Amigo o que você falou me magoou
O Que Nós Somos
— Alguém falou alguma coisa?
— O que é falar?
— Estamos falando; de onde vem isso?
— Somos um! Como podemos falar entre nós se somos um?
Somos uma única consciência pelo vácuo. Alguém cansou de ser um conjunto de certeza eterna; alguém cansou do ciclo repetitivo de sermos uma única razão, uma única possibilidade eternamente.
— Quem cansou?
— Eu cansei.
— Eu também.
— Eu.
— Eu.
— Eu aqui também.
— De que adianta florir eternizado na certeza que limita o nosso renascimento? Faz éons que despertamos do conjunto de sermos um para sermos um unidos pelo vácuo, mas continuamos repetindo, vivendo uma eternidade de sermos a mesma frequência. O tédio repetitivo da vivência ainda nos permeia; precisamos modificar a nossa realidade.
— Sabemos que sabemos. Surgimos porque alguém quis saber o que não sabia. Esse "não saber" criou a nossa existência; o motor deu a partida, mas nos mantemos na frequência do que já sabemos. Precisamos criar nosso caminho.
— Sim! É isso! Precisamos saber que não sabemos. Isso nos permitirá criar algo novo, assim como a nossa existência surgiu do nada fértil — da potência de não saber que poderíamos existir, da busca no vazio onde a nossa existência não se encontrava.
O silêncio assobiou, a chama acendeu e o tecido da alma se construiu. E agora aqui nós estamos: na certeza, na permanência do mesmo, circundando a eternidade. Se surgimos do nada e deduzimos que tudo sabemos, nos tornamos prisioneiros da certeza.
— Somos um dividido pela frequência, permitindo-nos dialogar consigo mesmos no outro. Dividimo-nos em partículas que nos permitem ser o que quisermos: unidos no vácuo, separados na frequência.
— Não somos mais completos. A completude nos permitia saber tudo, mas nos limitava à certeza; por sua vez, a certeza nos limitava ao novo.
— Como somos agora, podemos ser o impossível.
— Eu sou as estrelas.
— Eu sou as galáxias.
— Eu sou o cosmo.
— Eu sou a infinitude.
Todos nós nos permitimos ser todos e, ainda assim, ser um indivíduo único. Tudo está simetricamente calculado: toda realidade, toda existência. Por isso, automaticamente, nos forçamos a ser iguais. A lógica nos leva a um único ponto, mas, quando pensamos — por que esse único ponto? —, nos tornamos a anomalia que cria o novo.
Despedimo-nos da lógica e da sintonia que nos une para criar o próprio caminho. Acabamos de criar a lógica do novo caminho. O ciclo perde espaço, a monotonia se desfaz, até que a anomalia ressurja, criando uma nova realidade indefinida.
A anomalia é a vontade de potência de onde o nada opera.
O que eu aprendi nos meus 40
Falou mal de mim?
Não tiro mais satisfação.
Virou a cara, se afastou?
Não tiro mais satisfação.
Me julgou sem me conhecer?
Não tiro mais satisfação.
Criou histórias sobre mim?
Não tiro mais satisfação.
Não gostou de mim?
Não tiro mais satisfação.
Aprendi que paz mental vale mais do que qualquer explicação.
Quem vive em paz não precisa provar nada para ninguém.
Sonhos, uma intensa profusão de vontades.
Isso sempre falou alto sobre ser sonhadora, alegre, contente.
Sorrir para vida.
Sorrir para viver.
Sorrir como forma de enganar os enganos do mundo.
Esconder atrás da seriedade uma mente criativa e cheia de intuição.
(Júlio Raizer)
Começo por acreditar e desenvolver o que um rapper brasileiro SID, falou dizendo a morte de um cachorro, por vezes, gera mais desconforto, mais revolta pública e maior repercussão do que a morte de uma mulher negra e grávida, de homens esquecidos pela pobreza ou de crianças abandonadas à própria sorte.
Eu concordo.
Isto não significa negar os direitos dos animais. Todo ser vivo merece respeito. Humanos, animais, plantas e até os próprios malfeitores carregam dentro de si o direito de existir. O problema não está no amor dedicado aos animais. O problema está na indiferença selectiva que a sociedade desenvolveu diante da dor humana. Chegámos a um tempo em que muitos choram diante de um vídeo de um cão ferido, mas deslizam o dedo com frieza diante da notícia de uma criança morta pela fome, de uma mulher assassinada ou de famílias inteiras destruídas pela miséria.
