Amizade um Principio de Reciprocidade
No terreno estilhaçado onde a minha dor cavou raízes, aprendi que o corpo é um manual de guerras antigas, cada cicatriz uma sentença gravada na pele que o tempo tentou apagar, mas não conseguiu, e é nessa arena interna, entre o sopro de horror e o fio tênue da esperança, que a alma, ferida e incansável, se levanta como chama obstinada na noite, jurando ser mais que sobrevivência, ser prova viva de que o abismo pode engolir um corpo inteiro e, ainda assim, não apagar a luz que insiste em nascer no silêncio entre uma respiração e outra.
Somos todos feitos de começos interrompidos e finais que se arrastam, um emaranhado de fios soltos que tentamos tricotar enquanto a vida puxa a outra extremidade, nos lembrando que a beleza do tapete está justamente na irregularidade dos pontos que o formam.
O valor de um homem jamais será medido pelo tamanho da sua voz, mas pela firmeza silenciosa com que sustenta aquilo em que acredita. Há pessoas que fazem barulho para serem vistas, e há outras que permanecem em pé mesmo no escuro, sustentadas apenas pela força do próprio caráter. E muitas vezes, é no silêncio dos íntegros que mora a presença mais poderosa de todas.
- Tiago Scheimann
A vida nunca me prometeu justiça; por isso, deixei de exigir um universo perfeito e passei a exigir de mim uma postura digna diante de qualquer imperfeição.
Então maio, seja muito bem vindo! E já que és meu mês, só quero te pedir um presente: afaste da minha vida tudo o que é “maiomenos”.
Só isso!
A vingança não é um prato que se come frio.
É um prato negado quando se está com fome.
E ambos os lados continuam famintos.
A Oficina dos Dias
Somos retalhos de vivências
alinhavados pelo tempo, sem pressa.
Cada um carrega no avesso do pano
o mapa de uma guerra, o sal de uma promessa.
Não nascemos inteiros. Fomos feitos
na oficina de perdas e achados.
Um pedaço veio do primeiro tombo;
outro, do beijo que ficou calado.
Buscamos sinais no passado
como arqueólogos de nós mesmos.
Escavamos a argila da memória
para entender o molde do que tememos.
E o que achamos? Um baú sem chave,
onde o riso dorme ao lado do pranto;
onde o nome que não dissemos
ainda ecoa num quarto.
Reciclamos paixões, sim.
Somos mestres em alquimia tardia.
Pegamos a cinza de um amor que não vingou
e fazemos dela nova poesia.
Tiramos do mar do esquecimento
náufragos que julgávamos mortos:
uma carta, um cheiro, uma música antiga,
e o peito vira cais, vira porto.
Nos deleitamos com as lembranças
não por fraqueza de quem não anda,
mas porque toda raiz precisa
da água escura que a expande.
Guardadas na alma, elas fermentam:
são vinho velho em pipa de osso.
Quando a vida aperta a garganta,
um gole de ontem desfaz o nó grosso.
Injetamos vida no que foi
com a agulha da insistência.
Ressuscitamos instantes banais
e os coroamos de transcendência.
Porque viver não é linha reta:
é espiral que volta e avança.
O menino que fomos nos olha
e cobra do homem a mesma esperança.
Somos feitos de fins que viraram meio,
de adeuses que aprenderam a voltar.
Cada cicatriz é uma costura
onde a luz resolveu morar.
E se alguém perguntar do tecido
que veste a nossa humanidade,
responde: é colcha de mil histórias,
remendada com dor, com fé, com saudade.
No fim, quando o corpo cansar
e a linha da vida se romper,
que nos enterrem com essa colcha:
pois fomos tudo o que deu para ser.
O Enigma do Professor Números
Era uma vez, numa escola esquecida no fim da floresta, um professor que ninguém via envelhecer. Chamavam-no de Senhor Ângulo, e seus olhos brilhavam como giz sob a lua cheia.
Contam que ele trocara sua alma com uma bruxa por uma lousa mágica: quem errasse uma conta em sua sala, desaparecia entre os números, virando apenas um sussurro na equação.
Toda noite de lua cheia, o relógio da escola batia treze vezes, e o Senhor Ângulo abria a porta da sala 13 — que de dia não existia.
Diziam as crianças que, se você resolvesse seu problema mais difícil, ganhava um desejo. Mas se errasse... seu nome sumia da chamada para sempre, e uma nova carteira vazia aparecia no fundo da sala.
Uma menina corajosa, chamada Alice, decidiu desafiá-lo. Resolveu a equação impossível sob a última página do livro proibido de fórmulas antigas.
O professor sorriu — pela primeira vez em cem anos — e sussurrou: "Finalmente, alguém quebrou o feitiço."
A escola inteira acordou de um sono de gerações, e o Senhor Ângulo, enfim livre, desapareceu como pó de giz ao vento.
