveriam ser abertas.
Também não sei se amo como os outros amam. Eu cuido, me preocupo, assumo responsabilidades, tento proteger quem está por perto. Faço tudo aquilo que dizem que o amor faz… mas o sentimento dentro de mim é estranho, deslocado, como se estivesse escrito em um idioma que todos entendem menos eu.
Às vezes choro em silêncio. Não por grandes tragédias, mas por pequenas falhas repetidas, por erros que eu mesmo construo com as minhas próprias mãos. Existe uma parte de mim que gostaria profundamente de ser melhor, mais claro, mais correto, mais inteiro.
E, ainda assim, carrego um peso que talvez nem seja meu. Sinto-me responsável por tudo que chega até mim: pelos problemas, pelas pessoas, pelos desencontros. Mesmo aquilo que claramente pertence ao mundo dos outros acaba encontrando um lugar dentro de mim.
Talvez por isso eu viva assim, um pouco perdido, um pouco atento demais, tentando, no meio da banalidade dos dias, encontrar algum ponto onde meus pensamentos e minhas ações finalmente decidam caminhar lado a lado.
"Duvido de pessoas, duvido de fatos,
duvido até de mim mesmo.
Mas sou incapaz de duvidar quando meus olhos encontram o dela.
É nos olhos dela que eu tenho certeza
Ser emo nunca foi uma fase ou um mero modismo pra mim. Mesmo antes de conhecer essa palavra, já era a personificação do seu significado. O emo, tanto o original, enquanto vertente do rock, como no aspecto do estilo, assim como modo de ser, sempre me agradaram e foram parte de mim. Conheci um pouco antes de se tornar um modismo, e nunca neguei ser e gostar.
Quando gosto de algo, não me importa se ninguém conhece, se ninguém gosta, se é uma "moda do momento" ou se é extremamente popular. Pra mim, a única coisa que sempre importou foi se eu gostei ou não. Se me identifico, se aquilo conversa com o meu mundo particular, se me agrada.
Lembro de uma amiga que dizia que quando eu estivesse um pouco mais velha, veria como não gostaria mais do emo e nem me afirmaria como tal. Bom, ela se enganou. Fui, sou e sempre serei emo. Keep emo alive! Mantenha o emo vivo! Viva a cena alternativa!
- Marcela Lobato
— Não é justo com você — disse Magnus. — Eu sempre disse a mim mesmo que ia me abrir a novas experiências, então quando comecei a... a endurecer... fiquei surpreso. Achei que tivesse feito tudo certo, que não tivesse fechado o coração. E aí pensei no que você falou, e percebi que estava começando a morrer por dentro. Se jamais conta a ninguém a verdade sobre si, em algum momento começa a esquecê-la. O amor, a dor, a alegria, o desespero, as coisas boas que fiz, as vergonhosas... se eu guardasse todas para mim, minhas lembranças começariam a desaparecer. E eu desapareceria.
Entre o que faço e o que sou
Hoje eu machuquei a mim mesmo
pra sentir na pele,
pra ver se ainda existo.
Como um masoquista,
buscando um sinal de existência
além do que entrego.
Porque ajudar virou língua materna,
e eu já não sei falar comigo
sem traduzir tudo em cuidado.
Eu me pergunto:
quem sou eu
quando ninguém precisa de mim?
Quando o silêncio não pede escuta,
quando não há dor pra organizar,
quando não há ninguém
na beira do abismo?
Sou eu…
ou sou só a ponte?
Carrego nomes, histórias,
fragmentos de gente
que deixaram pedaços em mim
como quem passa e não volta.
E no fim,
quem junta os meus?
Disseram que o caminho
é seguir em frente,
mas ninguém explicou
como voltar pra dentro.
Qual estrada leva a mim
sem passar por outro primeiro?
E se eu chegar lá,
nesse tal de “eu”,
vai ter alguém esperando?
Ou só o eco
de tudo que fui pros outros?
Tenho medo de ser abrigo
e nunca casa.
Tenho medo de ser caminho
e nunca destino.
Mas hoje…
no meio desse ruído quebrado,
percebi algo pequeno
quase imperceptível:
eu ainda sinto.
E talvez isso
não seja só dor.
Talvez seja um resto de mim
que não foi embora,
uma sombra
carregando um fio de luz.
E se ainda há resto,
há começo.
Mesmo que lento.
Mesmo que torto.
Mesmo que só.
Ou talvez…
não seja solidão.
Talvez eu tenha me escolhido
pela primeira vez
e chamado isso de vazio,
quando, no fundo,
era só um silêncio seletivo
pra ver os outros crescerem
enquanto eu
ainda aprendia
a nascer de novo,
como quem encontra
um desconhecido no espelho.
Aprendendo a existir
sem precisar caber
em alguém.
E hoje,
quando me machuquei
e percebi que ainda sentia,
não foi só dor.
Foi como lembrar
que existe luz
mesmo no lugar
onde eu me perdi.
E pela primeira vez,
eu não corri.
Fiquei.
E talvez…
seja isso começar:
não me abandonar
quando só resta
eu
“Tem dias em que eu me perco de mim mesmo, não por fraqueza, mas porque algumas lembranças me puxam de volta para lugares onde eu ainda não aprendi a me despedir.”
— Anderson Del Duque
"A pressão feita pelo outros é uma corda fácil de cortar; mas a pressão feita por mim mesmo é uma corrente difícil de me liberar."
Lembro-me de mim mesmo quando criança, brincando à noite, pulando degraus. Caí e chorei muito naquela noite, com feridas que sararam logo. Não sei se o degrau era muito grande ou eu muito pequeno, mas tinha um braço ao qual correr e uma pessoa a quem me socorrer.
Me espanta como cresci, e me espanta mais ainda como os degraus crescem. Hoje já tenho em mente que sou pequeno mesmo sendo grande, e vejo degraus em forma de arranha-céus. Porém, os choros dessas noites já não são mais, talvez, pelos arranha-céus, e sim pelo colo não mais presente, pela ausência sentida e pela dor que aumenta.
Não insisto! Pois conheço a mim mesmo, meus limites e até onde consigo chegar. Agradeço a todas as oportunidades que a vida me proporciona.