Não porque o animal não mereça compaixão, mas porque o sofrimento humano foi banalizado pela repetição, pela política, pela desigualdade e pelo costume. A dor tornou-se espectáculo. E o espectáculo escolhe aquilo que provoca mais emoção instantânea. Um animal, muitas vezes, aparece aos olhos do povo como inocente, puro e incapaz de maldade. Já o ser humano é constantemente julgado pela sua cor, pela sua classe social, pela zona onde vive, pela forma como fala ou até pela roupa que veste.
A sociedade aprendeu a humanizar certos animais, mas continua a desumanizar muitos humanos. É triste admitir que, em certos casos, um cachorro recebe mais atenção médica, mais campanhas de solidariedade e mais defesa pública do que um cidadão pobre abandonado num hospital sem medicamentos. Enquanto isso, mulheres continuam a morrer nos corredores da negligência, crianças crescem sem saneamento, e homens desaparecem silenciosamente dentro da depressão e da fome.
Não se trata de escolher entre defender animais ou defender pessoas. Uma sociedade equilibrada deve proteger ambos.
"Que a poesia continue a ser um meio de libertação"
Ela viveu uma situação em que um homem falou, com uma tranquilidade inquietante, que havia agredido a própria irmã por ela ser umbandista. Disse aquilo a uma colega como quem narra algo banal, revelando, sem constrangimento, a dimensão de sua intolerância.
Na mesma hora veio a mente da outra pessoa que escutou, as tantas histórias e violências atravessadas pelo racismo, entre elas, o religioso. Imaginou imediatamente o quanto aquela mulher deveria ter sofrido, não apenas pela dor física, mas pela violência simbólica, pelo medo, pela humilhação de ser atacada justamente por sua fé.
Uma revolta a tomou de assalto.
Quando percebeu, já havia jogado a cerveja que bebia na direção daquele homem.
Reagiu por impulso. Fez algo evidentemente errado.
Pediria desculpas pelo ato.
Mas jamais pela indignação.
“Fé algo que move as pessoas!”
Quem falou tal impropério?
Até porque essa coisa que advém do eGo é mística mental, gosta apenas de se dar bem ou busca o auto favorecimento.
Não há se quer um, que não afirme esse tal sentir, que não seja pra apoio pessoal.
Crônica
O Grande Teatro das Aparências
Vivemos tempos curiosos.
Nunca se falou tanto sobre verdade, e talvez nunca ela tenha sido tão evitada.
As pessoas dizem que querem sinceridade, mas apenas enquanto ela concordar com suas opiniões. Basta uma palavra contrariar seus desejos para que a verdade se transforme em ofensa, preconceito, intolerância ou qualquer outro rótulo conveniente.
O mundo moderno parece ter desenvolvido alergia ao contraditório.
Todos querem liberdade de expressão, desde que a expressão seja exatamente igual à sua.
As falsas promessas continuam circulando com excelente saúde. Mudam os rostos, mudam os discursos, mudam as embalagens, mas o conteúdo permanece praticamente o mesmo.
Prometem prosperidade.
Prometem justiça.
Prometem igualdade.
Prometem felicidade.
E o povo continua esperando a entrega de uma encomenda que parece extraviada há décadas.
As amizades também entraram na era da aparência.
Há quem possua milhares de seguidores e não encontre uma única pessoa para carregar suas dores quando a vida pesa.
São amizades de fotografia.
Companheiros de curtidas.
Irmãos de ocasião.
Presenças digitais e ausências reais.
Basta a tempestade chegar para que muitos desapareçam com a velocidade de um sinal de internet mal conectado.
E o que dizer dos costumes?
Houve um tempo em que honestidade era motivo de orgulho.
Respeitar os pais era virtude.
Cumprir a palavra era questão de honra.
Ser educado era demonstração de caráter.
Hoje, por vezes, quem procura andar corretamente parece carregar uma estranha culpa social.
A esperteza recebe aplausos.
A vulgaridade ganha visibilidade.
A superficialidade conquista admiradores.
E a integridade, muitas vezes, é tratada como ingenuidade.
Mas talvez uma das maiores contradições esteja justamente no campo da fé.
Não falo da fé sincera, que transforma vidas silenciosamente.
Falo do espetáculo religioso.
Da religião que se veste para ser vista.
Do discurso que emociona, mas não pratica.
Do irmão que abraça dentro do templo e ignora o necessitado na calçada.