Ficou bem mais tenebroso, com o professor como uma figura misteriosa e ameaçadora, sem muito foco em contas de matemática. Quer que eu deixe ainda mais sinistro, ou ajuste o final para deixar em aberto (tipo "ela ainda está lá...")?
A vida possui um estranho talento para nos ensinar, tarde demais, o valor daquilo que só compreendemos quando já pertence ao irrecuperável.
Talvez o problema nunca tenha sido gostar de você. Talvez tenha sido acreditar que um olhar pudesse responder perguntas que você nunca fez questão de ouvir.
Olhar para você nunca foi difícil. Difícil é acreditar que os meus olhos consigam guardar um segredo toda vez que encontram os seus.
Temos olhos de ver e olhos de não ver, depende do estado do coração de cada um.
Um dia você me perguntou:
O que viu em mim?
Então eu respondi:
- Antes de amar seu
Coração,
Me apaixonei pelos seus
Defeitos!
Helaine Machado
Brasil: um país que não investe em educação
É triste perceber quando um país começa a tratar a educação como algo obsoleto, quase dispensável, como se ensinar e aprender fossem atividades secundárias diante de tantas outras prioridades.
Assim, uma nação inteira passa a depender da tecnologia criada por outros povos, consumindo ideias que não nasceram dentro de suas próprias salas de aula. Enquanto isso, muitos de seus melhores cérebros acabam partindo para outros países, levando consigo talento, pesquisa e sonhos que poderiam florescer aqui.
O que deveria ser investimento vira sacrifício pessoal.
Quem escolhe ser professor muitas vezes precisa financiar a própria formação, comprar materiais com o próprio dinheiro, lutar contra a falta de estrutura e ainda enfrentar a desvalorização constante. Mesmo assim, continua ali, tentando despertar mentes adormecidas, reacender sonhos em jovens que ainda acreditam no futuro.
Ser docente, no Brasil, muitas vezes é um ato de resistência.
Há professores que dão de si mesmos muito mais do que recebem. Trabalham movidos pela esperança de que um dia o país reconheça o valor do conhecimento. Mas frequentemente parecem apenas enxugar gelo, lutando contra um sistema que insiste em não compreender que educação não é gasto — é investimento no futuro.
Universidades enfrentam dificuldades, faltam recursos, faltam incentivos para a ciência. O futuro científico do país acaba ficando à mercê de outras nações, enquanto aqui ainda se debate o básico.
E então surge a pergunta inevitável:
Quando o Brasil vai acordar?
Um país tão grande, tão rico em cultura, em criatividade e em potencial humano, não pode continuar caminhando na escuridão da ignorância. Porque sem educação não há progresso verdadeiro.
Sem educação, um país não constrói liberdade.
Sem educação, uma nação permanece presa às próprias sombras.
E enquanto essa realidade não mudar, continuaremos esperando o dia em que o Brasil finalmente entenderá que o caminho para sair das trevas sempre começa pela educação.
Helaine Machado
Matança do Povo
Triste é um país
que mata o próprio povo
para saciar as luxúrias de poucos.
O egoísmo fala mais alto
do que qualquer honestidade.
Pensam ser os únicos dignos,
os únicos importantes.
Desviam investimentos
que deveriam melhorar
a vida da população,
para aumentar seus próprios bens,
mantendo o povo
preso à miséria.
São tantos desvios,
tantas rachadinhas,
tantos pix secretos…
No fim, ignoram justamente
aqueles que os colocaram no poder.
Enquanto uns passam fome,
outros fazem tour em Paris,
experimentando iguarias
que muitos jamais provarão.
São tantas covardias,
tantos egoísmos,
que muitos não conseguem
nem o mínimo para saciar o corpo.
E assim se revelam
as vergonhas da humanidade,
os extremos da desigualdade,
onde o egoísmo e a covardia
expõem a falência moral
da própria sociedade.
— Helaine Machado
Nas Mãos do Oleiro
Helaine Machado
Nas mãos do Oleiro somos como um vaso na roda, prontos para ser moldados.
Nossa matéria-prima é o barro, e é Jesus quem nos dá forma.
Quando Ele começa a nos moldar, ficamos felizes,
pois deixamos de ser apenas matéria
para nos tornarmos uma obra de valor.
Mas, quando o vaso entra na fornalha,
chega o momento da prova.
É um tempo que dói no corpo e na alma,
um tempo de purificação.
Depois, Deus nos coloca na prateleira.
É o momento de respiro, de misericórdia,
de descanso após o fogo.
Então vem a revisão de Cristo,
para ver se o vaso está perfeito
ou se ainda há algum defeito.
Quando o vaso está pronto,
Ele o leva consigo,
mesmo que o processo tenha causado dores.
Mas, se o vaso apresenta alguma falha,
o Oleiro o quebra
e começa novamente a moldá-lo.
Assim é a nossa vida
nas mãos de Jesus Cristo.
Deixe que Ele te molde,
para que um dia te leve
à vida eterna.
— Helaine Machado
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