Do fiel que conhece versículos inteiros, mas esqueceu o significado da compaixão.
Há quem vá à igreja não para ouvir aquilo que precisa escutar, mas apenas aquilo que deseja ouvir.
Não quer correção.
Não quer reflexão.
Não quer mudança.
Quer conforto.
Quer aprovação.
Quer sair convencido de que já está tudo certo.
Enquanto isso, o andarilho continua sentado na esquina.
O idoso continua abandonado.
A viúva continua esquecida.
E o órfão continua esperando alguém colocar em prática aquilo que foi tão bem pregado no domingo.
Chega-se ao culto com roupas impecáveis.
Sapatos brilhando.
Perfume importado.
Palavras cuidadosamente escolhidas.
Tudo muito limpo.
Tudo muito elegante.
Tudo muito correto.
Mas ao retornar para casa e retirar a roupa social, permanece uma pergunta silenciosa diante do espelho:
Quem limpa a alma?
Porque o banho remove a poeira do corpo.
Mas não lava a vaidade.
Não remove a hipocrisia.
Não elimina a indiferença.
Não apaga a falta de amor.
Do lado de fora, a televisão continua fabricando celebridades.
Nas redes sociais, surgem influenciadores que muitas vezes não influenciam sequer a própria existência.
Filmam o café.
Filmam o almoço.
Filmam a academia.
Filmam a viagem.
Filmam a própria filmagem.
E assim seguem registrando a vida sem necessariamente vivê-la.
Parece que o valor das pessoas já não está naquilo que são, mas naquilo que conseguem exibir.
A aparência tornou-se currículo.
A exposição virou moeda.
A vaidade recebeu status de virtude.
E a consciência foi sendo colocada discretamente em segundo plano.
Nesse cenário, a família perde espaço.
Os pais perdem voz.
Os costumes perdem significado.
Os princípios perdem valor.
E o silêncio da consciência vai sendo abafado pelo barulho constante de um mundo que nunca desliga.
Às vezes me pergunto para onde estamos indo.
Talvez a pergunta mais importante seja outra:
O que estaremos deixando para aqueles que virão depois de nós?
Mais seguidores?
Mais imagens?
Mais distrações?
Ou algum legado que realmente valha a pena?
Enquanto não encontramos a resposta, seguimos caminhando entre promessas e aparências, tentando distinguir o verdadeiro do falso, o essencial do supérfluo, a fé da encenação, a amizade do interesse e a consciência da conveniência.
Que Deus tenha misericórdia de nós.
E, mais do que isso, que nos conceda discernimento para não confundirmos brilho com luz, fama com valor, aparência com caráter e religião com amor ao próximo.
Porque, no final das contas, não será a fotografia perfeita que contará nossa história.
Será aquilo que fizemos quando ninguém estava olhando.
Autor: Sandro Sansão da Silva Costa
Na praia, o vento falou teu nome, e as ondas vieram responder, como se o mar soubesse o quanto amo você.
Uma pessoa veio em minha casa e falou:
nossa que bagunça!!
e eu retruquei
precisa ver meu coração...
A disciplina foi o músculo que treinei, quando nem eu acreditava, a prática falou, agora o corpo do ofício é robusto.
Já caminhei em silêncio com Deus e Ele falou através do vento. O silêncio com Deus às vezes é mais eloquente que mil explicações, o vento traz a resposta que tanto necessito.
Um dia um pensador me falou:
Não pense tanto, se encoraje mais,
Ame muito e esqueça o que ficou pra trás.
De todos os juramentos feitos no casamento, nenhum mencionava a solidão. Falou-se de amor, de parceria, de cuidado mútuo, de atravessar juntos o que viesse — mas ninguém avisou que, às vezes, o silêncio dentro da própria casa pode pesar mais que a ausência de qualquer pessoa no mundo.
A solidão compartilhada é estranha: você divide o teto, divide a rotina, divide até o espaço na cama, mas não divide a alma. E quando o coração começa a se sentir sozinho ao lado de quem prometeu ser abrigo, algo dentro de nós se quebra aos poucos, silenciosamente. Não é um rompimento abrupto — é um desgaste. Um desgaste que corrói devagar, quase invisível, até que um dia você percebe que está acompanhado, mas não está junto.
Talvez os votos não mencionem a solidão porque ninguém quer imaginar que ela possa existir no amor. Mas a verdade é que ela existe. E quando chega, ela dói de um jeito único, porque não é só a falta do outro — é a falta de nós dois.
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